"Fake news: Combate deve começar pelo cidadão"

As “fake news” são “fabricadas” de acordo com técnicas já estudadas, que exploram a emoção, o medo ou as teorias da conspiração. Este fenómeno tem menos expressão em Portugal do que noutros países europeus, porque “está escondido”, mas vai aumentar até às eleições deste ano. Investigadora do ISCTE defende que uma das respostas para combater as “fake news” deve começar pelo cidadão a fazer a verificação de factos do que lê, em especial na Internet.
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Em entrevista à agência Lusa, a jornalista e professora universitária Ana Pinto Martinho explicou que este tipo de “informações” pode até ter “um pequeno fundo de verdade”, para “depois fazer levar as pessoas a acreditar noutras coisas que são um pouco mais complexas”.

Quem as faz, baseia-se em temas “em que se percebe que as pessoas estão com maiores problemas”, base potencial para o populismo, acrescentou, num trabalho preparatório sobre “fake news”, tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título “O Combate às Fake News - Uma questão democrática”.

As técnicas de manipulação são várias e misturam o medo e as emoções. Começam pela personificação, recorrendo, por exemplo, ao Twitter para criar um perfil falso, mas parecido com o de alguém, e passam a divulgar “informações”.

Inicialmente, as pessoas acreditam que se calhar é daquela pessoa, depois podem descobrir que o perfil não é verdadeiro, mas “vão seguindo, já lá estão”.

“Uma parte da estratégia” é “jogar com as emoções das pessoas”, tentado instalar “o medo” em relação a determinados temas, como o dos imigrantes, que “vêm tirar o nosso trabalho”, tentando-se ainda estimular a polarização entre campos: "se não estás comigo", estás "do outro lado, e estás errado".

As “teorias da conspiração” são igualmente usadas nesta estratégia e Ana Martinho deu o exemplo das vacinas e da tese de estudos que, veio a saber-se mais tarde, estavam errados, e que apontavam para riscos de autismo ou outros efeitos secundários da vacinação.

Uma outra técnica passa por “desacreditar um opositor”, ou seja, dizer “qualquer coisa falsa”, mas com “o tempo que a pessoa demora a reagir já é tarde demais”.

Outra é “trollar”, termo ainda sem tradução em Português, quando alguém vai para “as redes sociais fazer comentários de tal maneira depreciativos e maus” para tentar “provocar uma reação do outro lado”.

As ‘fake news’, comummente conhecidas por notícias falsificadas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o ‘Brexit’ no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

Fenómeno escondido em Portugal, mas a aumentar
Ana Pinto Martinho, jornalista e investigadora do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), acredita que o fenómeno das ‘fake news’ tem menos expressão em Portugal do que noutros países europeus, porque “está escondido”, mas vai aumentar até às eleições deste ano.  “O fenómeno já está em Portugal, está bastante escondido e nós muitas vezes não nos apercebemos do que é que está a acontecer. Mas ele já existe”, afirmou, em entrevista à Lusa, a docente do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

Apesar de admitir que tem uma “penetração menor” em Portugal, a especialista alerta que ainda não se realizaram eleições, o que vai acontecer este ano com europeias e legislativas, “com o fenómeno já em pleno desenvolvimento”.

Sem querer fazer comparações com outros países e eleições presidenciais, como a de Donald Trump nos EUA ou Jair Bolsonaro no Brasil, porque são realidades diferentes, Ana Pinto Martinho também não arrisca previsões quanto ao efeito do surgimento de novos partidos, populistas, em tese como o partido Chega.  

Portugal, afirmou, deverá acompanhar o aumento deste tipo de informações falsas ou manipulação, através de “sites” na Internet e das redes sociais: “Acredito que vamos ver isto aumentar em Portugal, assim como por toda a Europa.” “Há grandes probabilidades de haver um aumento deste tipo de estratégias. Já conhecemos que isto, em períodos eleitorais, aumenta como aumentavam também as questões da propaganda há uns anos”, disse à Lusa.

A investigadora, que, em Portugal, é uma das responsáveis pelo relatório anual do Digital Report do Reuters Institute for the Study of Journalism tem uma explicação para esta penetração limitada e para o nível de confiança nas notícias. “Uma das razões pelas quais em Portugal nós acreditamos que também ainda continua a haver alguma confiança nas notícias é porque o nosso país, pelo menos até agora, não tem sido um país muito polarizado do ponto de vista político. Temos muito mais concentração ao centro do que nos extremos, mas isto é algo que pode mudar”, acrescentou.  

E, em Portugal, a reação dos cidadãos é diferente quando se fala em extrema-esquerda ou extrema-direita.

Se na Europa central e de leste há um “grande problema com a esquerda por causa do comunismo”, em Portugal tradicionalmente há “mais problemas com a direita, pelo enquadramento todo” por causa da ditadura até 1974. “Há sempre uma tendência para pensarmos que o perigo poderá vir mais desse lado”, da direita, explicou a professora que, antes de chegar ao ISCTE, foi jornalista e colaborou com jornais como DN e Sol, nas áreas da tecnologia.

Combate deve começar pelo cidadão

Ana Pinto Martinho defende que uma das respostas para combater as “fake news”, ou informações falsificadas, deve começar pelo cidadão a fazer a verificação de factos do que lê, em especial na Internet. “Os jornalistas têm de fazer mais do que todos [a verificação de factos], mas eu também, enquanto cidadã, tenho de fazer alguma verificação”, defendeu a professora do ISCTE, alertando para a importância da literacia para os media.

“Quando partilho algo, também tenho uma responsabilidade de ver se aquilo poderá ser ou não uma notícia que seja falsa, uma ‘fake news’, ou algo que seja mais duvidoso”, argumentou, desaconselhando a “partilha cega”, apenas por ler um título.

Como não há nenhuma “solução milagrosa” para o problema, há várias estratégias possíveis a trabalhar e algumas delas “vão demorar algum tempo”, como a educação para os media.

Ana Martinho segue a “grelha de análise” em cinco passos do Center for Media Literacy (Centro para Literacia nos Media), com sede nos Estados Unidos, que pressupõe um sentido crítico da parte dos cidadãos ao lerem textos, “memes” (pequenos vídeos manipulados que se tornam virais) ou verem vídeos na Internet e nas redes sociais.

- Em primeiro lugar, é preciso perceber quem e se for alguém, por exemplo, com o nome Bombeiros 24, um dos “sites” associados por uma investigação do DN à difusão de “fake news”, tem de se perguntar “o que é?” exemplificou. “Tenho que ver se é um órgão de comunicação social, se tem jornalistas a trabalhar, de quem é? Não sendo algo conhecido como jornal ou televisão ou revista que já são mais conhecidas”, descreveu a investigadora à Lusa.

- Em segundo lugar, surge o formato. “Se for um ‘meme’ tenho que pensar duas vezes e se calhar não confiar tanto nele. Ou ver mais informação sobre o assunto”, afirmou, sendo nesta parte da verificação que Ana Martinho aconselha mais os cidadãos a também fazer.

- Depois, surge a audiência e a tentativa de “perceber para quem é que se destina” aquele conteúdo. “E às vezes conseguimos perceber perfeitamente a quem se destinam determinadas informações”, disse.

- Em quarto lugar, aparece “a parte do conteúdo”, tentar percebê-lo “do ponto de vista crítico”.

- Por fim, o cidadão deve refletir sobre qual será o “objetivo que estas pessoas têm ao estar a veicular esta informação.”

Um cuidado que se aplica “sobretudo a ‘sites’, que não são órgãos de comunicação social, mas isso também serve para órgãos de comunicação social”, dado que, nos Estados Unidos, exemplificou, há medias “manipuladores e que “manipulam a informação mais para um lado do que para o outro”.

Em questões de responsabilidade, Ana Martinho não responsabiliza, em última análise, os cidadãos por este “combate”, embora alerte para o risco da “falta de sentido crítico da parte dos cidadãos”.

As responsabilidades para combater o problema da ‘fake news’, considerada uma “ameaça à democracia” pela União Europeia, devem ser alargados.

A responsabilidade das plataformas, como o Facebook, poderia ser “afinar algoritmos que podem de certa forma ajudar na deteção destas notícias falsas”, mas a especialista alertou para o facto de estas serem movidas “pelos interesses económicos”.

Da parte dos Estados, dos governos, pode haver responsabilidades, mas com “algum cuidado”. "Toda a regulamentação que possa vir a ser feita em relação a esta questão das ‘fake news’ pode vir a entroncar em questões da liberdade de imprensa e de expressão”, afirmou Ana Pinto Martinho, que adverte para um “efeito contrário àquilo que se quer”.
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