A inclusão também é um indicador da qualidade das escolas

Há novidades no terceiro ciclo do modelo de avaliação externa. Indicadores mais finos e centrados no que é a missão da escola. Além das notas dos exames, há outros elementos que uma nova equipa, com mais elementos, vai analisar. A inserção comunitária e social dos alunos não deverá ser descurada.
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A ideia não é olhar apenas para as notas, médias, e resultados dos alunos, mas analisar o trabalho que é feito nas escolas de uma forma mais abrangente, para além dos lugares dos rankings publicados todos os anos. A inclusão também é um dos indicadores para avaliar a qualidade dos estabelecimentos de ensino não somente no ensino público. A novidade foi dada na conferência de imprensa sobre o que há de novo no terceiro ciclo do modelo de avaliação externa das escolas. “Tenho dito, várias vezes, que os rankings não dizem rigorosamente nada sobre a qualidade da escola: premeiam práticas de retenção para os alunos nem sequer chegarem aos exames, premeiam práticas de seleção de alunos à entrada, e dizem muito mais sobre a condição socioeconómica dos alunos, e sobre o contexto em que a escola está inserida, do que propriamente sobre o trabalho que é feito na escola”, referiu, na ocasião, o secretário de Estado da Educação, João Costa.

Filinto Lima, professor, diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), concorda que a inclusão seja um indicador que poderá contribuir para uma avaliação externa mais justa, se tiver em conta a inclusão de todos os alunos e se for conjugado com outros fatores, para além dos resultados escolares. Em seu entender, nessa avaliação externa das escolas, os instrumentos de registo das equipas avaliativas devem ser universais, uniformes, de fácil operacionalização, de forma a afastar o mais possível a subjetividade de uma “avaliação que se pretende justa, credível e proporcional”.

“Parece-me que usar só uma fonte, porque construído com base apenas na média dos resultados dos exames por escola, ignorando critérios essenciais – rankings – distorce a realidade e torna-se num instrumento perigoso e injusto para as escolas – alunos, pais e professores – ludibriando-as, caso não percecionem a limitação intrínseca desta falsa tabela classificativa”, refere ao EDCARE.PT. Do outro lado, em contraponto, sublinha, estão os Percursos Diretos de Sucesso, um instrumento, na sua perspetiva, “mais justo e realista com enfoque preferencial nos progressos efetivos no âmbito do trabalho das escolas, privilegiando outros fatores como o perfil dos alunos e a sua evolução à saída da escolaridade obrigatória”.

Para o presidente da ANDAEP, essa tabela classificativa - os conhecidos rankings - mostra a qualidade dos alunos que fazem os exames, colocando-se os resultados escolares na linha da frente, em detrimento da ação e do mérito das escolas. “Não retrata a outra vertente (competências sociais) com que o aluno sai da escola”, diz, lembrando que em muitos países, como nos Estados Unidos da América, “o recrutamento para emprego já se faz pela leitura do portefólio onde essas competências são valorizadas”, mais do que a performance académica.

“Neste contexto, não é correto concluir que a escola que ocupa o primeiro lugar é a melhor e a que ficou em último é a pior, independentemente de ser pública ou privada. Pergunto: obteriam os alunos da escola classificada em primeiro lugar uma classificação melhor se frequentassem a escola classificada no último lugar? Conseguiriam os alunos da escola classificada em último lugar ter uma classificação melhor se frequentassem a escola classificada em primeiro lugar?”, questiona.  

Filinto Lima refere que talvez fosse mais interessante construir um ranking que gradue as escolas tendo em conta, pelo menos, dois fatores. Ou seja, “as que preparassem melhor os alunos para terem sucesso no Ensino Superior, e/ou as que tivessem em linha de conta a evolução do aluno desde que entra numa escola (valor acrescentado pela escola ao aluno durante o percurso escolar)”.

Sucesso, progresso, integração
Manuel Pereira, professor, diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolas (ANDE), lembra que a inclusão é uma das grandes apostas das novas correntes pedagógicas a nível europeu. “A inclusão, de alguma forma, chama a atenção para a necessidade de dar a mesma oportunidade a todos”, afirma ao EDUCARE.PT. Incluir é, na sua opinião, uma obrigação das escolas, faz parte da sua própria missão.

“As escolas têm a obrigação de criar as medidas e as estratégias para dar a todos as mesmas oportunidades”. Numa perspetiva de igualdade e de equidade. A questão, realça, é se nessa avaliação também será tido em conta se as escolas têm as mesmas oportunidades e não apenas as mesmas obrigações. Se as escolas têm os recursos e os meios necessários, físicos e humanos, que necessitam para essa inclusão. “A avaliação é importante, se dessa avaliação se fizerem as extrapolações necessárias para que as escolas tenham recursos e meios necessários para essa igualdade de oportunidades.” Até porque, repara, “as escolas são todas diferentes, nem todas têm os mesmos recursos e meios”.

A inclusão, como indicador de avaliação, passa abranger as escolas privadas com financiamento estatal e as de ensino profissional, e não apenas as públicas. E a equipa dos avaliadores, que integrava dois inspetores da Inspeção-Geral da Educação e Ciência e um perito do Ensino Superior, terá novos elementos, segundo o secretário de Estado da Educação, “pessoas de reconhecido mérito, que tiveram funções na escola para trazer conhecimento de terreno ao processo avaliativo”. “É importante ter quem sabe como funciona uma escola a avaliar aquilo que nela se faz”, acrescenta.

O terceiro ciclo do modelo de avaliação externa das escolas começa em maio deste ano. A uma análise quantitativa, junta-se uma componente qualitativa. “Introduz-se a inclusão como avaliação chave do que é uma escola de qualidade, ou seja, o que estamos a dizer é que uma escola não é boa apenas por um resultado. E esse resultado, às vezes, nem é conseguido na escola, é conseguido num centro de explicações. Assim avalia-se o trabalho que a escola faz no progresso de cada aluno, na mobilidade social de cada aluno, e no trabalho que faz com cada aluno que tem mais dificuldades”, sublinhou João Costa, na conferência de imprensa.

O Ministério da Educação quer analisar, nesta nova fase de avaliação, os resultados escolares e os resultados sociais e espera que as escolas estejam recetivas a novas práticas pedagógicas, quando nem tudo corre bem. Daí a aposta em indicadores mais finos e que pretendem abranger todas as dimensões do que é a missão da escola. “Uma escola TEIP [Territórios de Intervenção Prioritária], num contexto muito desfavorecido, com problemas sociais à volta muito complicados, quando consegue garantir a empregabilidade de alunos, a sua inserção comunitária e social, fez muito mais do que algumas que aparecem no topo da escala dos rankings”, comentou o secretário de Estado da Educação.
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