O ensino que separa rapazes e raparigas

Associação Europeia das Escolas de Educação Diferenciada está agora em Portugal para promover um modelo de organização escolar que tem por base a diferenciação por sexos. Esta separação fará sentido?
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Respeitar as diferenças entre rapazes e raparigas no sistema de ensino é um dos objetivos de um modelo que se baseia na educação diferenciada. A Associação Europeia das Escolas de Educação Diferenciada (EASSE que significa European Association Single-Sex Education) acaba de chegar ao nosso país com o propósito de divulgar a pais, professores e educadores um modelo de organização escolar que tem por base a diferenciação por sexos. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos que pretende dar a conhecer um sistema educativo que respeita as diferenças entre rapazes e raparigas.

Margarida Garcia dos Santos foi nomeada presidente da associação. A responsável é diretora do Colégio Horizonte, no Porto, que integra o grupo dos Colégios Fomento que preconizam uma educação diferenciada. Licenciada em Geografia, abraçou a carreira da docência em 1987, colaborou em projetos do então Instituto de Inovação Educacional e com o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE). Há 12 anos que está ligada aos Colégios Fomento, tanto na direção como na administração. "Esta nomeação é muito importante pois é uma forma de divulgar um modelo educativo diferente, com grande prestígio em países como a Inglaterra, Austrália, Estados Unidos e Espanha e que em Portugal, através dos Colégios Fomento, tem conseguido formar pessoas com perfil interventivo, dinâmico e responsável nos mais variados setores da vida nacional", refere.

Ao EDUCARE.PT, Margarida Garcia dos Santos garante que a separação de rapazes e raparigas nas escolas é um método com bases sólidas e rejeita qualquer ideia preconceituosa. "É um bom método porque ao respeitar as características dos rapazes e das raparigas, que aprendem de forma diferente, permite maximizar as suas aprendizagens". "Homens e mulheres são biologicamente diferentes, o que se reflete também numa forma diferente de aprender. Assim, as estratégias de um professor perante uns e outros terá de ser necessariamente diferente procurando aproveitar o melhor de cada um. É nisso que acreditamos e defendemos", sublinha.

Os resultados dos Colégios Fomento falam por si e os responsáveis dessas escolas têm dados que lhes permitem falar de alunos com muito êxito. Margarida Garcia dos Santos recusa que essa separação de sexos seja perniciosa. "Não temos qualquer preconceito em relação às capacidades dos rapazes e das raparigas. Muito pelo contrário, acreditamos sim que, neste modelo, tanto os rapazes como as raparigas têm mais oportunidades e podem chegar mais longe".

Além da divulgação do modelo de educação, a EASSE pretende apoiar iniciativas, projetos e investigações que ajudem a destacar as vantagens dessa educação diferenciada. "Os principais objetivos da EASSE são a divulgação de um modelo de escolas diferente daquele que é tradicional em Portugal, dando a possibilidade às famílias, no respeito pela liberdade educativa, de escolherem o modelo que considerem mais adequado à educação dos seus filhos", reforça a responsável. E o que poderá mudar em Portugal? "O que poderá mudar com um melhor conhecimento do modelo em que apostamos é o passar a entendê-lo como uma alternativa moderna e de vanguarda e não como um resquício do passado", responde Margarida Garcia dos Santos. 

A  educação diferenciada é já uma realidade em Portugal. Os colégios Fomento, fundados em 1978, nasceram da vontade de pais e educadores de apostarem num projeto inovador assente num modelo de educação personalizada e diferenciada, que respeita as diferenças de maturidade e desenvolvimento físico, psíquico e afetivo dos rapazes e das raparigas. Um modelo que diversifica a oferta educativa do nosso país. Neste momento, há quatro colégios Fomento em Portugal: Colégio Mira Rio e Colégio Planalto em Lisboa, Colégio Horizonte, no Porto, e Colégio Cedros em Vila Nova de Gaia.

Catarina Agante, psicóloga e coordenadora do Serviço de Psicologia e Orientação Escolar do Agrupamento de Escolas de Rodrigues de Freitas, no Porto, não consegue despojar-se da sua dimensão profissional, conhecimento e práticas, e das convicções pessoais, quando aborda o assunto. "Parece-me que a existência de um modelo de organização escolar que se apropria da diferenciação de géneros é por definição a restrição de um desenvolvimento assente na diversidade de experiências, pensamentos, ideologias, entre outras", comenta ao EDUCARE.PT.

"Não conhecendo o modelo em questão, não me poderei pronunciar sobre o mesmo, apenas reflito sobre o que me parece mais coerente, sustentado e equilibrado para o desenvolvimento de uma criança". Catarina Agante lembra que a sociedade encontra ambos os géneros em equidade e, preferencialmente, em todas as dimensões sociais. "Se considerarmos, enquanto agentes educativos, a necessidade de proporcionar a multiplicidade de pensamentos, conteúdos, informações e experiências ao longo do processo educativo, não me parece pedagógico, e psicologicamente coerente, que se remeta a educação a uma distância entre géneros".

"Do ponto de vista do desempenho, é possível que se obtenham melhores resultados com este modelo, mas em termos sociais é um evidente retrocesso para conceções de ensino típicas de um tempo que se pensava ultrapassado", diz o professor Paulo Guinote, autor do blogue A Educação do Meu Umbigo, que analisa o modelo como um recuo com os olhos postos sobretudo nos Estados Unidos. Um retorno, na sua opinião, de uma "ideologia que tem mais de puritanismo e conservadorismo do que propriamente de preocupação com a educação diferenciada e que recusa a coeducação - agora com um argumentário revisitado e adaptado aos novos tempos em que a performance é o critério mais exaltado".

"O principal argumento é exatamente o de se conseguirem melhores resultados com um ensino segregado, disciplinado e exclusivo, em que os potenciais focos de desconcentração estão reduzidos a um mínimo e em que, ao contrário do que se afirma, o ensino é mais homogeneizado, porque dirigido, de forma separada, a públicos menos diferenciados", refere Paulo Guinote.
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