Nasce a associação europeia de literacia

Até aqui um programa financiado pela União Europeia, a European Literacy Network (ELN) será constituída como associação privada em maio de 2019, com sede própria em Bruxelas, para levar o conhecimento produzido pela ciência às escolas de cerca de 35 países. Investigador da Universidade do Porto, Rui Alves será um dos responsáveis.
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No início do mês passado, a European Literacy Network, rede financiada pela AÇÃO COST (European Cooperation in Science and Technology), reuniu-se na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto para a primeira Cimeira de Literacia (sob o tema: “A relação multiplicadora entre ciência, prática e tecnologia”). Foi um momento histórico para a introdução sistemática e pedagógica dos conhecimentos abundantemente produzidos pela investigação científica e tecnológica nas práticas educativas.

Em maio, a ELN vai seguir o exemplo da sua fonte de financiamento (a COST constituiu-se organização privada em 2013) e autonomizar-se, montando casa própria em Bruxelas.

“[A cimeira] foi um momento final e inicial deste projeto, a European Literacy Network, que foi estabelecida em 2014 e cujo financiamento da COST já teria acabado, sem possibilidade de renovação. Obtivemos excecionalmente mais seis meses de financiamento, até abril, e até lá vamos ter a European Literacy Network a funcionar como até aqui. Depois, teremos a European Literacy Network a funcionar autonomamente”, explicou Rui Alves, investigador do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, coordenador da ELN (e chair da comissão de gestão da rede) e da cimeira em que se materializou a sua ideia inicial.

“Que eu tenha conhecimento, não há nenhuma associação europeia para a literacia. Esta é uma associação pioneira para a literacia e temos um português que foi o proponente com a criação da AÇÃO COST já em 2014”, enquadrou Rui Alves, referindo-se a si próprio.

“Aprovámos uma carta de princípios que estabelece um acordo geral sobre o valor de literacia e lança as bases de uma futura associação. Aliás, começámos a usar isso como lema: pontes entre a ciência da literacia e a educação”, esclarece o docente do Departamento de Psicologia da Universidade do Porto.

O tema da literacia, seja a escrita ou a leitura, bem como a digital, é fulcral no desenvolvimento da educação europeia: um em cada cinco jovens de 15 anos, bem como 55 milhões de adultos, não têm ferramentas básicas de escrita e leitura. Um problema de educação, mas com alarmantes consequências sociais, uma vez que expõe estes milhões de cidadãos europeus ao desemprego, mas, pior ainda, aumenta o risco que correm de cair na pobreza e exclusão social.

“A Europa tem alguma desigualdade em termos de literacia. O retrato de Portugal tem melhorado bastante. O secretário de Estado da Educação, João Costa, deu conta da evolução, dos progressos, das avaliações internacionais [PISA, sigla inglesa para Programa Internacional de Avaliação de Alunos], dos níveis médios dos portugueses, sobretudo dos adolescentes. Temos melhorado imenso. Mas estamos a falar de médias, às vezes mascaram alguma desigualdade. As autarquias sabem-nos indicar quais são as escolas que estão mais desequilibradas”, analisa.

“Há hoje uma grande quantidade de informação e conhecimentos produzidos na Europa que estão a entrar nas escolas, mas é importante que esse conjunto de conhecimentos, em particular no que diz respeito à aprendizagem da leitura e da escrita, seja traduzido na prática educativa”, defende Rui Alves, acrescentando que a ELN tem 515 membros. “As outras AÇÕES COST têm 200. Somos a que tem maior número de membros”. Cada país tem dois na comissão de gestão – os portugueses são Luísa Álvares Pereira (Universidade de Aveiro) e São Luís Castro (Universidade do Porto).

E em que vai investir a ELN? “Na participação na sociedade, assente cada vez mais na escrita, e ao criarmos a associação, estamos a pôr por escrito. E na especialização das literacias (assentes na leitura e escrita): literacia para a saúde, literacia financeira...”, desenvolve. “Num segundo nível, mais difícil, procurar-se-á o desenvolvimento, em que se domina a literacia para poder participar nas diferentes áreas da sociedade, havendo ainda outro, que o ensino superior procura desenvolver, que tem a ver com aspetos mais de transformação das comunidades, a nível político ou cívico. Muitas vezes, é preciso mudar a lei para criar um impacto”, prossegue, deixando um alerta: “A literacia é uma ferramenta, temos de ter alguma vigilância das ferramentas que podem servir para promover valores contrários aos valores europeus, podem colocar em perigo os valores europeus. A democracia e o Estado de Direito, valores humanistas, racionalidade, secularidade (divisão entre Estado e Religião) e direitos humanos universais”.

Ou seja, “a European Literacy Network é mais abrangente em termos do ciclo vital, vai do berço até à lápide”, diz, avançando alguns detalhes orgânicos da futura da ELN: “Vamos desenvolver atividades como conferências, training schools, e atribuir bolsas de investigação”. “O objetivo é chegar aos mil membros, sobretudo com investigadores da área da psicologia, da linguística, do ensino, das neurociências e pessoas ligadas à prática da literacia, como as que leem livros a crianças em contexto hospitalar”, aponta.

Da cimeira realizada no Porto em novembro, resultaram conclusões que lançam projetos para o futuro da ELN. “A autonomização da rede, em particular juntando as outras três acções COST [a EREAD, dedicada aos aspetos da leitura digital; a DIGILITAI – The Digital Literacy and Multimodel Practises of Young Children, que é uma ação centrada nos aspetos da leitura digital em crianças do pré-escolar; e a Acrosse Europe and Beyond: Enhancing Children Oral Language Skills, que incide no domínio da linguagem oral”, destapa o investigador, partilhando que há já dois encontros para acertar agulhas entre as quatro ações em 2019, provavelmente em finais de janeiro e em finais de março.

No terreno, estão em curso três exemplos de como funcionará na prática a ELN. “Um projeto de caracterização das práticas de avaliação da dislexia, que está a ser feita em vários países e procura saber como é que é avaliada em diferentes países europeus. O multilinguismo, ou seja, a atitude dos professores em sala de aula com alunos de diferentes línguas. E há um grupo de colegas a estudar a experiência da escrita de teses de mestrado ou doutoramento a nível europeu”.

E quanto ao financiamento? “O orçamento nos últimos quatro anos tem sido de 200 mil euros, sendo o total dos quatro anos de 800 mil euros. O da futura ELN será bastante menor no início, sustentado pelos membros durante três anos, que pagam uma quota, com patronos na área empresarial e organismos como as universidades, embora não lhes estejamos a pedir uma contribuição - no futuro, queremos que tenham um lugar mais visível como patronos. Tivemos uma distinção honorífica do Presidente da República na cimeira, e é um exemplo de patronos que procuraremos no futuro. Temos neste momento patronos fundadores, a Universidade do Porto, onde está sediada esta AÇÃO COST, com a gestão do orçamento, e a Université Catholique de Louvain, que dá apoio logístico”, explica.
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