Cursos de informática deixaram de ser prioritários e ninguém sabe porquê

ANPRI teme que o futuro de muitos alunos e do próprio país esteja comprometido. "A área de Informática ainda é das poucas com saídas profissionais quer em Portugal, quer no estrangeiro", sublinha.
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A Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI) está extremamente preocupada. Os cursos da área de informática deixaram de ser considerados prioritários, impossibilitando assim escolas e alunos de escolherem essa via de ensino, sobretudo nos cursos profissionais. "Esta impossibilidade tem influência, certamente marcante, quer no percurso escolar de possível insucesso quer na escolha de uma futura profissão", alerta a ANPRI num comunicado que foi enviado para diversas entidades. O Ministério da Educação e Ciência (MEC) foi um dos destinatários.

Para a ANPRI, a decisão do MEC "compromete o futuro" de alunos e do próprio país, sublinhando que a área de informática "ainda é das poucas com saídas profissionais quer em Portugal quer no estrangeiro". "Sendo um tipo de ensino 'virado' para o mercado de trabalho, não faz qualquer sentido privar os alunos de uma área que está e estará cada vez mais presente, sendo por vezes até fundamental", acrescenta no texto.

A estrutura não percebe a decisão da tutela ao barrar um caminho que, sem entrar na universidade, dê acesso a uma profissão que garanta aos alunos da área Informática "alguma qualidade de vida e um possível futuro risonho". A ANPRI não entende por que razão o país não aproveita uma oportunidade importante, quando há milhares de vagas no setor da informática por falta de candidatos qualificados. "Apesar da alta taxa de empregabilidade, o número de licenciados em Informática não tem acompanhado a procura e, talvez de forma mais grave, a nível do ensino secundário, praticamente não existe formação nesta área". "O resultado é que a maioria dos alunos acaba o ensino secundário sem nunca ter aprendido conceitos básicos de programação ou de redes de computadores, sendo praticamente analfabetos funcionais ao nível das tecnologias", repara.

Com a possibilidade no horizonte, a ANPRI enviou emails a alertar para as consequências dessa posição com o objetivo de ser parte da solução e não do problema. Disponibilizou informação e chegou a propor alternativas que não significariam custos acrescidos. João Leal, da ANPRI, revela duas propostas apresentadas. Inserção de uma disciplina bienal de Informática ligada à área de programação nos cursos científico-humanísticos de Ciências e Tecnologias, que se juntaria ao rol das opções do 10.º ano. "Não traria custos e aumentaria a possibilidade de os alunos escolherem outra área", refere ao EDUCARE.PT. Além disso, a ANPRI lembra que os alunos que seguem as áreas de ciências informáticas e de engenharias no ensino superior revelam um défice de competências e de conhecimentos por não terem tido qualquer disciplina relacionada com tecnologias ou informática durante o secundário.

A criação de equipas de coordenação da inovação tecnológica nas escolas, com um professor responsável para tratar da gestão e manutenção do parque informático, é outra das propostas da ANPRI. "Este parque, se gerido corretamente, poderá trazer uma enorme mais-valia no ensino/aprendizagem dos nossos alunos, colaborando com o processo de ensino dos nossos professores", defende. A gestão e a manutenção, dessa forma, seriam cuidadas por um professor e suas turmas. Um trabalho que, neste momento, está a ser assegurado por uma empresa externa às escolas e que, segundo João Leal, "é paga a peso de ouro" e limita-se "a atender chamadas telefónicas".

Criar novos cursos de Informática, relacionados com tecnologias emergentes fundamentais para o desenvolvimento do país, no ensino profissional, inserir a disciplina TIC na componente geral dos cursos vocacionais, e manter, excecionalmente, a disciplina TIC no 9.º ano no próximo ano letivo, são outras das propostas da Associação.

João Leal refere que o comunicado da ANPRI é "um grito final porque, de facto, as coisas não estão bem". As preocupações chegaram à Assembleia da República e a ANPRI foi ouvida pelo grupo parlamentar do PSD e pela Comissão de Educação do Parlamento, à qual entregou uma série de documentação. Mas, na prática, nada mudou e os pedidos de audiência com o MEC ainda não tiveram resposta.

A Associação tem bastante documentação que sustenta os seus pontos de vista e coloca os dados em cima da mesa. Em março deste ano, na apresentação de Portugal a potenciais investidores, verificou-se que o setor de informação e computadores representava a maior parcela na componente de exportações de serviços do nosso país. João Leal junta-lhe mais um dado. Em janeiro, o Instituto de Emprego e Formação Profissional juntou a informática à lista de prioridades.

As notícias sobre a importância da informática sucedem-se e a ANPRI tem um dossiê extenso. O semanário Expresso revelou que as Tecnologias de Informação cresceram 20% nas contratações. O Dinheiro Vivo noticiou que a agência de avaliação do ensino superior tinha definido os cursos com mais emprego e os quatro primeiros lugares eram ocupados por áreas de informática. "Metade das empresas planeia contratar informáticos, engenheiros e comerciais", foi um título do Diário Económico. "Aposta nas novas empresas de base tecnológica como 'único caminho' para criação de emprego em Portugal", lia-se numa notícia do jornal Público.
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