Programa criativo para “descolar” das rotinas

Mais de 20 agentes culturais de Lisboa, que acreditam na força educativa das artes, uniram-se no DESCOLA, um programa que se apresenta como “uma provocação para todos os que concebem a educação como um ato de liberdade”. Envolve alunos e professores de todos os níveis de ensino da escolaridade obrigatória. Sai das escolas e vai a museus e a monumentos.
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É um projeto municipal, da Câmara de Lisboa, e é um programa de atividades criativas dirigido a alunos e professores de escolas de todos os níveis de ensino até ao Ensino Superior. Foi pensado, preparado, e organizado por artistas, mediadores, docentes, e é um desafio constante que tenta mostrar que aprender tem várias cambiantes. Chama-se DESCOLA e dá oportunidade a crianças e jovens de saírem do recinto escolar, de dar corda à imaginação e à criatividade.

Este programa surge com a missão de explorar as potencialidades do património cultural e artístico de Lisboa. Até porque, como sublinha Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, é necessário acreditar “no poder transformador da Cultura e no seu contributo para a formação de seres humanos criativos, livres, responsáveis, com apurado sentido crítico, conscientes do seu papel na cidade, no país e no mundo”. “Pretende-se assim, disponibilizar aos professores e às escolas, do pré-escolar ao secundário, uma oferta cultural integrada com abrangência territorial à escala da cidade, que ajude a responder aos desafios da Cultura e da Educação no século XXI”, acrescenta.

As atividades propostas são “alinhadas, repensadas e criadas de raiz”, têm como referência o Perfil do Aluno do Século XXI, e o património cultural e artístico de Lisboa é o campo de pesquisa, de questionamento e de criatividade. Todos os que construíram este programa “acreditam na força educativa das artes e da cultura e querem participar, com professores e alunos, na construção de escolas que se afirmem como comunidades de aprendizagem, abertas e interventivas”.

Dentro e fora da escola. Em museus, em bibliotecas, em monumentos. Projetos de natureza artística e cultural. Saberes formais e não formais que se articulam com os saberes da experiência da vida. Uma articulação relevante porque, garantem os mentores, “a informação só se transforma em conhecimento quando é devidamente apropriada e o conhecimento só se torna ação quando há a capacidade de o mobilizar para a intervenção em contextos concretos”. “A relação entre o que se ensina e o que se aprende em nada é óbvia ou previsível. De facto, ao longo da vida, são muitas as aprendizagens que se constroem sem que haja ensino explícito”, acrescentam.

Há uma pergunta que é feita e que ajuda a perceber este programa que sai fora da caixa. Em que medida, na escola que temos, os alunos têm oportunidade de desenvolver ideias e projetos criativos, recorrendo à imaginação, inventividade, desenvoltura e flexibilidade, assumindo riscos para imaginar além do conhecimento existente, conforme se prevê na área de competências pensamento crítico e pensamento criativo? O DESCOLA tem respostas. Para alunos e professores.

Poemas, músicas, cinema
As abordagens têm como pano de fundo diversas formas de expressão artística. Uma arca secreta com três poemas de Fernando Pessoa chega ao pré-escolar. É uma oficina com leitura animada. Ao ritmo do poema “Pial”, contam-se pias e revêm-se os números, brincando com as palavras e os sons dos versos. Com o poema dos “Ratos”, conversa-se sobre venenos e outras coisas perigosas. A partir de um “caracol” trabalha-se a relação entre imagem e palavras. E será que uma palavra pode servir para dizer coisas diferentes? É isso que os mais pequenos vão descobrir.

No Museu do Fado, há um baú de sons para os alunos do 1.º Ciclo. Uma breve introdução ao universo do fado, uma oficina musical de forte componente pedagógica, e os alunos são chamados a acompanhar ritmos e temas do fado, estimulando as suas capacidades de audição e interpretação de diferentes cadências e emoções. Na mesma cidade, no Padrão dos Descobrimentos, há uma ilha de palavras, uma aventura não muito diferente dos marinheiros de outros tempos. Na bagagem, os participantes podem levar pouca coisa, mas coisas importantes. Podem levar algumas das suas palavras favoritas.

Perguntar, questionar, obter respostas. O que é um arqueólogo? O que faz? O que são vestígios arqueológicos? O que se sabe sobre a arqueologia de Lisboa? Numa visita-jogo para o 2.º Ciclo, uma espécie de guardiões da memória vai perceber como viveram e o que fizeram os inúmeros povos que habitaram o território lisboeta. Há mais para descobrir noutros cenários com cinema e músicas numa atividade que gira em torno da “sétima arte”. Que seria da saga Star Wars sem o bradar dos trompetes a abrir cada episódio? Ou de Harry Potter sem o tema musical que anuncia a magia que se prepara? As bandas-sonoras são o ponto de partida. 

Fios e bonecos para o 3.º Ciclo, ou melhor, construção e manipulação de marionetas. E por detrás dessa magia está o trabalho do artista, autor e manipulador, o domínio dos materiais, o controlo do movimento corporal. O convite é pegar nalguns materiais do dia-a-dia, transformá-los em marionetas de fio e tentar manipulá-las de acordo com aquilo que se quer. Esta é apenas uma das atividades do DESCOLA. Há mais, muito mais. “Acorda, Zé Povinho!” é uma oficina de expressão visual no Museu Bordalo Pinheiro para o 3.º Ciclo. Observar as ilustrações do Zé Povinho com atenção e compreender as histórias que contam sobre o Portugal do século XIX. Soltar ideias, as mãos e desenhar. Uma atividade com análise de textos e imagens da obra de Rafael Bordalo Pinheiro, com imaginação e sentido crítico.

Zé Povinho e Cesário Verde
Para o Secundário, há visitas orientadas às exposições do Ateliê-Museu Júlio Pomar e nos cinco espaços das Galerias Municipais, para abordar conteúdos, universos, metodologias e processos criados pelos artistas na construção das suas obras. Analisa-se o manguito como gesto filosófico numa oficina de filosofia e pensamento crítico no Museu Bordalo Pinheiro com várias questões à mistura. Será a crítica um espaço de observação ou de pensamento? E como se faz de um gesto uma posição ativa de mudança? Para pensar sobre a consciência do eu e do mundo entre o manguito do Zé Povinho, o penico do John Bull, a Maria da Paciência, os Barrigas e tantos outros. Os alunos do Secundário podem também deambular pela Lisboa de Cesário Verde, percorrer os mesmos caminhos do escritor, guiados pela sua poesia, parar para contar a sua história, procurar o que já não se vê, imaginar, cheirar e talvez fotografar e escrever.

Não são apenas os alunos o público-alvo deste programa criativo e cultural. “Professar” é um laboratório de escrita, que acontece no São Luiz Teatro Municipal, para educadores e professores de todos os ciclos de ensino. Um projeto que parte de experiências pessoais de quem ensina, e da reflexão à volta delas, para elaborar um percurso criativo e artístico. Um caminho da escrita à criação de um espetáculo. E para a criação de conteúdos são utilizados exercícios de improvisação, como conversas orientadas, gravadas e posteriormente analisadas para reconhecer o seu potencial dramático.

“É pró menino e prá menina” é sobre estereótipos de género e é uma oficina de expressão dramática e expressão plástica, também no São Luiz Teatro Municipal, para educadores e professores do 1.º Ciclo. Facultam-se ferramentas que permitam questionar os alunos sobre as ideias preconcebidas que pairam sobre cada um dos géneros. Com jogos dramáticos e exercícios de expressão plástica, os adultos são colocados no lugar da dúvida para que, mais tarde, o possam fazer com os seus alunos. O DESCOLA é tudo isto. E é, no fundo, um programa recheado de atividades, oficinas e ateliês, que colocam a comunidade escolar a pensar e a refletir sobre várias realidades. 

Mais informações:Atividades Criativas para Alunos e Professores 2018-2019
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