CEF: Fotocópias substituem adoção de manuais

Com a intenção de denunciar e remetendo as explicações do diagnóstico para o ME, Adalberto Dias de Carvalho e Nuno Fadigas, investigadores do Observatório de Recursos Educativos, apontam algumas carências ao nível dos recursos didático-pedagogicos encontradas nos cursos de educação e formação (CEF).
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A crescente procura dos cursos de educação e formação (CEF) motivou o interesse em saber que recursos educativos são disponibilizados aos alunos e usados pelos professores para lecionar. Num contexto escolar caracterizado pela não adoção formal de manuais escolares, Adalberto Dias de Carvalho e a Nuno Fadigas, investigadores do Observatório dos Recursos Educativos (ORE), realizaram um estudo para fazer "um ponto da situação".

Os dados que recolheram resultam de um inquérito online ao qual responderam 2803 professores a lecionar nos CEF. Mas as conclusões não apanharam de surpresa os investigadores. Para 53% dos inquiridos, o recurso que mais falta faz aos alunos da sua disciplina é o livro de apoio específico do curso. Em segundo lugar, mas muito menos necessários, estão os conteúdos multimédia, apontados por 9,7% dos inquiridos. Questionados sobre o recurso que mais falta faz na preparação das aulas, 82,8% dos professores voltam a eleger o livro de apoio específico do curso. E 24,7%, outros livros de apoio.

Apesar do seu uso não ser obrigatório, 33,6% dos professores afirma recorrer aos manuais específicos para os CEF e também aos do ensino regular como fontes de onde retiram os conteúdos das suas aulas. A proximidade curricular assim o permite. O suporte mais usado para lecionar é a fotocópia, com 62,53% dos professores a reconhecerem que se socorrem deste recurso de modo "muito frequente". Ainda que a reprodução massiva de manuais e livros seja uma prática punida por lei.

"É impossível ensinar e aprender sem recursos educativos (...)" (Adalberto Dias de Carvalho)

A Internet revela-se como a segunda maior fonte de informação para a construção de materiais didáticos, nestes cursos, assim eleita por 21,5% dos inquiridos. Mas os professores não recorrem apenas às páginas web, os blogues são de igual modo apontados. Já o computador, com ou sem projetor vídeo, acolhe 16,62% das preferências dos professores enquanto suporte para lecionar as aulas.

De referir ainda que o carácter profissionalizante dos CEF, segundo os investigadores, será a explicação para que o livro técnico ocupe o terceiro lugar no conjunto de fontes usadas por 16,8% dos professores que responderam a este estudo.

Com base nestas respostas, os investigadores quiseram ainda saber que dispositivos garantem que as fotocópias e os ficheiros digitais distribuídos aos alunos do CEF têm a mesma qualidade exigida aos manuais do ensino regular. Uma questão colocada pelos investigadores que tiveram em conta as exigências de avaliação e certificação impostas pelo Ministério da Educação aos manuais escolares, que se encontram regulamentadas na Lei n.º 47/2006, de 28 de agosto, e no Decreto-Lei n.º 261/2007 de 17 de julho.

Sem pretender "desacreditar da competência dos professores", para a criação dos seus próprios recursos didático-pedagógicos, mas frisando a existência de uma dualidade de critérios de exigência de qualidade, Adalberto Dias de Carvalho interroga-se: "Porque existe esta aparente liberdade no ensino profissional e nos CEF e não existe no ensino regular?"

"É importante que os alunos estudem por recursos de qualidade, se isso está patente nos materiais só podemos ser a favor da obrigatoriedade." (Nuno Fadigas)

Assumindo uma intenção de denunciar e remetendo as explicações para o ME, Adalberto Dias de Carvalho e Nuno Fadigas identificam as maiores carências desta oferta curricular, quer para os alunos que a frequentam quer para os professores que nela lecionam.

EDUCARE.PT (E): Por que razão é importante saber que tipo de materiais didático-pedagógicos utilizam os professores para lecionar?

Adalberto Dias de Carvalho (ADC): É impossível ensinar e aprender sem recursos educativos, o que pode é haver apenas os mínimos. Um dos recursos que o professor tem consigo é o seu conhecimento. Outro recurso é a sua retórica que é a mobilização dos recursos linguísticos e discursivos que possam fazer com que os alunos sejam atraídos para as aprendizagens. Depois existem outros recursos chamados de educativos. Uns já caíram em desuso, como o quadro preto, outros desapareceram há pouco tempo, como o retroprojetor, outros são mais modernos, como o videoprojetor, a Internet, enfim...

Neste meio existe outro recurso educativo que é o manual ou compêndio, sobre o qual existem perspetivas anátemas. Uma delas é associar a palavra compêndio à fixação do texto e das mensagens numa só fonte. Ou seja, a associação ao dogmatismo no ensino. Remetendo para um contexto de ensino tradicional em que a palavra oral do professor repercutia e repercutia-se no texto do manual. Mas isto não tem de ser necessariamente assim. No contexto contemporâneo a grande vantagem que temos é a variabilidade didática, ou seja, a utilização em alternância ou simultânea de vários recursos.

Nuno Fadigas (NF): A rápida substituição de recursos educativos, e os reflexos que essas mutações têm nas aprendizagens é também objeto da nossa investigação. E penso que há também uma justificação contextual para explicar a pertinência do Observatório de Recursos Educativos (ORE).

E: Por os recursos mais tradicionais estarem a ser substituídos pelos computadores Magalhães?

ADC: Substituídos? Se isso fosse verdade... Os computadores Magalhães foram distribuídos, mas maioritariamente não estão a ser utilizados. Trata-se de um exemplo de uma operação demagógica de uma mobilização pedagógica de um recurso educativo. Se, não só os Magalhães, mas todos os computadores que foram distribuídos fossem de facto uma conquista educativa e não política teríamos nas respostas ao estudo que fizemos referências explícitas à sua utilização massiva.

E: Mas as famílias aderiram de forma massiva a estes programas do E-escolas.
ADC: Houve um impacto em termos de imagem no que toca à utilização do computador, mas importante é que os alunos estejam preparados para o usar. Caso contrário, pode acontecer o mesmo que aconteceu em muitas famílias em relação aos livros em que os tinham pelo exercício decorativo. Importante é a utilização dos recursos, por muitos ou poucos que se tenham. As novas gerações têm o privilégio de poder articular o uso de ambos. Mas isto não está a ser explorado, inclusivamente para uma alteração da própria pedagogia escolar. Sabemos que hoje em dia a maior parte da informação é recolhida fora da escola. No entanto, a verdade é que o trabalhar dessa mesma informação ou é feito na escola ou, normalmente, não é feito em mais lado nenhum. Então, em vez de serem utilizadoras, as pessoas são consumidoras passivas de informação. Portanto, em relação a esses programas o que há é uma distribuição sem enquadramento pedagógico e apenas com finalidades políticas.

NF: Veja-se, por exemplo, o que acontece quando um aluno nos quer mostrar fotografias. É de esperar ver dezenas delas desfocadas sem qualquer tipo de triagem. Ou seja: não há um uso crítico dos conteúdos que colocam nos computadores.

"Os professores acabam por utilizar fotocópias dos manuais do ensino regular (...)" (Adalberto Dias de Carvalho)

E: A que recursos os professores dos CEF recorrem para darem as suas aulas, uma vez que não é obrigatória a adoção de manual?

NF: Existe uma proximidade curricular muito grande entre os programas dos CEF e os dos cursos regulares. A prática corrente - como conseguimos demonstrar ao longo do nosso estudo - é que os professores sistematicamente fazem cópias de manuais escolares. O que significa que o manual escolar está presente, como tal acabou por se revelar a opção de resposta mais escolhida no nosso inquérito. Além de que há um aspeto importante, o aluno tem de ter sempre algo por onde estudar. E isso não aparece do nada. Alguém tem de construir esses materiais, mas não há nenhuma monitorização da sua qualidade, como também ficou demonstrado no estudo. Isto de modo algum é desacreditar da competência dos professores para a criação desses materiais, mas importa verificar se há algum cuidado nesse domínio.

E: Existe risco de deturpação dos conteúdos contidos nesses materiais?

ADC: Os professores acabam por utilizar fotocópias dos manuais do ensino regular e esses estão "testados". Mas não deixa de haver uma contradição lamentável, por parte do Ministério da Educação (ME), quando exige uma avaliação e certificação para os manuais do ensino regular e depois deixa este campo completamente abandonado a todo o tipo de monitorização no ensino profissional e nos CEF. E note-se que, neste momento, mais de 50% do universo dos estudantes frequentam estas duas modalidades de ensino. No entanto, se o ME quiser assumir que os professores são 100% responsáveis pela escolha dos manuais, nós só podemos concordar com isso. Aliás há países onde os manuais são escolhidos pelos próprios professores, como acontece na Dinamarca, e o ensino não é mau.

E: Podemos concluir que são contra o regime de avaliação e certificação de manuais?

NF: Um manual não é bom porque é certificado. Se é avaliado como sendo bom é porque já o era antes de ser certificado, daí que a certificação seja uma figura prescindível.

ADC: Aliás, a certificação é uma originalidade portuguesa.

"(...) É importante não deixar o aluno num vazio que o faça chegar de um modo completamente acrítico aos diversos conteúdos da Internet." (Nuno Fadigas)

E: Mas existem manuais próprios para as disciplinas dos CEF, no entanto, a sua adoção não é obrigatória...

NF: É importante que os alunos estudem por recursos de qualidade, se isso está patente nos materiais só podemos ser a favor da obrigatoriedade.

ADC: Não está correto é que o ME, ao prever uma calendarização para a adoção de manuais no ensino regular e ao não o fazer para os outros cursos, esteja a desincentivar a existência de matérias para este tão importante contingente de alunos. Porque, na prática, acabam por ser utilizadas fotocópias que não são objeto de qualquer aprovação, seja em termos colegiais, seja pela escola. Por que existe esta aparente liberdade no ensino profissional e nos CEF e não existe no ensino regular? É uma contradição que nos cabe denunciar e ao ME compete explicar.

NF: Uma fotocópia é para ser utilizada como uma exceção quando há um documento que queremos dar aos nossos alunos, fazer disso a regra não é viável.

E: No entanto, o uso massivo de fotocópias é punível por ser tratar de uma violação clara dos direitos de autor... há aqui um contrassenso.

ADC: E quem é o responsável moral por esse crime?

E: Enquanto recurso educativo, como se encaixam as novas tecnologias da informação e comunicação (TIC) na sala de aula?

NF: Na transposição didática deve-se recorrer às TIC. Por outro lado, é importante não deixar o aluno num vazio que o faça chegar de um modo completamente acrítico aos diversos conteúdos da Internet. Sem um espírito crítico o texto é nada mais do que um conjunto de manchas. Aliás, o computador é um bom instrumento de trabalho para os alunos, mas como instrumento de estudo, por si só, parece-nos insuficiente.

"Nos CEF é criada quase que uma cilada aos professores, porque estes são solicitados (...) a encontrar soluções de remedeio para as lacunas com que se confrontam." (Adalberto Dias de Carvalho)

E: Dizem no vosso estudo que "os professores revelam preocupações com a eficácia do seu ensino" mas "as condicionantes existentes levam-nos a improvisar soluções que servem de paliativos às limitações [de recursos educativos] que lhes são impostas". Querem clarificar esta ideia?

ADC: Nos CEF é criada quase que uma cilada aos professores, porque estes são solicitados - pelos alunos e pelos pais - a encontrar soluções de remedeio para as lacunas com que se confrontam. Podemos dizer que os professores têm os programas e os podem seguir, mas sabemos que muitas vezes os compêndios substituem essa consulta. Ora, se, em alternância, se facultassem aos professores os meios para a aquisição de materiais [livros, software, etc.] poderia resultar daqui uma experiência pedagógica interessante, a de saber como se organizariam pedagogicamente na escola para promover a sua utilização correta. Mas como não existem orientações nenhumas nesse sentido, os professores, como todos nós em geral, perante as omissões inventam de forma precipitada, não planificada, intuitiva. Ou seja: fazem remedeios. É assim na vida e na escola.

E: Está em causa a qualidade de ensino nos CEF?

NF: Sim.

ADC: Apesar dos esforços gigantescos que fazem os professores e os responsáveis pelas escolas.

E: Que recomendações deixariam ao ME sobre esta matéria?

ADC: Que leia este nosso estudo e o anterior sobre o ensino profissional. A função dos estudos do ORE é a de, uma forma científica e fundamentada, colocar à disposição de professores, educadores e políticos informação que lhes permitam ter o ponto da situação nos vários referentes para a tomada de decisões devidamente fundadas, nomeadamente no campo dos recursos educativos.

Consulte aqui o estudo do ORE

Análise de situação nos CEF - Cursos de Educação e Formação

As Escolhas de
Adalberto Dias de Carvalho


Citação:
"A errância, para além do seu papel fundador do conjunto das sociedades, traduz bem a pluralidade da pessoa e a pluralidade da existência", Michel Maffesoli.
Livro:
O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway
Música:
Missa de Santa Cecília, Gounod
Autor:
Gaston Bachelard
Político:
Gorbatchev
Viagem:
Andes, entre o Chile e a Argentina
Memória de infância:
A selva em Moçambique
Sonho por realizar:
ser o que não fui ainda...


As Escolhas de
Nuno Fadigas



Citação:
"Já não vemos a cor do mar porque sabemos que o mar é azul", Gérard Castello Lopes
Livro:
O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway
Música:
There is a light that never goes out, The Smiths
Autor:
Gilles Deleuze
Político:
José Ramos-Horta
Viagem:
A rota de D. Quixote, na Mancha (Espanha)
Memória de infância:
Lego
Sonho por realizar:
A concretização (verbal) daquela ideia (virtual) que me persegue a toda a hora...
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.