Ensinar por paixão e vocação

Cinco de outubro, Dia Mundial do Professor. Há uma manifestação nacional em Lisboa. O descontentamento volta a sair à rua. O que move os professores? Quais as suas alegrias e tristezas?
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Rosa Neves tem 56 anos e é professora contratada. Este ano, está a substituir uma colega, tem um horário de 18 horas. Ano após ano, foi alimentando a esperança de entrar no quadro. Ano após ano, acreditando que agora é que era, com mestrado e doutoramento no currículo, vários projetos educativos, e cinco contratos sucessivos numa mesma escola. Mas a cada ano, nunca chega. Os critérios mudam e os seus contratos não são considerados os mais adequados.

“Há três anos, ainda pensei, desta vez é que não escapo”, lembra. Mas escapou e este ano desceu 30 lugares na lista. Houve um ano que até foi considerada técnica especialista e não professora, quando teve turmas do 11.º e 12.º ano do secundário e deu aulas sobre gestão de organizações de saúde, entre outros temas, por ser doutorada em Medicina Preventiva e Saúde Pública. “Dei aulas, assinei sumários, fiz reuniões”, recorda. No final, de nada valeu, não contou para as contas do sistema. Noutro ano, um erro administrativo, assumido pela tutela, só lhe garantiu um lugar em novembro. “Todos os anos, os critérios mudam e são injustos”, refere.

São muitos anos sem um lugar no quadro, desde 1990/1991, o ano letivo em que começou a dar aulas. Há desgaste, desencanto, desapontamento, mas há também muitas alegrias nesta caminhada. Apesar de tudo, há vontade e motivação porque ensinar sempre foi uma vocação sem reticências, sem vírgulas, sem qualquer sombra de dúvida. O que a move, na verdade, não é um lugar no quadro, são os seus alunos. “Ponho o pé na sala de aulas e tudo muda. É um feitiço”. Uma magia que compensa tudo o resto, os momentos mais complicados.

Rosa Neves, professora de Português, Estudos Sociais e Economia, deixa marcas pelas escolas por onde passa. Na EB2,3 D. Dinis, em Leiria, desenvolveu um projeto com alunos de várias nacionalidades, alguns refugiados. Um italiano, uma chinesa, um russo e uma russa, um nepalês, um senegalense, dois sírios. “Implementei um projeto com base em histórias tradicionais”, recorda. Levava livros e livros de casa. “Tinha a sala toda a trabalhar com livros, com histórias, com música”. Batizou o projeto de “TAI – Turma de Acolhimento Internacional, Um Presente que me Calhou”. Resultado? A integração total destes alunos na escola, as suas famílias na escola, abraços, afetos, e memórias para o resto da vida. É por eles, alunos, e para eles, que continua no ensino.

Repensar modelo de Escola
Sérgio Lagoa, 46 anos, é professor de Filosofia. Começou a dar aulas no ano letivo de 1994/1995, esteve como contratado durante 20 anos, só em 2014/2015 entrou para o quadro de zona pedagógica 1, geograficamente enorme mas que corresponde à sua zona de residência. “Devo dizer que tive muita sorte nessa colocação, pois não tive necessidade, como quase todos os professores, de deambular de terra em terra, de passar semanas ou meses longe de casa, de deixar esposa e filhos a centenas de quilómetros de distância”, refere.

A profissão é cada vez mais exigente e, em seu entender, o modelo de escola deve ser debatido. E há outras questões. “Há muitos problemas que têm de ser discutidos e resolvidos: a formação inicial e contínua de professores, o sistema de avaliação, a estrutura da carreira e as condições financeiras que se quer dar aos professores, a perceção social da classe docente, a importância das suas organizações associativas e as questões deontológicas específicas da profissão”.

Os tempos evoluem, há as competências profissionais inerentes à profissão, agora há também as competências digitais que implicam conhecimentos técnicos e comportamentais na gestão da identidade digital docente. “Se a população escolar evoluiu, o mesmo não se poderá dizer de algumas das estruturas escolares. Temos salas de aulas próprias para um ‘ensino de massas’, abundam as práticas pedagógicas magistrais e tecnologicamente a Escola avança demasiado devagar”. E o atual modelo precisa ser repensado. “Portugal passou de um ‘ensino de elites’ para um ‘ensino de massas’ no espaço de duas ou três gerações, e esta alteração já tem duas ou três décadas”, acrescenta.

Para Sérgio Lagoa, é um mito considerar que há “nativos digitais” e “migrantes digitais”, todavia a realidade é que as escolas estão envolvidas num ambiente altamente tecnológico que, na sua opinião, “urge incorporar e não excluir”. Uma inclusão ponderada, fundamentada, “sob risco de se cair numa tecnologização baseada em gadgets pouco mais que inúteis”. “E os equipamentos tecnológicos são meios, instrumentos, e não fins em si mesmos”. O professor de Filosofia defende investimento na formação do pensamento crítico, Filosofia logo desde o 1.º Ciclo, e competências de literacia digital. Até porque vivemos uma era de fake news e cada vez mais são necessárias “ferramentas intelectuais” para ler o mundo.

As maiores alegrias da profissão? É uma pergunta difícil. “Talvez a maior alegria seja reencontrar antigos alunos e ver como eles respeitam os seus antigos professores, vê-los já na universidade ou no mundo do trabalho e ouvi-los falar sobre algo que discutimos na aula de Filosofia. É como se um bocadinho de nós estivesse ali, como uma semente que germina e cresce”. Também há tristezas. “Têm sido muitas, principalmente a desvalorização do estatuto social da profissão, erro que já vimos acontecer noutros países e que os conduziu a um lugar onde nós, portugueses, seguramente não queremos estar”, revela.

Respeitar as especificidades de cada região
Belmiro Santos, 62 anos, é professor contratado, tem 15 anos para efeitos de concurso. Ser professor é uma paixão e uma vocação e as suas maiores alegrias são poder partilhar a sala de aula com os jovens seus alunos, “transmitir-lhes os conhecimentos e competências adquiridas ao longo da vida, proporcionando-lhes as ferramentas que lhes permitam encarar o futuro sem medos e com competências que lhes permitam evoluir enquanto profissionais e cidadãos”. As tristezas focam-se no “abandono e falta de reconhecimento por quem de direito da importância do ‘ser professor’ no desenvolvimento socioeconómico de um país”.

É crente e otimista, por natureza, mas neste momento está apreensivo e preocupado com o caminho que está a ser seguido pelos sucessivos responsáveis do sistema de ensino deste século. “Verbalizam uma série de lugares comuns, demonstrando a sua ignorância da realidade das nossas escolas e da nossa sociedade”. O professor do Ensino Profissional merece-lhe alguns comentários. “A escola pública dispõe de meios materiais (instalações), meios humanos e técnicos capazes, e, qualificados com capacidade de resposta para as necessidades dos meios em que estão inseridas, seria assim muito mais vantajoso, criar condições técnicas, materiais, e, reconhecimento profissional aos profissionais que aí desempenham funções”, defende.

“Enquanto isto, assistimos a uma oferta formativa de cursos qualificantes desenquadrada das necessidades regionais e locais, sem ter em linha de conta a empregabilidade dos mesmos cursos na região em que se inserem. Assistimos à proliferação de escolas profissionais privadas, sem avaliarmos as reais necessidades da sua criação e da sua existência, havendo contudo verbas disponíveis para estas entidades que visam objetivos materiais em detrimento do ensino e qualificação dos seus alunos, ao mesmo tempo que se estrangulam cada vez mais, e, de forma mais acentuada o ensino qualificante das escolas públicas”, sublinha. Na sua opinião, é urgente mudar mentalidades, “de cedência aos lóbis dos diversos setores de atividade, respeitando a especificidade de cada região, atendendo às necessidades e anseios das suas populações”.

Belmiro Santos iniciou a sua carreira como professor provisório em 1981/1982, na Escola Preparatória de Vale de Cambra, onde pouco depois é convidado para assumir a coordenação técnica e a lecionação das disciplinas técnicas de Desenho Técnico e de Tecnologia Mecânica aos Cursos Profissionais de 3.º Ciclo, onde esteve até setembro de 1988. Os 20 anos seguintes foram passados pela indústria metalomecânica, em cargos de chefia desde a direção comercial, direção de produção, logística, planeamento. Foi ainda formador de quadros de empresas do setor.

“Como a paixão pelo ensino se manteve viva ao longo destes 20 anos, surgiu a oportunidade de regressar ao ensino em outubro de 2008, para o Ensino Profissional, como docente da componente técnica na área da Metalurgia e metalomecânica”. É onde está hoje, tendo selecionado todas as disciplinas técnicas da área. Está no Agrupamento de Escolas de Sever do Vouga. Apesar de apresentar 15 anos de serviço para efeitos de concurso, continua como contratado, na qualidade de técnico especializado, a auferir pelo Índice 151, apesar de exercer funções docentes e ser profissionalizado no Grupo de Recrutamento 530.

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