Escolas sem psicólogos

Abertura de vagas para a contratação de psicólogos ainda não foi autorizada. Neste momento, mais de 360 mil alunos estarão sem apoio nesta área. A comunidade educativa salienta a importância dos profissionais e o seu papel nas dinâmicas e projetos escolares.
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O alerta partiu do Grupo de Profissionais de Psicologia em Contexto Escolar (Psiscolas): a abertura de vagas para a contratação de psicólogos ainda não foi autorizada. O grupo não tardou a fazer as contas. "O número de agrupamentos que estará este ano letivo sem serviço de psicologia rondará os 300. Utilizando um intervalo médio de 1200 a 1500 alunos por agrupamento, podemos sugerir que entre 360 mil e 450 mil alunos estão, neste momento, sem este serviço", adiantou, à Lusa, Pedro Teixeira, um dos representantes do Psiscolas.

As exceções residem nas contratações já feitas pelos agrupamentos TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) e pelas estruturas escolares com autonomia especial. Mesmo assim, a situação é, para o grupo Psiscolas, preocupante. "A maioria dos psicólogos contratados em anos anteriores para desenvolvimento de projetos nas escolas está, desde 31 de agosto, desempregada, a aguardar pacientemente e na total incerteza que seja autorizada a abertura de vagas para o corrente ano letivo", sustenta Pedro Teixeira.

A incerteza está instalada e em causa estão apoios ao desenvolvimento psicológico dos alunos, à sua orientação escolar e profissional e às próprias atividades educativas. Os psicólogos têm sido também responsáveis pela aplicação de projetos de combate ao insucesso escolar. O Psiscolas defende um vínculo estável para os psicólogos para que assim possam entrar e progredir na carreira.

A Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro, tem um psicólogo para um universo de 950 alunos. Um profissional que conhece os cantos da casa, mas, mesmo assim, não tem tido mãos a medir para dar resposta às solicitações. "O psicólogo acompanha todos os casos que precisam de acompanhamento, não chega para as encomendas", comenta Alcino Carvalho, diretor da secundária aveirense. Na sua opinião, e se tudo pudesse ser perfeito, o ideal seria ter uma equipa multidisciplinar em cada escola que se concentrasse em várias situações que dizem respeito à comunidade educativa e que, por vezes, não têm o tratamento adequado.

Alcino Carvalho está satisfeito com o trabalho do técnico de psicologia que integra o conselho pedagógico da escola. Além das tarefas inerentes a essa pertença, o psicólogo tem ainda de estar atento às questões relacionadas com a vocação profissional, acompanhar casos mais complexos e fazer a ponte entre alunos, professores e famílias. Para o responsável, os psicólogos "são fundamentais nas dinâmicas próprias das escolas". Quer em ouvir os alunos individualmente, quer na sua participação em projetos que envolvam a comunidade educativa e que a todos diz respeito.

Catarina Agante é psicóloga do serviço de Psicologia e Orientação do Agrupamento de Miragaia e realça, naturalmente, a importância do papel desses profissionais nas escolas e em novas realidades que este ano letivo despontam. "Os psicólogos são essenciais no contexto escolar, como outros profissionais", sublinha. E há muito para fazer. Desde uma avaliação da própria cultura pedagógica, a respostas a necessidades psíquicas e afetivas. Para que quem precisa de uma mão amiga encontre uma porta aberta.

A instabilidade social e económica, tantas vezes falada e sentida em casa, reflete-se na escola. Também por isso a existência de psicólogos nas escolas faz todo o sentido. "Justificam-se mais profissionais nesta área até porque há necessidade de trabalhar com as colegas de ensino especial." E não só. O envolvimento dos psicólogos em projetos de educação para a saúde é igualmente bem-vindo, como outras atividades de apoio. Além disso, a fusão de vários agrupamentos demonstra uma nova realidade. Catarina Agante alerta para essa situação e sustenta que é preciso dar respostas em contextos mais abrangentes. A área de intervenção esticou. "Houve uma reorganização e é necessário acautelar o rácio de profissionais à realidade que temos agora", sublinha.

Paula Monteiro é psicóloga, formadora na área e acompanha famílias na resolução de várias problemáticas. Há dois patamares que destaca na intervenção dos psicólogos em contexto escolar. Na orientação vocacional e nas questões que envolvem o insucesso escolar. "Obviamente que a sua intervenção não se resume a estas duas áreas", repara. Na sua perspetiva, é importante a presença nas escolas de um profissional habilitado que conduza as consultas psicológicas e de orientação vocacional, em idades delicadas e em que ter alguém para escutar pode fazer a diferença.

O psicólogo é também uma peça fundamental no que diz respeito ao combate ao insucesso escolar. "Há muitas razões que ajudam a explicar o insucesso escolar e que não se restringem à falta de estudo ou problemas de aprendizagem", sustenta Paula Monteiro. Há outros motivos que, realça, "normalmente só podem ser identificados por uma pessoa que está treinada para os identificar". Há questões transversais - como, por exemplo, a falta de comunicação com os pais - que podem ajudar a perceber a falta de aproveitamento de alguns estudantes.
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