Histórias ao adormecer

Contar histórias às crianças, antes de irem dormir, começa a tornar-se uma prática frequente. Até mesmo nas famílias com menos hábitos de leitura. Nos adultos cresce a certeza que as crianças devem ter livros. Mas ainda não somos um país de leitores.   
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Quando a bebé nasceu coube ao pai assumir a tarefa de contar histórias à filha mais velha. Todas as noites, Ismael Coelho, 40 anos, lia para Beatriz. Não lia um livro, nem dois, nem três… Lia mais. Como era difícil chegar ao último livro antes de dormir, o pai encurtou as histórias. Para que o sono começasse, assim, a chegar mais cedo.

Contar histórias às crianças, no aconchego dos lençóis, começa a tornar-se hábito. Mesmo pais cujos progenitores nunca leram para eles, hoje, leem aos filhos. A leitura faz-se porque se entende que os miúdos devem ler. Disso depende o sucesso escolar. Coisa séria. Mas do saber ler ao gostar de livros; dos pais e mães que leem aos filhos até aos que são leitores assíduos, há muito para contar.

Por força da profissão, Ismael Coelho costuma ler livros e revistas sobre contabilidade e fiscalidade. Nada que interesse a Beatriz de seis anos, nem a Inês de três. “O Grande Livro das Fábulas para Adormecer” e outras aventuras, como as dos desenhos animados “Masha e o Urso”, são algumas das leituras que agradam às miúdas. Beatriz já sabe ler, mas continua a preferir que a mãe lhe leia. “É um bocado preguiçosa, diz que se estiver a ler não consegue perceber a história”, explica Ismael. Apesar de o pai ter assumido a “pasta” recentemente, a mãe continua a ser a contadora de histórias oficial. Também era ela quem, segundo o marido, “lia muito, antes das miúdas nascerem”. Agora, os tempos são outros.   

Se os pais têm o hábito de ler em casa, é possível que as crianças se sintam mais motivadas para a leitura. Mas para gostar de livros, o exemplo parental não basta. Clara Haddad, contadora de histórias profissional, acredita que para despertar o gosto da leitura, é preciso deixar a criança escolher os livros que quer ler. “A criança tem o seu próprio gosto. Mas, às vezes, os pais acham que esse gosto não é o ideal. Querem incutir outro gosto. E criam uma barreira muito grande à leitura.”

Escolher livros para ler às crianças atordoa muitos pais. Conhecendo bem esse drama, a contadora que recentemente se estreou como escritora infantil, criou um blogue onde dá sugestões semanais de leitura. “Mas nas primeiras leituras não adianta nada pensar em temas”, desdramatiza. “O adulto julga a partir do texto, mas a criança não. Ela quer ver a cor, ouvir o som e sentir o livro.”

Dos zero aos três anos, toda a atenção das crianças está voltada para o aspeto sensorial. Os pais devem, por isso, procurar livros com boas ilustrações. Clara Haddad recorda o que a ilustradora Kveta Pacovska diz sobre os livros serem, nestas idades, a primeira galeria de arte que as crianças visitam. “Não adianta um texto rebuscado, que às vezes até o pai e a mãe têm dificuldade de ler porque não estão habituados.”

Livros cartonados, com formatos diferentes. Livros com grandes imagens e com mais imagens do que texto. São as melhores opções. As escolhas dos pais devem incidir sobre o chamado “álbum ilustrado”. “A criança tem de mexer, rasgar, morder o livro. Não é permitido aos pais guardarem o livro para quando ela crescer."

À medida que a criança vai crescendo, a importância do som e do visual matem-se. Mas aos poucos, começam a introduzir-se alguns temas de leitura. "Histórias envolvendo animais, que se passem no ambiente familiar ou escolar, mas também temas sobre coisas que inquietam a criança e que são necessários para ela dar significado a alguma coisa”, sugere Clara Haddad. Algumas histórias podem ajudar a explicar às crianças certas mudanças. Como, por exemplo, a entrada para a creche. “Conhece a história do Coelho Simão? Ele não queria ir para a escola de jeito nenhum. E a tudo o que os pais falavam ele rebatia: Nem pensar!” Com muita pena, a história tem de ficar para uma outra altura.         

Gostar de ler
Ainda Joana, de cinco anos, estava na barriga, já a mãe empilhava as que seriam as suas primeiras leituras. “Comprei já não sei quantos livros com a ideia de os ir lendo à medida que ela fosse crescendo...”, recorda Susana Lima, 41 anos. Vai daí, a bebé nasceu. E aconteceu o que quase sempre acontece: “Há tanto ruído, os tablets e a televisão fazem uma concorrência desleal aos livros e às vezes é difícil dizer não, não, não, temos de ler!” Há dias em que Joana simplesmente "não está para aí virada". Mas como diz o escritor francês Daniel Pennac, não ler é também um dos “Direitos Inalienáveis do Leitor”.

Em casa, a pequena Joana segue os passos da progenitora que é ilustradora de profissão. Faz os seus próprios "livrinhos", desenha em folhas de papel e pede à mãe para as agrafar. Os livros, mais a sério, ainda são escolhidos pela mãe que se encanta, sobretudo, pelo tipo de ilustração. “Procuro histórias que sejam bonitas e mexam com o imaginário, mas também que sejam muito básicas e convidem a acrescentar ideias.” Mãe e filha, têm por hábito inventar novas histórias reinterpretando as ilustrações dos livros. Como quem acrescenta vários pontos por cada conto.

Bibliotecas ou livrarias para já não fazem parte dos circuitos de Joana. “Ainda não a levo a livrarias e evito ir com ela aos centros comerciais onde, normalmente, compro os livros porque sei que vou encontrar grande variedade e tenho pouco tempo. Quando Joana entrar para a escola será diferente. “Vou começar a levá-la, porque vai aprender a ler, vai trazer referências de leitura da escola e quero que se habitue.”

Por falta de tempo, depois de ser mãe, o seu próprio hábito de ler mudou. “Neste momento leio zero livros técnicos e literários, dantes, quando tinha mais tempo lia três a quatro livros de literatura por ano, mas agora comecei a ler uns cinco a seis livros infantis por mês.” Ainda assim, Susana Lima, acredita estar no bom caminho para incutir na filha o gosto de ler. “Não insisto, nem estou a massacrar, mas estou atenta à importância da leitura. Na pré-escola, as educadoras também incentivam bastante e em casa noto o resultado desse incentivo.”

Mudemos de “personagens”. Na casa dos Pereira, as estantes albergam livros estacionados em dupla fila. Cátia Pereira, 42 anos, usa uma rede social para leitores, o Goodreads, para não perder a conta às leituras que faz. Gosta tanto se sentir o livro na mão, como de ter sempre à mão a sua própria biblioteca digital, no leitor de ebook. Antes de ser mãe lia por ano entre 50 a 60 livros, agora lê 30. Agora, Cátia Pereira não lê só para si, à noite também lê para o filho. Faz uma leitura à letra: “Não invento histórias, leio mesmo do livro.” Hugo, de 4 anos, decora todo o enredo que a mãe vai desfolhando. “Começo a ler o livro e ele interrompe-me. E conta a história toda, palavra por palavra, tal como está escrito.”

Quando os pais vão a livrarias, Hugo percorre as prateleiras e já escolhe os livros que quer levar. Depois, o pai e a mãe avaliam se o livro é adequado ou não. Que livros passam pelo crivo dos progenitores? “Compramos uma série de livros de histórias tradicionais, lançada pelo Pingo Doce. Traz um CD com a história contada que usamos para o Hugo ouvir quando vamos no carro.” Por tudo o que advém do gosto pela leitura, Cátia Pereira espera conseguir transmitir a Hugo a sua paixão pelos livros. Mas, nos últimos tempos, tem notado algo que a está a preocupar. “Acho que ele já gostou mais de ouvir histórias...”  

Ler bem
Teresa Silveira, estuda o comportamento leitor. Entenda-se, o modo como o cérebro condiciona a motivação, o gosto e os hábitos de leitura. “O gosto de ler está, em primeiro lugar, associado ao nível de competência de leitura”, esclarece a investigadora, sublinhando a importância de ter presente a distinção entre “ler bem” e “gostar de ler”. A investigação que tem desenvolvido nesta área tem apontado caminhos. “Os esforços que têm sido feitos para a promoção da leitura são fundamentais, mas o grande enfoque é assegurar que a criança leia muito bem, do ponto de vista técnico. Para ler muito bem temos de trabalhar uma coisa muito importante que é a atenção seletiva.”

Hugo, Inês e Joana ainda não sabem ler. Por isso, antes de falarmos da capacidade que a criança tem ou não de ler bem, Teresa Silveira tem algo importante a dizer aos pais. Existem muito boas razões para reservar um momento no dia para ler aos filhos. “Ao contar histórias estamos a desenvolver a imaginação, e uma coisa ainda mais importante, a abstração. Ou seja, o que me permite pegar em referências padrão do meu cérebro e criar uma coisa que nunca vi na minha vida. É isso também que me leva a questionar”, explica a investigadora que é também autora do livro “Cérebro e Leitura”.

Por outras palavras, “a abstração permite ver o elefante vestido de bailarina a fazer uma pirueta”, exemplifica Teresa Silveira. Além de ser essencial na aprendizagem da matemática. Já dizia Albert Einstein, físico alemão, autor da teoria da relatividade, “se querem um génio, contem histórias...”      

Levar a criança a tirar partido da leitura começa, por assim dizer, por depender da predisposição dos pais. A leitura deve interpelar a criança. Os pais devem confrontar a criança com a história. “Contar histórias em que a criança possa acrescentar coisas. Ir semeando o espírito da curiosidade, com coisas simples”, explica Teresa Silveira. Isto é, com pequenas perguntas: “O que achas que aconteceu?”; “Isto passou-se assim, mas e se tivesse sido de outra maneira?”

Com estas perguntas os pais conseguem trabalhar aquilo que se designa por atenção seletiva. E que nos permite focar em algo e esperar para ver o que acontece. Ou seja, ter a capacidade de controlar um impulso ou um desejo. Por exemplo, o desejo de andar a saltar de página em página, ou, no caso do tablet, a clicar de vídeo em vídeo.

Ler uma, duas, três, quatro, cinco histórias, alerta Teresa Silveira, em nada ajuda a treinar a tal atenção seletiva. “Se a criança quer mais e mais histórias, como vai, mais à frente conseguir ler um livro de 150 páginas que não tem uma imagem, nem um som?”, questiona a investigadora alertando que “somos aquilo que vamos moldando o nosso cérebro”. Razão pela qual, investir em histórias não será contar umas dez por noite. “Pelo contrário, a ideia será até nem ler o livro todo. Ficar num momento, parar e dizer à criança: conto-te o resto amanhã, vais dormir e sonhar com o que vai acontecer...”

Não ler
Uma coisa parece certa para Clara Haddad, “o primeiro passo para estimular a leitura é deixar a criança ter liberdade de escolha”. Para ilustrar o seu argumento conta um episódio que diz ver com muita frequência, pelas livrarias onde passa a contar histórias. “Vejo muito a criança a correr, a pegar num livro e os pais a dizerem: Esse não é bom, é melhor este! Depois, a criança retalia: Eu quero este! E os pais impõem: Esse não! Vais levar antes este. Muitas vezes a criança opta por não querer nenhum.”

Histórias assim são de evitar. “É melhor que a criança leia o que quer ler. Depois com o tempo e conhecendo vários tipos de histórias a criança vai percebendo o que é boa literatura e o que não é.” Livros que repetem episódios de desenhos animados que as crianças veem na televisão, são normalmente aqueles que os pais menos querem comprar. Mas que atraem as crianças, mesmo que não saibam ler. “Podem ser uma primeira leitura”, desdramatiza Clara Haddad, “desde que não sejam a única opção”.

Na livraria Salta Folhinhas, no Porto, há livros para crianças e conselhos sobre o que comprar para os pais. “Há uma variedade muito grande de livros”, começa por dizer a proprietária, Teresa Cunha, livreira há 14 anos. “Mas uns consigo ler varias vezes, outros não. Posso ler 30 vezes sem me maçar o “A que Sabe a Lua?” Mas não consigo ler cinco vezes a Doutora Batata!”, ironiza.

Pensando na importância da imaginação, Teresa Cunha, admite que os livros baseados em desenhos animados da TV, “não são as melhores histórias para ler”. “As personagens são vistas na televisão, por isso, as histórias têm um impacto visual grande e não estimulam a imaginação da criança. Porque ela já tem toda a história em imagens muito bem formada na cabeça.”

E por falar em cabeça, Teresa Cunha pede aos pais que tirem de lá a ideia que devem ler aos filhos para “criar leitores ou bons alunos”. “Quando um pai disponibiliza o seu tempo, a coisa mais valiosa que tem, para se sentar e contar uma história está a criar laços de afeto com a criança.” Mas isto, claro, “se estiver a ler com prazer e a gostar do que lê e não se estiver a fazer um frete”.

Teresa Calçada, coordenadora do Plano Nacional de Leitura (PNL), um programa criado em 2006 pelo Ministério da Educação para promover o gosto pela leitura, nota que “os pais estão mais conscientes da importância da leitura”. “Mesmo as famílias mais débeis em hábitos de leitor incutiram nelas próprias a ideia que é bom que os miúdos tenham livros e hoje, até mais do que antigamente, existe a prática de ler uma historinha à noite.” No site do PNL os pais encontram recomendações sobre quais os livros considerados mais adequados à idade de crianças e jovens. Também há sugestões de leituras para adultos.

Apesar de tudo, contrapõe, Teresa Calçada, “não somos um país com hábitos de leitura enraizados”. Assim, se justifica o pouco uso ainda dado a bibliotecas públicas, escolares e universitárias. Mas o grande problema, aponta, é que não se pode ser leitor sem o domínio das competências de leitura. “Muitas pessoas leem mal, mesmo tendo a escolaridade toda leem aos bocadinhos, leem interpretando muito linearmente os textos estejam estes em suporte papel ou digital.”

Razão pela qual, Teresa Calçada está segura que “o esforço das famílias e das escolas tem de ser no sentido de ensinar a ler bem, mas também de ensinar a ganhar tempo para a leitura”. Significa perceber que os livros têm lugar ao lado dos brinquedos. Mas também o têm ao lado das tecnologias, tão atrativas para todos. Aos pais que se empenham em arranjar tempo para ler aos filhos, a coordenadora do PNL deixa uma palavra otimista: “É possível que estas crianças tenham outro comportamento face à leitura.” Vitória, vitória, acabou-se a história.   
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