Uma nova vida para 43 992 alunos

A primeira fase de acesso à universidade está concluída e as matrículas no Ensino Superior já começaram. Quase 44 mil alunos iniciam uma nova etapa do seu futuro. E as expetativas são muitas. Durante esta semana, há muitos assuntos para tratar.
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Neste momento, 43 992 alunos estão a tratar das matrículas nas universidades públicas do país. São estudantes universitários que entraram nesta primeira fase de acesso ao Ensino Superior. É uma nova fase e há muitas expetativas. João David, de 18 anos, entrou no curso que queria, Economia. Depois dos exames nacionais, de uma segunda fase de testes para a nota de Matemática subir, a licenciatura aguardada na Universidade de Coimbra. A matrícula é tratada nesta quarta-feira, numa organização feita por ordem alfabética para evitar filas e filas. O calendário indica que as aulas começam na terça-feira da próxima semana.

João David está em contagem decrescente para começar uma nova vida de estudos, para entrar no meio académico. Sabe que será diferente do que estava habituado. Mas está preparado. Agora é tempo de tratar das burocracias para esse início na área de estudo da sua eleição. Queria Economia, inscreveu-se em Economia, e tinha esperança de entrar em Economia. Aconteceu o que esperava.

O futuro ainda não está definido ao pormenor. João David prefere perceber onde estará mais à vontade, quais as matérias que lhe agarrarão mais a atenção. “Quero perceber quais os assuntos em que me darei melhor, quais os trabalhos que gostarei mais de fazer, para decidir melhor”, refere. O futuro profissional é, portanto, uma página em aberto mas na área que escolheu para seguir o seu caminho. As expetativas existem e há alguma ansiedade no arranque do ano letivo que se segue. De qualquer forma, o primeiro objetivo foi alcançado: entrar no curso que foi a sua única opção.
 
De acordo com um levantamento realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 42,3% dos estudantes do Ensino Superior público são deslocados e existe uma média global de 13% de camas disponíveis. Dos alunos deslocados, 40,9% são dos cursos técnicos superiores profissionais, 41,9% de licenciaturas, 48,3% de mestrados integrados, 38,9% de mestrados e 35,7% de doutoramentos. E os valores do alojamento são uma das principais preocupações das famílias dos estudantes universitários. Não é o caso de João David que mora em Coimbra e fica a estudar na mesma cidade.

Na verdade, os preços não param de aumentar. Um quarto para arrendar no Porto custa entre 250 e 300 euros por mês, em Lisboa há valores que atingem os 600 euros. No Porto, estão cerca de 23 mil estudantes deslocados e a oferta pública tem 1 300 camas. A Federação Académica do Porto (FAP) aborda o assunto com frontalidade. “Estamos a falar de preços na cidade do Porto que rondam os 250 a 300 euros por mês, portanto é metade do salário mínimo nacional e são valores absolutamente incomportáveis para a típica família portuguesa”, referiu, à Lusa, o presidente da FAP, João Pedro Videira, lamentando que a “maior fatia do orçamento” de um estudante universitário seja gasto no alojamento. O custo total mensal de um universitário no Porto, explicou, ronda entre os 700 e os 900 euros mensais, atendendo a todos os gastos para a frequência do Ensino Superior, como propinas, alojamento, alimentação, material escolar e livros.

A FAP diz que o Estado não dá uma resposta, depois de o Governo anunciar que há cerca de 30 imóveis para recuperação no sentido de disponibilizar um total de 1 500 camas em várias instituições universitárias do país, e avisa que os alunos estão a chegar a uma “situação limite”. “O Estado, como a própria autarquia neste momento também, tem de começar a dar alguma resposta sobre esta matéria, porque estamos a achegar a uma situação limite, aliás já chegámos a uma situação limite em que se verificam cada vez mais estes valores”. Para o presidente da FAP, a resposta do Governo à falta de alojamento para os mais de 100 mil estudantes deslocados no país é “curta” e não vai resolver os problemas nem neste ano letivo, nem sequer no próximo, porque os cerca de 30 imóveis ainda vão ter que ser reabilitados.

Os protocolos que o Governo afirma estarem em fase de celebração para cerca de 30 imóveis envolvem instituições como a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro em Vila Real, a Universidade de Lisboa, a Universidade de Coimbra, o Instituto Politécnico de Leiria, o Instituto Politécnico de Coimbra, a Universidade de Évora, a Universidade do Porto e a Universidade de Aveiro.”Continuamos à espera de respostas. Já apresentámos as nossas propostas, desde dezembro que estamos a fazer esse trabalho, já fizemos ações simbólicas, já fizemos ações de rua, já fizemos reuniões, já fizemos tudo e mais alguma coisa, mas as respostas continuam sem chegar”, recorda o presidente da FAP.

O Presidente da República também falou do assunto. “Essa matéria de alojamento de estudante será uma das matérias a incluir no Orçamento do Estado [para 2019]. Eu não queria para já dizer senão o que tenho dito em geral, que era bom que o Estado e também as universidades, e também as autarquias, trabalhassem para enfrentar esse problema, sobretudo nos grandes centros urbanos e metropolitanos”, referiu Marcelo Rebelo de Sousa, na Maia, à margem de uma cerimónia que assinalou os 100 anos da Ordem de Malta. O chefe de Estado alerta assim para um trabalho conjunto para “enfrentar o problema”.

Instituições do interior satisfeitas e descontentes
Na Universidade da Madeira, onde entrou o aluno com a média mais alta do país (18,94 valores), o número de estudantes colocados cresceu 6,1% na primeira fase do concurso nacional de acesso. Ao todo, 504 alunos colocados e mais 29 vagas preenchidas. O crescimento prende-se com a abertura do novo curso Direção e Gestão Hoteleira que teve mais candidatos do que vagas.

O reitor da Universidade da Madeira faz um balanço positivo mas queixa-se do desinvestimento no Ensino Superior. “Não está a haver um aumento dos orçamentos das universidades e dos politécnicos. Tem havido outras medidas importantes, mas ao nível do orçamento não”, disse, em conferência de imprensa. Em média, a Universidade da Madeira gasta anualmente mais de 17,5 milhões de euros no pagamento de serviços e dos vencimentos dos funcionários docentes e não docentes. O próximo orçamento na Madeira será inferior, mas o reitor não entra em detalhes sobre essa questão financeira.

Este ano, o Instituto Politécnico de Bragança (IPB) foi a segunda instituição de Ensino Superior que mais cresceu, tanto em valores absolutos como em valores percentuais, na entrada de alunos na primeira fase do concurso nacional de acesso. São cerca de 2 800 alunos, mais 600 que no ano letivo anterior, o maior número de entradas da história da instituição.

Orlando Rodrigues, presidente do IPB, atribuiu esta subida à redução das vagas nas universidades de Lisboa e do Porto. “Houve uma política de coesão nacional no Ensino Superior que implicou a redução de vagas em Lisboa e Porto de 5%, permitindo o aumento nas restantes instituições. Receava-se um pouco que a medida fosse absorvida pelas universidades do litoral, mas na verdade o IPB revelou-se como uma das instituições que maior capacidade teve para atrair esses alunos”, referiu, em declarações à Lusa.

Mesmo assim, o IPB continua a ter cursos com zero candidatos no concurso nacional de acesso. Situação que o responsável desvaloriza. “O que acontece sempre é que os cursos das engenharias têm maior dificuldade de colocação no concurso nacional de acesso em virtude da prova de Matemática e de Física, que são exigências para a entrada nesses cursos, mas são depois cursos muito procurados pelos alunos internacionais, como pelos outros regimes de acesso”, disse.

O presidente do IPB contesta a limitação de vagas para estudantes internacionais. A lei impõe que as instituições de Ensino Superior só possam disponibilizar 20% das vagas totais para os estudantes internacionais. “Noutros regimes especiais de ingresso ao Ensino Superior acaba por não haver limitação, portanto, na prática, é o único dos regimes”, onde tal se verifica. “Entendemos que, tendo, não só nós, mas o país, excelentes condições para oferecer Ensino Superior de qualidade a alunos internacionais, para se posicionar como país que no contexto mundial oferece Ensino Superior de qualidade internacionalmente, não podemos ter essa limitação”, afirmou à Lusa. “Devíamos levantar essa limitação para que as instituições pudessem crescer e se pudessem financiar também adequadamente pela via da captação de alunos internacionais”, defendeu.

Mais novos alunos, cursos sem vagas
O Instituto Politécnico de Castelo Branco, no interior do país, também recebeu mais alunos na primeira fase de colocação do que no ano anterior. Ao todo, 1 286 novos estudantes. Nos Cursos Técnicos Superiores Profissionais, o IPCB conta com 315 novos estudantes colocados na primeira fase de candidatura, distribuídos por 18 cursos. “Quanto ao número de estudantes colocados nestes cursos, trata-se de um aumento muito significativo relativamente ao ano letivo anterior, onde ingressaram no IPCB 232 novos estudantes”, refere António Fernandes, presidente da instituição num comunicado enviado à Lusa.

Pelo quarto ano consecutivo, a Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, mantém-se acima da fasquia dos 1 100 novos alunos. Na primeira fase, entraram 1 176 alunos no concurso nacional de acesso. Um número que corresponde à ocupação de 90% das vagas iniciais deste ano. Na análise dos resultados, a UBI, em comunicado, revela que perdeu dez alunos relativamente ao ano passado, mas ressalva que esse foi o ano em que houve um maior número de candidatos a nível nacional, desde 2010.

“Comparado com 2016, ano em que o número de candidatos foi análogo ao deste ano, a UBI coloca mais 108 alunos”, sustenta. A universidade preencheu a totalidade das vagas em 18 cursos, Medicina registou as notas mais altas do último colocado, com 174,3 valores, seguindo-se Engenharia Aeronáutica com 162,2 e Ciência Política e Relações Internacionais com 149,5.

Mais a sul, a Universidade de Évora regista um aumento de 2,5% de novos alunos, face ao ano passado, acolhendo mais de mil novos estudantes. Em 17 dos 33 cursos já não há vagas. Após a conclusão da terceira fase do concurso nacional de acesso, e das restantes vias de ingresso no Ensino Superior, a academia alentejana estima que o total de novos estudantes inscritos em licenciaturas, mestrados e doutoramentos, seja “superior a dois mil”.
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