“Criação de mega-agrupamentos é uma medida gravosa”

Emília Sande Lemos, presidente da Associação de Professores de Geografia, está satisfeita por a disciplina ter mais horas no currículo e permanecer de forma autónoma. Na sua opinião, a constituição de mais mega-agrupamentos significará a diminuição da qualidade de ensino.
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A Associação de Professores de Geografia (APG) está satisfeita por ter mais horas no horário, mas avisa que se não houver uma divisão equitativa entre História e Geografia o impacto nas aprendizagens dos alunos não será significativo. A APG defende que, no balanço final do 3.º ciclo, a disciplina nunca deverá ter menos de oito tempos letivos. "O espaço e o tempo são duas componentes fundamentais da Terra e da Sociedade. Uma não é mais importante do que outra", refere Emília Sande Lemos, presidente da APG.

A APG continua de "mangas arregaçadas" para que a formação de professores de Geografia seja autónoma da dos docentes de História e para seja reconhecida habilitação legal aos professores de Geografia no sentido de lecionarem História e Geografia de Portugal.

Emília Sande Lemos afirma que não conhece um modelo adequado para a avaliação da classe docente. "Quanto mais penso no assunto, mais considero que a avaliação dos professores deve ser implementada de forma muito cuidadosa, pois as variáveis em causa são numerosas e várias delas exteriores à escola e ao docente", repara. De qualquer forma, a responsável reconhece que há um ganho importante no novo modelo: o facto de a avaliação ser mais espaçada no tempo.

EDUCARE.PT: Geografia terá mais horas no horário. Esta mudança, prevista na revisão curricular, vai ao encontro das vossas expectativas?
Emília Sande Lemos (ESL):
É sempre bom quando se dá mais horas a uma disciplina tão fundamental como a Geografia, que engloba o conhecimento da Terra, desde o bairro onde vivemos até à distribuição das grandes zonas climáticas ou à compreensão dos "jogos" geopolíticos mundiais. Mas esse ganho irá depender da distribuição de horas feita em cada escola. Se essa distribuição - entre a História e a Geografia - não for equitativa no balanço do ciclo, esse ganho terá muito pouco impacto nas aprendizagens dos alunos.

A Geografia é ainda importante porque, tal como outras disciplinas, ajuda ao desenvolvimento do raciocínio matemático, por exemplo, quando faz um apelo, muitas vezes repetido ao longo do ciclo, à compreensão dos conceitos de escala, taxas, índices, etc., à leitura de tabelas e gráficos. Mas também ajuda a desenvolver a Língua Portuguesa devido a toda a análise que tem de ser feita da informação, em diversos suportes, recorrendo com muita frequência à necessidade de descodificar informação científica, imagens, etc. Não menos importante é o facto de Geografia ser a disciplina que, no Ensino Básico, introduz os sistemas de informação geográfica na educação, que hoje são um dos suportes de gestão para muitas empresas.

E: Geografia terá então de "disputar" horas com História. Teme que alguma disciplina fique prejudicada com essa divisão?
ESL:
A Direção da Associação de Professores de Geografia e eu própria somos da opinião que o Ministério da Educação e Ciência deveria dar instruções no sentido de, deixando ao critério de cada escola a gestão das horas em cada ano, no balanço final do 3.º ciclo a Geografia não nunca ter menos de oito tempos letivos. O espaço e o tempo são duas componentes fundamentais da Terra e da Sociedade. Uma não é mais importante do que outra.

E: Geografia e História não serão fundidas. Satisfeita com a decisão?
ESL:
A Geografia e a História são disciplinas complementares mas conceptual e metodologicamente bastante diferentes, por isso estou muito satisfeita com essa decisão.

E: A reorganização curricular, tal como está traçada, responde às necessidades da comunidade educativa?
ESL:
Essa resposta só pode ser dada por estudos científicos, levados a cabo pela comunidade científica. Contudo, considero que é importante que os jovens se concentrem no conjunto de disciplinas nucleares. Mas a escola deve propiciar também, por exemplo através das atividades extracurriculares, que as crianças e jovens contactem com situações de aprendizagem diferentes, menos formais, mas igualmente importantes num mundo que está em constante mudança.

E: Matemática e Português saem reforçadas nesta reforma. Uma boa opção?
ESL:
Sempre considerei a Matemática e o Português duas disciplinas fundamentais. Teremos que trabalhar mais em conjunto pois, como disse anteriormente, a Geografia, tal como as outras disciplinas, contribui também para a aprendizagem de conceitos matemáticos e para o aprofundamento do domínio da Língua Portuguesa.

E: Área de Projeto e Estudo Acompanhado desaparecem. Não farão falta?
ESL:
Penso que será sempre importante as crianças e os jovens aprenderem a traçar objetivos, a resolver problemas, a tomar decisões. Estas capacidades tanto se podem desenvolver no quadro das disciplinas formais como através das atividades extracurriculares.

E: A APG vai apresentar sugestões no período de consulta pública?
ESL:
Em breve, estará disponível no site da APG o parecer que a associação irá enviar.

E: A habilitação profissional dos docentes de Geografia continua a ser uma preocupação? O que deveria ser feito nesta área.
ESL:
A petição pública nacional que reuniu mais de 4000 assinaturas de professores de Geografia e História já foi entregue na Assembleia da República. Nela se pede que a formação de professores de Geografia seja autónoma da dos professores de História. É também fundamental que aos professores de Geografia seja reconhecida habilitação própria para lecionarem História e Geografia de Portugal. Temos muitos colegas de Línguas e até de Filosofia a lecionarem esta disciplina e não se entende por que razão nunca foi dada habilitação própria aos professores de Geografia, tal como vem sendo pedido pela APG há mais de 10 anos.

E: A avaliação de desempenho da classe docente continua no programa da tutela. O modelo é o mais adequado para avaliar quem ensina? Há, de facto, menos burocracia?
ESL:
Não conheço nenhum modelo adequado para a avaliação docente. Quanto mais penso no assunto mais considero que a avaliação dos professores deve ser implementada de forma muito cuidadosa, pois as variáveis em causa são numerosas e várias delas exteriores à escola e ao docente. Neste novo modelo há um ganho importante que é o facto de a avaliação ser mais espaçada no tempo.

E: 2012 será um ano de contenção. A educação tem de apertar o cinto. A qualidade poderá estar em risco?
ESL:
Depende em parte das medidas que se tomarem. Uma das medidas que me parecem mais gravosas é a criação dos mega-agrupamentos. Se se avançar na continuação da obrigatoriedade de mega-agrupamentos, a qualidade irá continuar a diminuir e muito.

E: Quais as maiores preocupações para quem ensina Geografia?
ESL:
Que os alunos cheguem ao 3.º ciclo sem saberem, ou com conhecimentos/capacidades muito reduzidos, conceitos fundamentais relacionados com a localização dos lugares, a complementaridade entre lugares e povos; as escalas dos fenómenos geográficos, quer naturais quer humanos; ler mapas, tabelas e gráficos; os principais aspetos geográficos da sua região, do país e do Mundo. Também nos preocupa o reduzido número de horas para colmatar todas estas deficiências no 3.º ciclo e o número elevado de turmas que um professor de Geografia tem, muitas vezes, de lecionar, nesse nível de ensino.

No ensino Secundário, gostaríamos que fosse dada a possibilidade de os alunos do 12.º ano terem duas opções de dois blocos cada, em vez de apenas uma com três blocos, pois os jovens muitas vezes têm ainda dificuldades na escolha do seu futuro. Gostaríamos que fosse revista a formação inicial de professores. Há, no nosso país, muitas escolas públicas que têm desempenhado de forma muito criteriosa e rigorosa o seu papel de educadoras das crianças e dos jovens. Gostaríamos que esse trabalho fosse mais reconhecido.

Gostaríamos de ver estendida a outras disciplinas a aplicação de testes intermédios, nomeadamente à História e Geografia de Portugal no 2.º ciclo e à Geografia A (que tem exame nacional) no 10.º e 11.º anos. Gostaríamos que fosse clarificado o que se vai passar com a formação de adultos, pois Portugal é um dos mais países mais atrasados da União Europeia, no que diz respeito aos níveis de escolaridade secundária.

E: Na sua opinião, Nuno Crato tem tomado boas decisões?
ESL:
No que diz respeito à Geografia do 3.º ciclo, o aumento da carga horário é, para nós, uma boa decisão.
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