Museus, não esqueçam as crianças, por favor

As novas tecnologias são uma boa ferramenta para que as visitas a museus não sejam entendiantes e enfadonhas para os mais novos. Luís Pereira, da Universidade de Coventry, Inglaterra, dá algumas dicas sobre o assunto e explica por que razão é importante perceber que os mais novos também são um público-alvo desses espaços.
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No Museu de História Natural, em Oxford, Inglaterra, há uma placa à entrada que tem escrito o seguinte: “Please, touch me!” (Por favor, toca-me). Luís Pereira, da Universidade de Coventry, Inglaterra, doutorado em Educação para os Media Digitais e mestre em Aprendizagem e Videojogos, faz questão de lembrar esta placa que convida a mexer. “É o mote que dá as boas-vindas aos mais pequenos, indicando que algumas daquelas peças (no caso, animais embalsamados, pedras e outros materiais) estão à espera que as meninas e os meninos (e os adultos) possam tocar e sentir”, refere.

Visitar museus não tem de ser um programa chato, aborrecido. Os recursos digitais ajudam a aumentar o interesse dos mais novos pelos museus, esses centros especializados de partilha de conhecimentos, e a enriquecer as visitas. Auriculares com comentários sobre as peças em exposição, aplicações para instalar nos tablets ou smartphones, realidade aumentada, visitas virtuais, são alguns exemplos do que pode ser feito.

A Internet é também uma aliada nesta área porque ajuda a tornar uma visita mais interessante, mais envolvente. “As tecnologias são úteis para selecionar, lendo críticas, e preparar a visita a museus (verificar os horários e condições de acesso). Podem também enriquecer os objetos visitados através de realidade aumentada.” Por outro lado, um museu pode também ser a oportunidade de desligar das tecnologias, prescindir dos ecrãs e apreciar objetos e espaços.

“Para os pais, o desafio é cada vez mais evitar que os seus filhos se tornem eremitas digitais, enclausurados nos seus quartos com tablets, telemóveis e consolas”, afirma. Uma alternativa é precisamente programar visitas a museus, a espaços criativos. Tirá-los de casa, aumentar o tempo de qualidade em família.

Luís Pereira defende que “os museus deviam ser espaços eminentemente pensados para as crianças”. Há exemplos de museus portugueses muito atraentes para crianças e há os que não colocam os mais pequenos no centro das suas preocupações. As visitas guiadas devem ser planeadas e colocadas em prática numa linguagem acessível para crianças. E não só. “Em todos os museus deveria haver atividades para as crianças, estilo caça ao tesouro, relacionadas com o tema do museu, colorir ou outras possibilidades. Ou seja, atividades que ultrapassam o contexto das visitas escolares.” Simples, não implicam muitos custos e motivam e entretêm as crianças.

“Eu creio que um aspeto relevante tem a ver com uma mudança de paradigma, em que os museus se destinam muitas vezes a uma elite da sociedade. Isso passa por tornar os museus em espaço mais democráticos e populares, no sentido de ser das pessoas.” Luís Pereira sempre esteve envolvido na criação de atividades para pais e educadores no sentido de fomentar a literacia digital. Foi professor do Ensino Básico e Secundário em várias escolas portuguesas e colaborou com diversas instituições de ensino superior nacionais e estrangeiras, nomeadamente as universidades de Oxford, Bournemouth, Minho e Algarve.

Visitas interativas, criativas, divertidas
Os museus não são todos iguais e uma primeira visita, divertida e nada enfadonha, pode ser determinante. As crianças também não são todas iguais. Espicaçar a curiosidade é fundamental. E, muitas vezes, a primeira visita a um museu é feita em contexto escolar. O que estimula a aprendizagem sobre várias matérias – ser humano, ciência, música, animais, carros – fazendo ponte com o currículo escolar.

“Os professores têm este privilégio de abrir horizontes aos seus alunos. Em alguns países, a entrada em museus é gratuita para professores. Isso faz todo o sentido, pois quando planifica uma visita escolar a informação e conhecimento do professor vão influenciar o programa dessa mesma visita.” Professores e pais podem, por exemplo, desafiar os mais novos a usar o Minecraft, o jogo do mundo virtual, para construírem o seu próprio museu. Colocar a criatividade a funcionar.

Na sua perspetiva, as entradas para famílias deveriam ser tendencialmente gratuitas nos museus. Luís Pereira entende que o modelo de negócio deveria apostar mais na venda de produtos das lojas, da cafetaria-restaurante, e não se centrar em demasia no bilhete cobrado à entrada. “Do meu ponto de vista, interessa mais ter os museus cheios, com o potencial de venda de recordações e produtos com preços acessíveis, do que ficar com os espaços vazios.” “Julgo também que a dinâmica educativa dos museus está muito centrada nas visitas escolares, em vez de programas para ocasiões de férias, altura em que as famílias têm mais disponibilidade para acompanhar os seus filhos”, acrescenta.

“É importante reconhecer que os museus são muito relevantes num contexto em que o aprender acontece também fora da sala de aula. A educação não formal é muito relevante e favorece a apreensão de novos conhecimentos ou o reforço das aprendizagens feitas dentro da sala de aula”, sublinha.

Pensar nas crianças é um bom princípio e é também uma boa estratégia. Se os miúdos gostam do museu, da experiência, divertem-se e aprendem, e os pais tendem a querer repetir o programa naquele ou em outros museus. “Creio que já todos tiveram experiências em que uma visita guiada pouco informada e amorfa retira todo o entusiasmo que aquele património podia despertar. Por outro lado, quando existe paixão e a narrativa está pensada para os mais pequenos, as crianças e os mais velhos ficam presos a cada detalhe”, comenta. E, em seu entender, as pessoas que trabalham nos museus não podem ser esquecidas. Têm de ser valorizadas como parceiras na educação das comunidades.

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