Minderico em ementas e placas da escola

Alunos da Escola Secundária de Mira de Aire preservam a linguagem local utilizada nas feiras e mercados de outros tempos. Dois investigadores e o comandante dos bombeiros participam neste projeto, que começou este ano letivo.
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Antes de tudo, convém perceber o que é o minderico, recorrentemente apelidado de dialeto local. Anabela Esteves, professora de Área de Projeto e Tecnologias da Informação e Comunicação da Secundária de Mira de Aire, faz as devidas correções. "O minderico não é um dialeto porque, tendo em conta o seu contexto sociogeográfico, isso implicaria que fosse um dialeto do português - o que é completamente incorreto". "Um dialeto, de forma bem simplista, implica uma base linguística comum, que se disforma geograficamente. Isso não acontece com o minderico: quando um falante de minderico usa a sua língua com um falante de português sem conhecimentos de minderico, este não o entende", acrescenta.

O minderico era um socioleto, uma língua secreta usada por um determinado grupo social que ao longo do tempo se alargou a outros estratos da população, entrando no quotidiano de uma zona geográfica. É uma variedade linguística própria, com características fonéticas e morfossintáticas peculiares que o afastam do português bem como de outras línguas românicas, e com duas variantes regionais: a de Minde, que está mais desenvolvida e padronizada, e a de Mira de Aire. O isolamento geográfico permitiu a conservação desta variedade linguística única.

Desde o início deste ano letivo que os 18 alunos da turma do 8.º A da escola Secundária de Mira de Aire estão mergulhados num programa especial, que pretende revitalizar e trazer para o dia a dia dos Mirenses a linguagem utilizada nas feiras e mercados de antigamente - a piação. A Direção da escola lançou o desafio, a professora Anabela Esteves não quis perder a oportunidade. O projeto passa por identificar espaços e estabelecimentos, elaborar ementas e cartazes na língua que é marca da identidade cultural da região, para preservar o património cultural e linguístico.

Há várias etapas a cumprir. Pesquisar e recolher palavras na piação com a ajuda do comandante dos bombeiros, Carlos Alberto, documentar as palavras com a ajuda da investigadora e linguista Vera Ferreira, criar uma base de dados, traduzir para piação todas as placas identificativas do espaço escolar, traduzir as ementas da cantina. Elaborar folhetos informáticos com palavras na piação por categorias, criação de músicas na piação, compilação dos trabalhos realizados ao longo do ano, e ainda divulgação do trabalho no site, no jornal da escola e em todo o recinto escolar. Tarefas que vão ocupar os 18 alunos até ao final deste ano letivo.

O projeto foi apresentado no início do ano letivo numa aula de Área de Projeto. "Os alunos adotaram uma postura de grande participação e interesse sobre o assunto. Estão muito curiosos e entusiasmados" revela Anabela Esteves. O diretor da escola convidou Vera Ferreira, investigadora da Universidade de Munique e Regensburg, que se encontra a desenvolver um projeto sobre o minderico, o assistente Peter Bouda, também investigador da Universidade de Regensburg, e Carlos Alberto, comandante dos bombeiros voluntários.

Aguardam-se agora novos desenvolvimentos para este projeto. O diretor da escola, João José Almeida, sonha já com a criação de uma disciplina opcional de minderico que funcionaria como alternativa para os alunos do 3.º ciclo. "Mas, para isso, é necessário encontrar parceiros, estabelecer protocolos, solicitar apoios e, acima de tudo, muita persistência e compreensão por parte das entidades responsáveis", refere Anabela Esteves.
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