Os sinais do insucesso escolar

Má preparação é "uma bolinha de neve". Pais e professores devem falar a mesma linguagem e definir objetivos comuns.
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Não é simples perceber as causas do baixo rendimento escolar e não há receitas nas prateleiras. "Cada aluno é único e temos de intervir consoante o que está a perturbar a aprendizagem. São casos sempre muito difíceis. No entanto, enquanto o aluno não tiver consciência de que tem de estudar para ter uma vida melhor, pouco ou nada se poderá fazer", refere Manuela Sousa, professora do 1.º ciclo do Ensino Básico.

Falta de disponibilidade dos pais para acompanhar os filhos nas aprendizagens, excesso de horas letivas e não letivas fora de casa, intervenções inoportunas dos encarregados de educação que teimam em colocar-se em tarefas exclusivas dos professores, a facilidade com que se deixa alunos transitarem de ano. Situações que, para Manuela Sousa, estão a transformar negativamente o sucesso das aprendizagens dos estudantes.

O ensino lúdico poderá, em seu entender, ser uma solução, como, por exemplo, recorrer a jogos de cartas, de dados e outros. "Porém, não deve ser utilizado como prática diária, uma vez que a escola é um local de trabalho e o trabalho do aluno é estudar. Aqui, também os jogos apelativos não são fáceis de encontrar, uma vez que os alunos têm acesso a Playstation, PSP, Nintendo, etc".

Para Sara Oliveira, também professora do 1.º ciclo, é preciso dar especial atenção a várias causas. "Ao transtorno de desenvolvimento do aluno, que por si só condiciona a aquisição e compreensão de competências e conteúdos; problemas familiares que se refletem no quotidiano escolar e na formação psicossocial das crianças; e a elevada carga horária semanal a que os alunos estão sujeitos." "Não devemos considerar o baixo rendimento escolar como se fosse um problema insolúvel, mas, antes disso, como desafios que fazem parte do próprio processo de aprendizagem", defende.

A psicóloga Paula Monteiro, que acompanha pais na resolução de diversas problemáticas, apresenta vários fatores responsáveis pela realização escolar, como "os hábitos consistentes de trabalho dos alunos". Horário definido, motivação, local organizado, diversificar fontes de pesquisa, domínio das técnicas de estudo. Há mais. "O nível de desfasamento entre os padrões culturais e o próprio processo de socialização das crianças na família e na comunidade de pertença, em relação às práticas e aos padrões exigidos e estimulados pela escola." Ou as próprias características do aluno e do professor, bem como "a qualidade das interações educativas na sala de aula e o relacionamento interpessoal nas escolas". O nível cultural dos pais, o interesse pela educação dos filhos, os estilos de vida ou mesmo o contacto com formas de lazer ou de cultura podem ajudar a explicar certos comportamentos.

Primeiro passo: compreender os motivos para definir estratégias de intervenção, sem esquecer que cada aluno é único. O que pode passar pela adoção "de estratégias de estudo mais eficazes, acompanhamento parental mais efetivo, estímulos de aprendizagem diferentes, alteração das expectativas que os adultos que rodeiam os alunos têm". "Em muitos casos, ajudar os pais a adotar níveis equilibrados de exigência e encorajamento no relacionamento com os filhos pode fazer com que o autoconceito dos seus filhos aumente e os resultados escolares melhorem", acrescenta a psicóloga, que visita escolas e colabora com professores tanto na compreensão das especificidades dos problemas, como na busca de soluções e estratégias adequadas à sua resolução.

Concentrar no problema
Não ignorar sinais e procurar apoio. Segundo Paula Oliveira, os pais devem procurar ajuda especializada. "Muitas vezes para os ajudar a compreender o problema e para se concentrarem nele e não no filho como sendo ele o problema." E também, acrescenta, "pela influência que uma questão destas pode ter na interação familiar, já que poderá comprometer a qualidade do relacionamento entre pais e filhos que é tão importante para superar o problema. E para poderem mudar ou adotar alguma estratégia que possa ajudar a superar a questão".

Mergulhar na raiz, avaliar fatores físicos, psicológicos e intelectuais, bem como a própria metodologia utilizada pelas escolas e, nos casos mais problemáticos, fazer um diagnóstico durante a infância, se possível ainda na pré-escola. "A burocracia que se reflete ao nível da diversidade de formalidades e documentação exigidas tende a constituir um fator inibidor da identificação dos reais problemas dos alunos", alerta Sara Oliveira. "Para procurar a remissão desta problemática é necessário encontrar fórmulas criativas que, impulsionadas pelos responsáveis políticos, permitam desempenho com sucesso dos alunos. Deve-se apelar a um tratamento psicopedagógico clínico e, em algumas situações, disponibilizar uma maior carga horária direcionada aos problemas de aprendizagem reduzida."

Para Sara Oliveira, um mau aluno no 1.º ciclo não significa obrigatoriamente um mau aluno nos níveis de ensino seguintes. "Porém, será necessário um esforço maior por parte desse aluno, e dos que o rodeiam, para conseguir adquirir as bases tão importantes para um desenvolvimento com sucesso. Há que ter em consideração que nem todas as crianças atingem a mesma linha de desenvolvimento nas mesmas idades cronológicas". "Uma má preparação é sempre 'uma bolinha de neve'. Mas há sempre casos de pessoas que não foram alunos brilhantes, chegaram até a passar por algumas retenções, e que neste momento são pessoas com uma boa formação pessoal e social", afirma Manuela Sousa. "O aluno precisa de construir uma autoconfiança muito grande para ultrapassar as suas dificuldades. Acredito que com força de vontade o aluno consiga ultrapassar o seu baixo rendimento escolar inicial", acrescenta. Mais uma opinião. "O insucesso escolar tem um carácter precoce, constante e cumulativo", realça Paula Monteiro.

Família e escola. Uma relação importante. "A articulação entre casa e escola deve ser feita logo que o professor detete que o aluno está com dificuldades de aprendizagem", refere Manuela Sousa. "O diálogo e a colaboração da família e da escola, quando saudáveis, farão diferença no diagnóstico rápido e na consequente transposição das dificuldades sentidas pelos alunos", observa Sara Oliveira. "É importante que pais e professores falem a mesma 'linguagem' e definam objetivos conjuntos para o sucesso escolar dos alunos, ao mesmo tempo que conjugam esforços", refere Paula Monteiro.

Não se habituar a uma "muleta"
TPC: com ou sem apoio dos pais nos casos de dificuldade de aprendizagem? O assunto não é consensual. "Os pais devem verificar se o aluno fez ou não os TPC. Não devem, de modo algum, substituir o professor. Os TPC devem servir para o aluno verificar se percebeu a matéria ou não. Mas o que está, neste momento, a acontecer é termos pais a fazerem os TPC pelos filhos, ou porque já não têm paciência para explicar ao fim de um dia de trabalho ou porque, simplesmente, aprenderam de outra forma", afirma Manuela Sousa. "O acompanhamento dos pais pode ser sempre uma mais-valia, quando consciencializados de que o estudo, trabalho e empenho tem de ser do estudante e não dos pais. Os pais devem ter em consideração que os TPC são uma forma de responsabilizar os alunos, de sistematizar as suas aprendizagens e desenvolver método de estudo", repara Sara Oliveira.

Paula Monteiro concorda com a ajuda dos pais com um objetivo. Ou seja, como uma "oportunidade de explicar de forma diferente o mesmo conteúdo e perceber quais são as reais dificuldades". "Ao mesmo tempo, deve ser visto como uma oportunidade de orientar os esforços na organização do local de estudo e do tempo destinado a ele, para facilitar a aquisição de uma crescente autonomia, ao mesmo tempo que promove a autoestima pelo reforço de laços familiares saudáveis."

Recorrer a explicações? Só em último recurso. Ou seja, quando todos os meios de acompanhamento da escola e de casa falham. "Deve-se tentar incutir métodos de trabalho e de estudo no aluno, para não se habituar, desde cedo, a uma 'muleta'", defende Manuela Sousa. "O sistema educativo, a escola, e professores deveriam, em conjunto, trabalhar para serem capazes de fornecer aos alunos com mais dificuldades todos os meios para serem bem-sucedidos no meio escolar. Ainda não alcançamos esse nível, uma vez que ainda existe a falta de recursos humanos e materiais", realça Sara Oliveira. Paula Monteiro responde sim, mas com condições. "Se as explicações forem adequadas às necessidades específicas manifestadas pelo aluno, quer pela forma como são ministradas, quer pelos conteúdos que privilegiam." "As explicações devem também promover hábitos de trabalho consistentes para impedirem que as dificuldades se agravem", acrescenta.
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