Aparelho de alarme dá resposta ao xixi na cama

Não é por desleixo nem por problemas de ordem emocional que a criança acorda repetidamente com a cama molhada. São fatores biológicos e comportamentais que estão na origem de um problema que pode ser ultrapassado com paciência e também com a ajuda de um sistema de alarme.
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Enurese. O nome científico pode causar estranheza, mas o comportamento é conhecido de pais e crianças. Fazer xixi na cama até uma idade tardia é sinónimo de vergonha e cansaço para todos. Porque se evitam as dormidas fora de casa, porque o sono está associado ao barulho de um plástico desconfortável, ao cheiro a urina entranhado e a banhos matinais, por vezes, acompanhados de ralhetes.

Os estudos epidemiológicos referem a existência de 10% de crianças com enurese. O que equivale a dizer que dez em cada cem menores com 7 anos, mais meninos que meninas, despertam ensopados em xixi, pelo menos duas vezes por semana. A enurese é um fenómeno de incidência primária. Ou seja nunca, desde que a fralda deixou de existir, houve uma temporada de cama seca.

O descontrolo da bexiga é um comportamento típico dos bebés. Por isso, não são raros os casos em que os pais reagem negativamente a este comportamento. Como adiantou ao EDUCARE.PT a psicóloga Edwiges Mattos Silvares, "os pais acham que os filhos não controlam a bexiga porque não querem". Mas, reforça a investigadora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, no Brasil, "não é uma questão de pouco esforço e não adianta ficar irritado. O que resolve é ensinar a criança a aprender os sinais de bexiga cheia".

O Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo recebe anualmente 300 enuréticos. O Projeto Enurese - criado em 1992 - ganhou um carácter mais estruturado em 2000, com um pacote de tratamento que inclui o uso de um aparelho de alarme noturno para detetar as primeiras gotas de xixi na cama seca.

Enurese tem causas biológicas
Embora o senso comum tenda a associar a enurese noturna a problemas emocionais, os estudos provam que, pelo contrário, não é consequência de distúrbios mas antes uma causa. Há inúmeras origens para o descontrolo da bexiga, sendo que frequentemente uma criança não padece de apenas uma delas. É sabido que pais enuréticos terão, por certo, filhos enuréticos. Para lá do fator genético, outra das possíveis origens é a diminuição da vassopressina, a hormona antidiurética, responsável pela menor produção de urina durante a noite. De resto, a criança pode ainda ter uma bexiga que se contrai antes de estar completamente cheia ou sofrer de uma incapacidade para acordar em resposta aos sinais de xixi.

Se é sabido que 15% dos casos de enurese param sem qualquer tratamento (trata-se da remissão espontânea), outros há que continuam pela infância e adolescência, havendo mesmo registos (1% a 2%) de indivíduos que chegam à maioridade ainda enuréticos. À medida que as crianças vão conquistando autonomia, a enurese fica como o bicho-papão que as prende a um perfil comportamental pouco adequado à idade. E aí, sim, surgem os distúrbios emocionais. "A tendência mais esperada é o isolamento, a pessoa sente-se estigmatizada, não leva amigos para dormir em casa", explica Edwiges Mattos Silvares, que, recentemente, esteve em Braga, no 1.º Congresso de Saúde e Comportamento de Países de Língua Portuguesa.

Ao longo dos anos, a psicóloga tem vindo a observar uma mudança de comportamento dos pais. "Estão menos irritados e intolerantes relativamente ao problema dos filhos", comenta. Mesmo assim, o programa de tratamento proposto no Projeto Enurese implica um esforço, que pode impacientar a família. "Os pais cansam-se porque têm que acordar durante a noite, levar o filho à casa-de-banho, trocar a roupa de cama, mas vale a pena o sacrifício."

O aparelho de alarme é apenas uma das vias para o tratamento da enurese. A outra é a farmacológica. Contudo, o uso de químicos (em regra, a hormona de substituição) tem registado mais taxas de recaída do que o aparelho, quando interrompido o tratamento. Em contrapartida, o sistema sonoro tem registado uma taxa de êxito de 80 por cento.

Aparelho de alarme disponível em Portugal
Em Portugal, desde 2008 que o aparelho está disponível no mercado. Mas a simples compra deste mecanismo de alerta para a cama molhada não pode ser visto como a solução milagrosa por si só. Durante alguns meses, a rotina da família passa a ser acordar com um sinal sonoro, levar a criança à casa de banho para terminar o xixi, trocar os lençóis, voltar a dormir. A cooperação entre pais e filhos é fundamental. Em vez dos ralhetes matinais, a criança deve ser estimulada a lidar com os sintomas de bexiga cheia e recompensada pelas noites com a cama seca. É o que se chama a superaprendizagem.

A atenção que é dada ao problema concreto da criança tem, antes de mais, uma função benéfica nas crises emocionais. "Temos verificado uma melhoria na vida da criança, com ou sem sucesso do tratamento", comenta Edwiges Silvares.

Para além do uso do aparelho, outras pequenas ações podem fazer a diferença. Por exemplo, reduzir o consumo de diuréticos antes de dormir. A psicóloga não aconselha a cortar a ingestão de água, mas recomenda que não se beba leite pouco tempo antes de ir para a cama. Já acordar a meio da noite para levar o filho à casa-de-banho é má estratégia. "Desta forma a criança não aprende os sinais de bexiga cheia", alerta.

Passar da fralda ao pote
Embora a enurese seja um fenómeno biocomportamental, acredita-se que uma boa gestão do desfraldamento ajuda a prevenir complicações futuras. Os pais devem estar atentos à melhor idade para começar a tirar a fralda. Normalmente, uma maior duração entre um e outro xixi indica que se pode iniciar o ritual, mas as meninas, em geral, são mais precoces do que os meninos nesta função. A primeira fase é familiarizar a criança com o pote. Deixá-la sentada, alguns momentos por dia, mesmo sem fazer xixi. Depois habituá-la a associar o alívio da bexiga com este objeto. Sendo esta uma fase muito intuitiva na relação entre pais e filhos, não deixe nunca de ter em mente que vai precisar de um bom equilíbrio: não ser demasiado indulgente, nem muito exigente. Isto é, não se deve exasperar com o número de vezes em que o xixi vai mesmo pelas pernas abaixo, mas também deve ser firme na intenção de demonstrar que o pote é o sítio certo para os momentos de aflição.

Só depois de controlado o período diurno é que se deve iniciar a fase noturna. E daqui, a passagem para a sanita. Claro que os primeiros meses vão exigir dos pais a pergunta mil vezes repetida: "Queres fazer xixi?". Mas verá que ao fim de algum tempo, vai ser a criança a primeira a pedir para ir a correr para o pote.
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