“Gosto imenso de uma aula expositiva, mas não de manhã à noite”

Programas mais curtos. Tempo para “trabalhar de várias maneiras”. Aumento do número de professores por turma, em alternativa à diminuição de alunos. E uma instituição que revisse os programas, de forma periódica. São algumas das ideias de Maria Emília Brederode dos Santos, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), para melhorar a educação.
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A ligação de Maria Emília Brederode dos Santos com os média tem como faceta mais conhecida do seu currículo o facto de ter sido diretora pedagógica da revista e do programa televisivo “A Rua Sésamo”. Um programa infantil difundido na RTP entre 1987 e 1997. Pelos caminhos da Educação, a atual presidente do CNE, foi também presidente do Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação de 1997 a 2002 e da Associação Portuguesa de Intervenção Artística e de Educação pela Arte de 2006 a 2008.

Maria Emília Brederode dos Santos tem ainda presença assídua em vários movimentos educacionais, como o Grupo Informal sobre Literacia para os Média (GILM). Tem também colaborado com a imprensa escrita diária e especializada. No Jornal de Letras, coordena a página “Inquietações Pedagógicas” cuja presença na Internet se faz através de um blog com o mesmo nome.

O EDUCARE.PT conversou com Maria Emília Brederode dos Santos no intervalo de um debate sobre “notícias falsas” com alunos do ensino básico e secundário, promovido pelo GILM, em maio. A literacia mediática é uma das causas que defende, apaixonadamente. Outra é, obviamente, a educação. Entre o digital e o analógico, enaltece o facto de a escola continuar a ser “o grande lugar de convívio dos jovens” e a proporcionar “uma experiência direta do real”, numa sociedade cada vez mais virtual.

Questionada sobre as áreas do sistema educativo português que requerem intervenção prioritária, a presidente do CNE elege três: a educação dos zero aos três, a educação de adultos e o 1.º ciclo do ensino básico. Considera ainda ser necessário encurtar os programas para se alcançar um ensino menos expositivo. “Se o professor não consegue cumprir aquilo que entende ser o seu dever – dar o programa – não se sente com à vontade para organizar aprendizagens de uma outra maneira que, naturalmente, leva muito mais tempo.”

EDUCARE.PT (E): Os média assumem uma importância cada vez maior no quotidiano dos jovens. A escola deixou de ser o centro da vida dos jovens para dar lugar aos média?
Maria Emília Brederode dos Santos (MEBS):
Não sei se isso é verdade… Parece-me que paralelamente aos média - que, de facto, se tornaram ainda mais importantes do que já eram - a escola continua a ser o grande lugar de convívio dos jovens. Não tenho esse sentimento de que os média tenham tirado o lugar à escola.

E: Nem que sejam concorrentes?
MEBS:
Concorrentes são, em algumas coisas, com certeza. Mas são experiências diferentes. E ainda bem que há um lugar onde os jovens e todas as pessoas podem ter uma experiência direta do real e dos outros. Se não é tudo por intermédio “de”... Seja por intermédio de instrumentos, máquinas ou dispositivos.

E: Quando se fala na desmotivação dos alunos para a aprendizagem, atribuem-se, muitas vezes, a culpa aos média e às redes sociais. Os alunos esquecem-se de fazer os trabalhos de casa porque estão no computador… Não gostam das aulas, porque o ensino é expositivo e estão habituados ao multimédia... Isto é assim?
MEBS:
Se calhar é um bocado verdade. Mas já se dizia o mesmo quando se tratava apenas da televisão e, se calhar, já se dizia o mesmo em relação à rádio. Embora, hoje em dia, isto tende tudo a acumular-se. Portugal é dos países da União Europeia onde o ensino é mais expositivo, há dados sobre isso, e isso é mau. Pessoalmente, gosto imenso de uma aula expositiva, mas não de manhã à noite. De aulas muito expositivas, sempre no mesmo registo, não há ninguém que goste porque a nossa atenção não consegue estar tanto tempo focada dessa maneira. Não são só os jovens que se aborrecem.

Com novas tecnologias, ou sem elas, acho que terá de haver um esforço para diversificar metodologias e esse esforço só é possível com programas que não sejam tão pesados como aqueles que existem atualmente. Senão o professor fica um bocado dilacerado entre duas exigências: a de “dar o programa” e a de “o que interessa é que os alunos aprendam”. Se o professor não consegue cumprir aquilo que entende ser o seu dever – dar o programa – não se sente com à vontade para organizar aprendizagens de uma outra maneira que, naturalmente, leva muito mais tempo.

E: O fim dos exames nacionais, a realização das provas de aferição em alternativa, serviu para tirar a pressão dos professores “de dar o programa”. Que outros passos devem ser dados?
MEBS:
É fundamental rever os programas. Sei que isto é muito polémico porque toda a gente diz que passamos a vida a rever os programas, mas não é verdade. Há programas que têm sido muitas vezes alterados. Há outros que estão imutáveis há vinte e tal anos. Existem os programas de Português e Matemática que são consideradas estruturantes, como já foi dito, mas a verdade é que as Artes são muito importantes, pelo menos o aluno ter o contacto com uma das artes é uma coisa muito importante na vida. A Educação Física é muito importante. A Educação Para a Cidadania é muito importante. Sem prejuízo de ter uma boa base na língua materna e na Matemática, não me parece que a sobrecarga de matéria que tem sido feita seja uma coisa positiva e permita melhores aprendizagens.

Se os professores tiverem mais tempo para trabalhar de várias maneiras o Português e a Matemática, os alunos aprenderão melhor, ficarão com mais bases do que se for só ingurgitar matéria para despejar nos exames. Para responder à sua pergunta mais diretamente, acho que devia haver uma instituição, ou um grupo com um mínimo de institucionalização, que periodicamente revisse os programas de todas as disciplinas e procedesse à sua alteração ou não, conforme as necessidades.

E: Um grupo supragovernamental?
MEBS:
Não é preciso ser supragovernamental, basta um departamento do Ministério da Educação com profissionais. Uma coisa é a definição das finalidades da educação que se faz ao nível político e social, outra coisa é a um nível mais técnico, o desenvolvimento curricular dos programas. Neste caso, tem de ser um grupo com competência nesse domínio que faça essa revisão periodicamente, todos os cinco anos, ou dez anos, como se faz noutros países.

E: Isso não poderia ser uma atribuição do CNE?
MEBS:
Eventualmente, mas o CNE tem um papel consultivo, não executivo. Era, com certeza, uma atribuição do Instituto de Inovação Educacional onde tínhamos um setor de desenvolvimento curricular. Se poderia ser uma atribuição do CNE? Vou pensar. Está a dar-me ideias perigosas (risos).

E: Sobre a redução do número de alunos por turma, voltamos a um número que tínhamos antes das mudanças introduzidas com o ministro Nuno Crato. Esta redução é significativa?
MEBS:
Confesso que não sei dizer. Uma outra alternativa, na qual talvez eu apostasse mais, seria ter mais professores por turma. Não quer dizer que a cada disciplina houvesse sempre dois ou três professores, mas acho que a flexibilidade curricular vai permitir organizar as aprendizagens de várias maneiras. Não é preciso haver sempre uma turma fixa para todas as aprendizagens, para todas as metodologias. Pode-se, por exemplo, organizar uma sessão mais expositiva – que, exagerado, até podia ser para 200 alunos – e depois haver trabalhos de projeto com grupos mais restritos. A alternativa que proponho não é ter menos alunos por turma, mas mais professores para darem apoio a essa variedade de metodologias. Mas é uma aspiração muito forte dos professores terem menos alunos por turma. Sem ter muita certeza sobre qual resultaria melhor, pesaria estas duas hipóteses.

E: Um estudo de investigadores da Nova School of Business and Economics, que analisou a dimensão das turmas do 6.º e do 9.º ano no ano letivo de 2011/2012, concluiu que a diminuição do número de alunos por turma não tinha impacto na aprendizagem…
MEBS:
Há investigações que vão nesse sentido, outras que não. Mas os professores sentem o número grande de alunos como um grande peso e isso também tem de ser tido em atenção. Ainda assim, talvez me inclinasse mais para a outra hipótese porque me dá impressão que é importante pôr os professores a colaborarem uns com os outros. É uma coisa que se defende muito, atualmente, e que também favoreceria esta questão de diversificar as metodologias.

E: Alguns professores, na assistência do debate, que estiveram a trabalhar no projeto “Líderes Digitais”, comentavam que havia muitas iniciativas deste género nas escolas e imensos alunos a quererem participar em tudo, no entanto, faltava tempo para dar resposta a estas solicitações.
MEBS:
Se tivermos as tais aprendizagens essenciais, com programas coerentes com o Perfil do Aluno, a tal ideia de que se pode aprender de muitas maneiras, pelo que ouvimos aqui, os miúdos que estiveram a trabalhar neste projeto estiveram a trabalhar na língua portuguesa bastante a fundo. Há muitas maneiras de trabalhar a língua portuguesa, para isso o teatro é fantástico. Se se conseguisse explicar, demonstrar como os vários projetos contribuem para os objetivos e para o programa das várias disciplinas, essa questão do tempo podia ser redistribuída. Claro que é mais complicado, o mais fácil é fazer as turmas como estão.

E: A OCDE lançou um relatório sobre as experiências de inovação na sala de aula e concluiu que a utilização das tecnologias se limitava ainda muito a reproduzir atividades que poderiam ser realizadas sem ferramentas digitais. E lançavam um bocado a questão aos professores de inovarem um bocadinho mais. Em Portugal será assim?
MEBS:
Tenho um defeito, conheço sobretudo as experiências positivas e as inovações e tenho a impressão que há experiências muito interessantes. Lembro-me da professora Adelina Gomes, no Minho, que utilizava há muito tempo o telemóvel na sala de aula para o ensino do Português. Ela tinha posto os miúdos a comentarem sonetos de amor e a fazerem eles próprios poemas através dos telemóveis, a propósito do dia de São Valentim. Sei que os alunos se envolveram e aprenderam imenso. Não posso pensar que isto seja uma experiência muito generalizada, são coisas pontuais. Mas tenho sempre a impressão, que fazendo confiança nos professores, dando-lhes alguma inspiração e conhecimentos, vão nascer muito mais deste tipo de atividades, mais criativas e que envolvam e estimulem mais os miúdos.   

E: A dificuldade, também apontava a OCDE, era reproduzir estas experiências inovadoras noutros contextos, diferentes dos que lhes deram origem. Mas se calhar também não é isso que se pretende...
MEBS:
Dar visibilidade a diferentes experiências é uma maneira de inspirar as pessoas. Rouba-se ali um bocadinho, experimenta-se esta ideia, depois aquela... Fazer uma coisa e obrigar todas as escolas a fazerem igual já não se usa em parte nenhuma. Dar visibilidade é importante.

E: Identificou já algumas coisas que podem ser melhoradas no sistema educativo português. Consegue identificar áreas ou níveis de ensino onde seja necessária uma intervenção prioritária?
MEBS:
Consigo identificar três. A primeira na educação dos zero aos três anos. Hoje reconhece-se que é uma fase muito importante da vida. Esta área não depende do Ministério da Educação, mas era importante reforçar a componente educativa nas várias soluções que existem. Outra área é a educação de adultos, sabemos que é importante por todas as razões. Existem grupos de adultos muito diferenciados: pessoas que querem e precisam de aprender coisas muito diferentes; o analfabetismo ainda nos mais velhos; aqueles que precisam de uma reconversão profissional; aqueles que precisam de se atualizar; os imigrantes que chegam e precisam de saber a língua; os que querem estudar mais e prolongar os estudos para o ensino superior ou fazer pós-graduações. A educação de adultos é uma área muito exigente, muito variada, e que precisaria muito de atenção.

E: Na educação de adultos, como o grupo das mulheres que, mais do que os homens, invocam motivos familiares para não continuarem a estudar?
MEBS:
E, ao mesmo tempo, parece que são as mais importantes para o sucesso escolar dos seus filhos. Temos de atender a essas questões todas. Gostava de ver muito mais oferta educativa para adultos. Por outro lado, gostava que as cidades portuguesas fossem mais educativas, ou seja, dessem muita mais atenção à informação que se pode passar de uma maneira quase que por acaso. Seja explicando quem foi a pessoa que dá nome a uma rua ou qual o tipo de árvores que estão plantadas num determinado jardim.

E: Voltando às áreas de intervenção prioritária...
MEBS:
Deveria ser dada mais atenção ao 1.º ciclo, pois trata-se de um nível importantíssimo e que poderia beneficiar mais da integração nos agrupamentos e não ser tão prejudicado. Por um lado, a constituição dos agrupamentos foi boa, há uma maior articulação e é mais possível ir buscar professores dos outros níveis para coadjuvarem o professor do 1.º ciclo. Por outro lado, também há uma tendência dos outros níveis de ensino para “colonizarem” o 1.º ciclo e darem um bocado cabo da sua especificidade. Depois, há o ensino profissional onde também seria importante intervir… Mas vou parar por estes três, senão acabo por chegar a todos os níveis de ensino.    
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