Escola da Ponte num livro de José Pacheco

O livro Escola da Ponte - Formação e Transformação em Educação é apresentado amanhã em Vila das Aves. O autor espera que a obra seja "mais um contributo para o reconhecimento de zonas obscuras no exercício da profissão de professor".
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José Pacheco está fisicamente distante da escola que ajudou a erguer, mas afetivamente perto de uma casa de ensino que sabe que o trajeto de cada aluno e a experiência de escolarização são únicos e irrepetíveis. Escola da Ponte - Formação e Transformação em Educação é um livro que, segundo o autor, "incide sobre a reelaboração da cultura pessoal e profissional, no contexto de uma formação indissociável da ideia de mudança escolar e social - o chamado 'círculo de estudos'". A "primeira tentativa" para explicar a Escola da Ponte é apresentada amanhã, terça-feira, 30 de setembro, na Escola da Ponte, em Vila das Aves, pelas 18h00. O professor está presente no lançamento do livro, que "é, também, um exercício de memória".

"Foi nesses grupos (a que não dávamos nome) que aprendi (e aprendemos) a recomeçar, após cada contrariedade. Quando, em 1976, cheguei à Escola da Ponte, já havia vivido muitas situações de insucesso pessoal e de frustração profissional em outras escolas. A solidariedade do círculo de estudos permitiu transformar a acumulação de insucessos numa gramática de mudança. A análise dos erros cometidos permitiu desenhar uma estratégia, que conduziria à criação do 'núcleo duro' fundador do projeto Fazer a Ponte", recorda José Pacheco, licenciado em Ciências da Educação e mestre em Educação da Criança pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. "Limito-me a procurar compreender onde a formação acontece e como sobrevive", adianta.

"O livro é dirigido àqueles educadores que ainda não desistiram de fazer dos seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes", revela. A obra foi bem acolhida no Brasil. "Mas eu creio que haverá uma expectativa exagerada. A Ponte ainda é um projeto recente, um projeto humano frágil e, por vezes, mitificado..." No fundo, uma obra para fazer pensar. "Terá valido a pena o investimento de tempo e energias, se outros tomarem seus os intentos breves deste estudo, os conduzirem para novas interrogações. As práticas da Escola da Ponte e de outros grupos de professores poderão abrir espaços alternativos de formação, onde se confrontem diferentes racionalidades, onde se produzam juízos e interrogações sobre quem é e como é formado."

Um livro de experiências e que salienta a importância da utopia. Experiências, conta, de "um coletivo que, nos idos anos setenta, ousou alterar a organização das suas escolas, interrogar práticas educativas dominantes, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados. Lamento que somente a Ponte tenha sobrevivido para contar...". Uma obra com várias mensagens? "Talvez haja a de que um projeto é um ato coletivo e pressupõe uma profunda transformação cultural. No processo de formação cruzam-se relações entre indivíduos e grupos, que ultrapassam a fronteira das instituições e se defrontam no campo, não somente técnico mas, em sentido mais vasto, no cultural", responde. E acrescenta: "Outra mensagem poderá ser esta: as utopias são necessárias como função crítica do real. Nos espaços intersticiais das contradições dos sistemas sociais, será preciso mobilizar energias criativas fundadoras de uma atividade humana não alienada."

"Locus de pesquisa"
Se há uma obra literária sobre a Escola da Ponte, pressupõe-se a vontade de partilhar ideias, conceitos e até afetos. O que, desta forma, é feito pela primeira vez. José Pacheco retrocede alguns anos. "Ao longo de mais de 30 anos, ajudei a construir um projeto. Ele passou de mero objeto de curiosidade a locus de pesquisa. Sendo o seu maior crítico, sempre me manifestei relutante a mostrá-lo como 'fórmula inovadora' e recusei muitos pedidos, que me foram dirigidos, para publicar algo que o 'explicasse'", afirma. E passa para o presente. "Mas há neste trabalho um propósito confessado de intervenção, que ultrapassa a busca da compreensão, para aspirar ao encontro com algumas pistas de ação. Nesta primeira tentativa de 'explicação' da Ponte, é meu ensejo descrever um dos modos de fazer coincidir a formação de professores com a construção autónoma de uma profissionalidade responsável", admite.

José Pacheco adianta como gostaria que o livro fosse lido e sentido. "Provavelmente apologético e inevitavelmente imperfeito, o presente trabalho será mais um contributo para o reconhecimento de zonas obscuras no exercício da profissão de professor. Ao longo de mais de três décadas, assisti impotente à deserção de muitos e bons companheiros que, saturados de precariedades, rumaram à dignidade em profissões mais bem remuneradas ou de estatuto social mais elevado que a de professor. Porque resisti ao legítimo exílio, me obrigo a este contributo, que deve ser lido criticamente e com prudência". Outro dos propósitos do autor é dar início a algumas reflexões não "sobre um passado cristalizado a imitar", mas sim "porque a Ponte representa uma singularidade, na qual é possível vislumbrar a totalidade sistémica dos problemas do quotidiano das escolas, bem como algumas hipóteses sólidas de possíveis soluções que contrariam o nosso proverbial ceticismo".

O professor realça ainda que há poucos estudos centrados em efetivas transformações na área da formação. "O drama dos pesquisadores tem sido esse: a quem vive o quotidiano da escola, a quem investiga a todo o momento, não sobra tempo para fazer registos. Os que estudam 'sobre' as práticas observam, captam o supérfluo e generalizam-no. As conclusões de muitos estudos refletem a origem dos pesquisadores, raramente a realidade dos investigados", comenta. "A reflexão sobre a prática está cada vez mais viciada por lugares-comuns e uma retórica herdada da formação de modelo clássico, transmissivo, académico, ou o que lhe quisermos chamar..."

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Escola da ponte no Brasil
Prof. Andre Carvalho
Sou professor e morador da região de Heliópolis, em São Paulo, e desde o início me surpreendeu o projeto da escola da ponte na EMEF Campos Salles e o grande trabalho democrático que é realizado, que envolve a todos. Nossas políticas educacionais devem evoluir para o ampliamento da autonomia das escolas, encarando-as humanamente, e não mantendo rigores que apenas empobrecem o avanço da aprendizagem como desenvolvimento pleno, além da limitação nos conteúdos curriculares. A relação humana e os valores precisam ser trabalhados nas escolas, construindo suas culturas de aprendizagem próprias.
25-06-2014
 
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