Os desajustes dos currículos e programas de Matemática

Programas extensos, abstração desadequada aos alunos, abordagens pensadas para cursos que deixaram de existir. A Associação de Professores de Matemática continua a defender alterações nos currículos para evitar que a intuição dos alunos atrofie.  
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Apreensão de matérias em piloto automático sem compreendê-las verdadeiramente. Resolução exaustiva e quase mecânica de exercícios de treino sem desenvolver capacidades de pensar e resolver problemas que não se encaixam na rotina. Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), não tem dúvidas. “Este tipo de experiência matemática tende a atrofiar a intuição e a desenvolver visões dogmáticas e acríticas”, afirma ao EDUCARE.PT.

A APM tem vindo a chamar a atenção para vários “tipos de inadequação” de currículos e programas da disciplina. “Qualquer desajuste grave deve ser alterado”, defende a responsável que insiste que o trabalho de alteração já devia ter começado. “As capacidades dos alunos, sobretudo as de nível cognitivo mais complexas, seriam mais desenvolvidas com abordagens diferentes daquilo que impera hoje”, garante.

Há vários “tipos de inadequação”. Desajustes a vários níveis. Lurdes Figueiral conta que há programas desajustados por terem sido concebidos para outros contextos e fins, como é o caso de Matemática B do Ensino Secundário “pensado para cursos que já não existem” – como os cursos tecnológicos de Construção Civil, Eletrotecnia/Eletrónica, Informática, Mecânica, Química e Controlo Ambiental, Ambiente e Conservação da Natureza, Desporto, entre outros. Ou ainda conteúdos dessa disciplina aplicados num curso para o qual não se ajusta, como é o caso do Curso Geral de Artes Visuais.

Há outras situações. A dirigente da APM fala em programas que estão desajustados porque são extensos, porque apresentam um grau de abstração e de formalismo desadequados aos alunos a que se destinam, “por prescreveram abordagens que se distanciam daquelas para as quais a investigação e a prática em didática específica apontam, com danos graves não só nas aprendizagens dos alunos mas também na própria relação destes com a disciplina, introduzindo precocemente dificuldades e aversões que podem ser evitadas”. Como é o caso dos programas e metas de Matemática para o Ensino Básico e de Matemática A para o Ensino Secundário.

Os alunos têm conseguido assimilar as matérias de Matemática? Têm conseguido dar conta do recado? As matérias são ou não demasiado “puxadas” para cada nível de ensino e para a própria maturidade dos alunos? “Há muitas outras dificuldades para além da desadequação dos programas. Por isso, entendemos ser tão urgente uma avaliação que nos permita conhecer melhor as razões e as causas das dificuldades detetadas”, sublinha.

Programas desadequados, práticas uniformes
Há, no entanto, causas e dificuldades identificadas que, de alguma forma, mesmo que de uma forma empírica, podem ajudar a explicar o que acontece. A falta de condições de trabalho nas salas de aula com turmas demasiado grandes, professores demasiado desgastados sem horas dignas para formação e para trabalho colaborativo, falta de recursos tecnológicos e apoios são realidades que surgem à tona. 

Há mais situações que merecem um estudo pormenorizado. “A utilização da Matemática como disciplina seletiva e segregadora, sobretudo patente nos efeitos dos exames do Ensino Secundário nas regras de acesso ao Ensino Superior. O estigma social e muitas vezes familiar sobre a Matemática: aceita-se com naturalidade que filhos, alunos, crianças, jovens não tenham sucesso escolar em Matemática”, adianta Lurdes Figueiral. 

Programas desadequados e práticas uniformes de ensino provocam sentimentos de impotência. Os professores têm de cumprir os programas, os alunos têm de passar. A falta de diagnósticos precoces que permitam detetar as dificuldades e as potencialidades de cada aluno de forma a planear acompanhamentos específicos, que permitam de imediato ultrapassar dificuldades e desenvolver potencialidades detetadas, também merece uma análise. Lurdes Figueiral junta à lista das dificuldades detetadas “a assunção implícita, silenciosa e generalizada, de que não se obtêm os resultados desejados sem recurso a explicações”.

Por tudo isso, a APM não desiste de defender mudanças nos programas da disciplina. “Não há rigor na desadequação, nem em tratar a todos como se todos aprendessem da mesma maneira, como se todos se pudessem aproximar da experiência e das aprendizagens matemáticas pela mesma via.” “Esse é mesmo o caminho mais fácil, embora como se percebe, sem resultados positivos a larga escala”, acrescenta a presidente da APM.

    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.