Vida de professor
Na véspera do Dia Mundial do Professor, que se celebra amanhã, damos a conhecer algumas histórias de vida de docentes portugueses.
Joana Silva Santos
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Têm diferentes idades e diferentes histórias de vida. Em comum a escolha de uma profissão. São professores. Nenhum se arrepende da escolha, mas reconhecem que há muitos problemas e dificuldades por resolver.
Os primeiros passos: "Era um sonho..."
Rita Martins, 25 anos, é professora estagiária na Escola Secundária com 3.º ciclo D. Dinis, em Coimbra. Dá aulas de Matemática B ao 11.º ano. Diz que ainda é cedo para tirar conclusões sobre o estágio, mas garante que está a gostar. O facto de estar num núcleo de estágio onde lhe é permitido "viver" um pouco o papel de professor e participar ativamente na vida escolar e em tudo o que lhe está inerente é sem dúvida um fator positivo. "Acho que o estágio nos moldes em que está atualmente é pobre e não nos prepara devidamente para um dia mais tarde virmos a dar aulas", alerta. Quanto ao futuro, não tem dúvidas: "Sei que dificilmente serei colocada nos próximos anos."
Ainda a dar os primeiros passos, Rita não tem ilusões. "A carreira de professor é cada vez mais desvalorizada e os alunos, na sua maioria, estão cada vez menos interessados em aprender." Além disso, salienta, há "uma perda de respeito dos alunos pelo professor". Acha que o ensino é um "parente pobre" do nosso sistema político mas acredita que este cenário pode mudar. Como? "Com um maior apoio por parte do Governo e com um maior empenho por parte dos professores. A par disto terá que haver uma mudança na forma como se olha para o professor e dar-lhe o devido valor enquanto profissional da educação", conclui.
O desemprego: "Concorri de norte a sul do país"
"Estou a morar com os meus pais e são eles que continuam a suportar as minhas despesas", desabafa Alexandra Silva, de 25 anos, desempregada. Concorreu de norte a sul do país mas não conseguiu colocação. Tentou o ensino privado - entre 150 e 200 currículos enviados - mas também não teve sorte. Este é, aliás, um cenário comum a muitos dos seus colegas. "O panorama do desemprego dos recém-licenciados na área da educação é geral. Infelizmente, tenho colegas que terminaram o curso há já 2 ou 3 anos e continuam desempregados", justifica.
Alexandra não cruzou os braços e começou a dar explicações de Matemática. "Estou um pouco a fazer aquilo que sempre quis - ensinar os que precisam - e continuo a manter-me sempre a par do que se passa", explica. Quanto ao futuro, espera poder vir a dar aulas "quanto antes" e enfrentar aquele que para si é o maior desafio de qualquer professor: "Fazer com que os seus alunos queiram estar na sala de aula, queiram aprender, fiquem motivados e ganhem ambição para o futuro."
Dentro de 5-6 anos espera que haja uma revolução total do atual sistema educativo, e "que finalmente as coisas comecem a fazer sentido e se consiga fazer educação em Portugal", porque o que sente neste momento é bem diferente. "Sinto que em Portugal estamos a deseducar", desabafa.
O início: "Não me vejo a fazer mais nada"
Silvia tem 30 anos e é professora há sete. Há pouco mais de um ano criou um blogue (aprofessorinha.blogspot.com) onde desabafa e se identifica como a professorinha. Não quer dar a cara ou identificar a escola onde leciona. "Muitas vezes o anonimato é a única coisa que me leva a desabafar metade do que desabafo no meu blogue. Se se soubesse onde leciono, de certeza não revelaria tanto".
Já esteve desempregada várias vezes, uma das quais durante um ano letivo inteiro. Atualmente dá aulas ao 7.º e 8.º anos. Saber que poderia ter alguma influência no futuro dos alunos atraiu-a e garante que dentro da sala de aula se sente "como peixe na água". Ainda assim, face à situação dos professores hoje em dia, afirma que se está "num beco sem saída". "A Ministra encurralou-nos de tal forma que a única coisa que podemos fazer é aceitar as medidas insultuosas que ela nos impõe sob pena de ver a opinião pública ainda mais contra nós do que já está", explica.
O balanço que faz da educação em Portugal também não é o melhor. "Estamos a formar os analfabetos técnicos que amanhã vão formar a nossa sociedade. E todas as medidas que estão a ser implantadas só estão a contribuir para agravar a situação. Há pessoas a mexer na educação que nunca tiveram contacto com professores ou com alunos e isso é um erro colossal!", alerta.
Com deslocações diárias de hora e meia, demasiado trabalho para fazer em casa e muitas saídas tardias da escola devido a reuniões, Sílvia confessa que anda cansada. Mas segue em frente e não para. "Inscrevi-me num mestrado em Administração Escolar. Tenho o sonho de poder pertencer ao um conselho executivo para tentar mudar alguma coisa...", confessa.
30 anos depois: "É cada vez mais exigente"
Professora de Matemática na Escola Secundária com 3.º ciclo D. Dinis, em Coimbra, e uma das docentes distinguidas com o prémio Pitágoras, Rosa Canelas, de 55 anos, garante gostar do que faz e nunca se ter arrependido da sua escolha. Já lá vão 33 anos. "Não penso parar antes de a cabeça me atraiçoar. Não desisto de tentar que os meus alunos tenham um futuro melhor", explica.
O facto de haver alunos que não querem aprender é, no seu entender, o maior problema para os professores. Mas não é o único. "A maneira como a sociedade despreza o conhecimento e o baixo nível de escolarização dos cidadãos, muitos deles pais dos nossos alunos, dificulta muito o trabalho dos professores", afirma. A isto junta-se uma "sociedade que parece querer mostrar aos jovens que sem estudar se pode atingir quase tudo" e a "falta de interesse de muitos pais pela vida escolar dos filhos".
Face a tudo isto reconhece que "ser professor é cada vez mais exigente", sublinhando que neste campo não se pode falhar. "Qualquer falha pode ser o arruinar do futuro de um jovem", justifica.
Opinião semelhante tem António Castelo Gama. "É muito difícil, sobretudo para os professores que se preocupam com as aprendizagens dos alunos e pretendem contribuir para que os seus alunos venham a ser no futuro cidadãos bem-formados e responsáveis", afirma o docente, já com 31 anos de carreira.
Lamenta que sejam poucas as famílias que cultivam nos seus jovens a ideia de que o verdadeiro sucesso se atinge com esforço e critica o discurso oficial. "Seria necessário que os responsáveis pela educação "puxassem as orelhas" a quem não cumpre e incentivassem os alunos para o trabalho de qualidade, desenvolvendo a ideia de que só com trabalho e esforço pessoais se atingem as metas que nos fazem considerar pessoas realizadas", conclui.
Nos últimos dois anos, nos períodos de maior cansaço, António confessa que já pensou algumas vezes na reforma mas só "na condição de poder continuar a colaborar no desenvolvimento de alguns projetos em que estou envolvido", esclarece. Até porque, garante, "nunca me arrependi de ter iniciado este percurso".
A reforma: "Não é uma profissão fácil"
Ana Caldeira decidiu reformar-se há dois anos por questões de saúde. A decisão não foi fácil. "Gosto muito de ensinar e tenho saudades das crianças. Para mim ensinar é brincar. Muitas vezes fui condenada por isso mas acho que tive êxito", argumenta. Deu aulas no antigo ensino primário, maioritariamente ao 4.º ano, a turmas de repetentes, com percursos alternativos. É notória a paixão com que fala do seu percurso e por isso mesmo confessa que está a tentar fazer algo na área do voluntariado.
Porque a atual situação dos professores não é fácil, Ana, de 56 anos, recomenda aos que começam agora muita coragem, amor, calma e paciência. "É muito difícil. Tenho muita pena dos meus colegas. Há muitas exigências e regras, o número de crianças por turma é excessivo porque são mais instáveis e precisam de mais atenção, e as aulas já não lhes dizem nada", justifica.
Para Maria do Rosário Soares, de 58 anos, a decisão de passar à reforma foi fácil. Deu aulas ao 2.º ciclo do Ensino Básico e ao Secundário: Geografia e Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social. Só guarda boas memórias das aulas e da escola mas, cumprido o tempo necessário, não hesitou e veio para casa. Agora tem tempo. Passeia, lê, está com a família...
Para aqueles que ingressam agora na profissão não sabe que conselhos dar. Mas lá vai dizendo que esta "não é uma profissão fácil" e que para se ser professor é preciso ter gosto. "Não podem ver esta profissão como um remédio...", desabafa. E depois, estando cá, é preciso "lutar e exigir condições".
Os primeiros passos: "Era um sonho..."Rita Martins, 25 anos, é professora estagiária na Escola Secundária com 3.º ciclo D. Dinis, em Coimbra. Dá aulas de Matemática B ao 11.º ano. Diz que ainda é cedo para tirar conclusões sobre o estágio, mas garante que está a gostar. O facto de estar num núcleo de estágio onde lhe é permitido "viver" um pouco o papel de professor e participar ativamente na vida escolar e em tudo o que lhe está inerente é sem dúvida um fator positivo. "Acho que o estágio nos moldes em que está atualmente é pobre e não nos prepara devidamente para um dia mais tarde virmos a dar aulas", alerta. Quanto ao futuro, não tem dúvidas: "Sei que dificilmente serei colocada nos próximos anos."
Ainda a dar os primeiros passos, Rita não tem ilusões. "A carreira de professor é cada vez mais desvalorizada e os alunos, na sua maioria, estão cada vez menos interessados em aprender." Além disso, salienta, há "uma perda de respeito dos alunos pelo professor". Acha que o ensino é um "parente pobre" do nosso sistema político mas acredita que este cenário pode mudar. Como? "Com um maior apoio por parte do Governo e com um maior empenho por parte dos professores. A par disto terá que haver uma mudança na forma como se olha para o professor e dar-lhe o devido valor enquanto profissional da educação", conclui.
O desemprego: "Concorri de norte a sul do país""Estou a morar com os meus pais e são eles que continuam a suportar as minhas despesas", desabafa Alexandra Silva, de 25 anos, desempregada. Concorreu de norte a sul do país mas não conseguiu colocação. Tentou o ensino privado - entre 150 e 200 currículos enviados - mas também não teve sorte. Este é, aliás, um cenário comum a muitos dos seus colegas. "O panorama do desemprego dos recém-licenciados na área da educação é geral. Infelizmente, tenho colegas que terminaram o curso há já 2 ou 3 anos e continuam desempregados", justifica.
Alexandra não cruzou os braços e começou a dar explicações de Matemática. "Estou um pouco a fazer aquilo que sempre quis - ensinar os que precisam - e continuo a manter-me sempre a par do que se passa", explica. Quanto ao futuro, espera poder vir a dar aulas "quanto antes" e enfrentar aquele que para si é o maior desafio de qualquer professor: "Fazer com que os seus alunos queiram estar na sala de aula, queiram aprender, fiquem motivados e ganhem ambição para o futuro."
Dentro de 5-6 anos espera que haja uma revolução total do atual sistema educativo, e "que finalmente as coisas comecem a fazer sentido e se consiga fazer educação em Portugal", porque o que sente neste momento é bem diferente. "Sinto que em Portugal estamos a deseducar", desabafa.
O início: "Não me vejo a fazer mais nada"
Silvia tem 30 anos e é professora há sete. Há pouco mais de um ano criou um blogue (aprofessorinha.blogspot.com) onde desabafa e se identifica como a professorinha. Não quer dar a cara ou identificar a escola onde leciona. "Muitas vezes o anonimato é a única coisa que me leva a desabafar metade do que desabafo no meu blogue. Se se soubesse onde leciono, de certeza não revelaria tanto".
Já esteve desempregada várias vezes, uma das quais durante um ano letivo inteiro. Atualmente dá aulas ao 7.º e 8.º anos. Saber que poderia ter alguma influência no futuro dos alunos atraiu-a e garante que dentro da sala de aula se sente "como peixe na água". Ainda assim, face à situação dos professores hoje em dia, afirma que se está "num beco sem saída". "A Ministra encurralou-nos de tal forma que a única coisa que podemos fazer é aceitar as medidas insultuosas que ela nos impõe sob pena de ver a opinião pública ainda mais contra nós do que já está", explica.
O balanço que faz da educação em Portugal também não é o melhor. "Estamos a formar os analfabetos técnicos que amanhã vão formar a nossa sociedade. E todas as medidas que estão a ser implantadas só estão a contribuir para agravar a situação. Há pessoas a mexer na educação que nunca tiveram contacto com professores ou com alunos e isso é um erro colossal!", alerta.
Com deslocações diárias de hora e meia, demasiado trabalho para fazer em casa e muitas saídas tardias da escola devido a reuniões, Sílvia confessa que anda cansada. Mas segue em frente e não para. "Inscrevi-me num mestrado em Administração Escolar. Tenho o sonho de poder pertencer ao um conselho executivo para tentar mudar alguma coisa...", confessa.
Professora de Matemática na Escola Secundária com 3.º ciclo D. Dinis, em Coimbra, e uma das docentes distinguidas com o prémio Pitágoras, Rosa Canelas, de 55 anos, garante gostar do que faz e nunca se ter arrependido da sua escolha. Já lá vão 33 anos. "Não penso parar antes de a cabeça me atraiçoar. Não desisto de tentar que os meus alunos tenham um futuro melhor", explica.
O facto de haver alunos que não querem aprender é, no seu entender, o maior problema para os professores. Mas não é o único. "A maneira como a sociedade despreza o conhecimento e o baixo nível de escolarização dos cidadãos, muitos deles pais dos nossos alunos, dificulta muito o trabalho dos professores", afirma. A isto junta-se uma "sociedade que parece querer mostrar aos jovens que sem estudar se pode atingir quase tudo" e a "falta de interesse de muitos pais pela vida escolar dos filhos".
Face a tudo isto reconhece que "ser professor é cada vez mais exigente", sublinhando que neste campo não se pode falhar. "Qualquer falha pode ser o arruinar do futuro de um jovem", justifica.
Opinião semelhante tem António Castelo Gama. "É muito difícil, sobretudo para os professores que se preocupam com as aprendizagens dos alunos e pretendem contribuir para que os seus alunos venham a ser no futuro cidadãos bem-formados e responsáveis", afirma o docente, já com 31 anos de carreira.
Lamenta que sejam poucas as famílias que cultivam nos seus jovens a ideia de que o verdadeiro sucesso se atinge com esforço e critica o discurso oficial. "Seria necessário que os responsáveis pela educação "puxassem as orelhas" a quem não cumpre e incentivassem os alunos para o trabalho de qualidade, desenvolvendo a ideia de que só com trabalho e esforço pessoais se atingem as metas que nos fazem considerar pessoas realizadas", conclui.
Nos últimos dois anos, nos períodos de maior cansaço, António confessa que já pensou algumas vezes na reforma mas só "na condição de poder continuar a colaborar no desenvolvimento de alguns projetos em que estou envolvido", esclarece. Até porque, garante, "nunca me arrependi de ter iniciado este percurso".
A reforma: "Não é uma profissão fácil"Ana Caldeira decidiu reformar-se há dois anos por questões de saúde. A decisão não foi fácil. "Gosto muito de ensinar e tenho saudades das crianças. Para mim ensinar é brincar. Muitas vezes fui condenada por isso mas acho que tive êxito", argumenta. Deu aulas no antigo ensino primário, maioritariamente ao 4.º ano, a turmas de repetentes, com percursos alternativos. É notória a paixão com que fala do seu percurso e por isso mesmo confessa que está a tentar fazer algo na área do voluntariado.
Porque a atual situação dos professores não é fácil, Ana, de 56 anos, recomenda aos que começam agora muita coragem, amor, calma e paciência. "É muito difícil. Tenho muita pena dos meus colegas. Há muitas exigências e regras, o número de crianças por turma é excessivo porque são mais instáveis e precisam de mais atenção, e as aulas já não lhes dizem nada", justifica.
Para Maria do Rosário Soares, de 58 anos, a decisão de passar à reforma foi fácil. Deu aulas ao 2.º ciclo do Ensino Básico e ao Secundário: Geografia e Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social. Só guarda boas memórias das aulas e da escola mas, cumprido o tempo necessário, não hesitou e veio para casa. Agora tem tempo. Passeia, lê, está com a família...
Para aqueles que ingressam agora na profissão não sabe que conselhos dar. Mas lá vai dizendo que esta "não é uma profissão fácil" e que para se ser professor é preciso ter gosto. "Não podem ver esta profissão como um remédio...", desabafa. E depois, estando cá, é preciso "lutar e exigir condições".
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