Cyberbullying: fenómeno sem rosto

A tecnologia começa a ser usada para ameaçar, humilhar ou intimidar. Os técnicos defendem ações de sensibilização para esta nova realidade, que ainda é pouco abordada dentro de casa e da escola.
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O termo é recente e ainda não entrou definitivamente no vocabulário português. Bullying como atos premeditados e repetidos de violência física ou psicológica, praticados para intimidar ou agredir alguém, começa lentamente a entrar nos ouvidos da opinião pública. Cyberbullying permanece na penumbra, num território que só é desvendado quando se pesquisa sobre a matéria ou quando essa prática bate à porta. No cyberbullying recorre-se à tecnologia para ameaçar, humilhar ou intimidar alguém através da multiplicidade de ferramentas da nova era digital. Redes sociais da Internet, sites de partilha de fotos, imagens de telemóvel, gravações MP3, têm servido para desvirtuar a realidade pondo em causa a intimidade e a reputação. Em Portugal, também há jovens que são vítimas de cyberbullying. Vivem aterrorizados que os colegas da escola descubram as mentiras fabricadas, têm medo de contar o que estão a viver. E, na maioria dos casos, o agressor esconde-se sob a capa do anonimato.

Os casos são reais e foram relatadas por quem recebeu os pedidos de ajuda ou recolhidos na comunicação social. Uma jovem de 16 anos com largas centenas de contactos no Hi5 foi, de repente, confrontada com constantes telefonemas. Veio a descobrir que as suas fotos se mantinham intactas, só que acompanhadas de mensagens descontextualizadas de cariz sexual. Os textos terminavam com o seu número de telemóvel. A jovem vivia aterrorizada que os colegas da escola descobrissem esse falso perfil, tratado por alguém que desconhecia, mas que tinha acesso ao seu contacto pessoal. Um fórum pornográfico foi utilizado por um aluno para fazer comentários insultuosos a uma professora. A docente viu a terra fugir-lhe debaixo dos pés. Vivia com medo que os seus alunos e colegas de profissão deparassem com as informações totalmente deturpadas sobre si. Outra jovem vítima de cyberbullying: o ex-namorado que não aceitava o fim da relação mudou-lhe a password de acesso ao Hi5, modificou todo o perfil da página, deturpou a orientação sexual, fez montagens das fotos, colocou o número de telefone de casa, enviou mensagens difamatórias a todos os contactos do seu e-mail.

"Se só agora Portugal começa a despertar para as questões do bullying, em relação ao cyberbullying está mais atrasado", adianta Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net que promove a utilização segura e responsável das tecnologias da informação e comunicação por crianças e jovens. "Não há muito a noção de que as ações e interações que se verificam nos pátios e corredores das escolas estão também a configurar-se na Internet". Mas enquanto no mundo real é mais fácil identificar o agressor, no cyberbullying o caso muda de figura, o que dificulta todo o processo. "Quando colocamos uma fotografia na Internet, e em particular numa rede social, perdemos o controlo sobre essa fotografia. Qualquer pessoa pode fazer uma cópia", alerta.

Tito de Morais chama a atenção para um fator. "Muitas vezes, os pais têm dificuldade em diferenciar o que é uma brincadeira de mau gosto ou agressão do que é um comportamento de bullying. E há um elemento que pode ajudar: o bullying caracteriza-se por uma ação repetitiva". Na Internet, esta realidade tem um aspeto particular. Desde que uma imagem ou mensagem seja visionada por terceiros, o fator repetição é imediatamente assumido. "E a criança é vítima de troça, de humilhações, porque há outras crianças que viram." Para o especialista, os pais precisam de estar de olhos bem abertos para que "compreendam a utilização que os filhos fazem da Internet". "Normalmente, as crianças são vistas como vítimas e não como agressores, mas é importante ter a noção de que podem assumir estes dois papéis." Seja como for, as vítimas de cyberbullying "sofrem em silêncio". "Aconteça o que acontecer em resultado da utilização da Internet, os pais têm de deixar claro aos filhos que sempre que haja situações que os incomodem e que os deixem desconfortáveis, devem ir ter com eles". Este ambiente de confiança é fundamental.

A psicóloga Sílvia João, que estuda a área dos media e a relação das crianças com a imagem, salienta que o cyberbullying mexe com o sentimento de segurança e os níveis de ansiedade quando objetos pessoais, como o telemóvel ou o computador, são utilizados para ameaçar ou intimidar. Esta sensação de não controlo dos meios com que se lida diariamente pode ter sérias repercussões psicológicas e emocionais. "Há intrusão e violência interna do espaço íntimo", sublinha. Na sua opinião, o perigo surge quando não se desabafa com os pais e educadores, "quando o adolescente não consegue pedir ajuda". "São vítimas e não querem dizer aos pais" em idades em que estão "a aprender o que é a sua intimidade, em termos de sexualidade, ideologias, valores". E há aqui uma dualidade entre a "vontade de se afirmar e a culpabilidade". "É vítima mas pode não conseguir entender que tem de pedir ajuda."

"É um fenómeno sem rosto". E, por isso, torna-se complicado ir à origem, chegar ao agressor. Sílvia João defende que os adolescentes devem estar informados sobre o cyberbullying. "É necessário explicar-lhes o que é ser vítima de um fenómeno desta natureza." Em seu entender, devem ser feitas ações de prevenção e sensibilização "aproveitando o contexto de instituições formais" como, por exemplo, as escolas. E há ainda a intervenção, os pedidos de ajuda que podem ser feitos a vários especialistas da área da Psicologia, da Saúde Mental e das Ciências da Educação, entre outras. A psicóloga destaca ainda alguns cuidados que têm o seu significado. "Até aos seis anos, é importante proteger as crianças do contacto com as imagens da televisão e da Internet porque ainda não têm a noção da diferença entre a ficção e a realidade. Não têm o filtro para perceberem o que é perigoso e o que não é, o que a afeta e não afeta." Mais tarde, na adolescência, há a ânsia de procurar o fruto proibido. "Os adolescente começam a procurar o que não podiam ver." E fazem-no às escondidas dos mais velhos.

Medo do ridículo, de represálias
A psicóloga Margarida Gaspar de Matos garante que o assunto necessita de "muita atenção e estudo". "Os adolescentes, contrariamente à imagem por vezes divulgada, são comunicativos. Têm é muitas vezes dificuldade em falar com pessoas do seu universo relacional `real', em parte porque os adultos ouvem pouco e aconselham de mais, em parte porque há assuntos sensíveis que todos nós temos dificuldade em dizer a nós próprios, quanto mais aos outros", sublinha a docente da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. "Assim, a net aparece como o terapeuta ou amigo sempre aceitante, sempre presente, sempre disponível, enfim o amigo ideal, o amigo quase impossível, ou pelos menos improvável." Só que há fatores que potenciam o cyberbullying. "Por trás deste anonimato, que permite a cada um forjar a imagem que quiser, é fácil alguém passar pelo amigo e confidente e desaparecer, passar por amigo e confidente e usar informações ou imagens privadas para perseguir, passar por amigo e confidente e depois ameaçar, ou até passar diretamente para a ameaça sem a fase da vinculação", refere. E acrescenta: "Os adolescentes vinculam-se e depois ficam num processo de luto ou de medo e sozinhos porque não sabem com quem falar. Por medo de represálias, por medo de serem repreendidos, por medo do ridículo." E há consequências. "O mau-estar pessoal e social associado a este fenómeno é considerável, chegando mesmo a ocasionar problemas de saúde física e mental e em casos extremos violência chegando ao suicídio", aponta.

A psicóloga adianta que o fenómeno do bullying em meio escolar tem vindo a diminuir desde 2002. "Penso que pela atenção que se tem dado ao assunto e pelas novas medidas em meio escolar." "O cyberbullying aparece como um sinal dos tempos. Cada vez mais os jovens e os menos jovens passam horas ao computador na conversa e a jogar ao faz de conta. E este facto tem já contornos de grande mudança no âmbito das relações interpessoais e práticas de lazer." A técnica analisa a mudança. "Este facto em si não é negativo e permite até o desenvolvimento de laços sociais em pessoas isoladas por motivos pessoais ou geográficos, por exemplo. O problema é quando a ligação à Internet se torna uma dependência que limita e estreita o âmbito da vida das pessoas ou quando no novo mundo social virtual alguns, menos atentos ou mais vulneráveis, se tornam vítimas incautas de processos persecutórios que agora nos aparecem no âmbito do cyberbullying", realça. Margarida Matos considera que é necessário dar atenção a esta nova realidade. "O fenómeno ainda não está muito bem estudado na sua dinâmica e amplitude. E o que é grave é que quem está mais em risco de ser seriamente afetado acumula em geral este risco com outros fatores de risco potencial: menor ligação à escola, menor ligação à família, grupo de pares mais consentâneo com estas práticas", refere.

Relação alunos e professores
O estudo "Violência na escola: vítimas, provocadores e outros", realizado em setembro de 2001, que analisou o comportamento dos jovens em idade escolar para compreender os estilos de vida e hábitos ligados à saúde e ao risco, deixou algumas pistas. "Da totalidade dos jovens, 25,7% (1751) revelaram estar envolvidos em comportamentos de violência na escola, ou como vítimas (alvos de provocação), ou como provocadores (agentes da provocação) ou duplamente envolvidos (simultaneamente vítimas e provocadores), mais do que duas vezes no período letivo", concluem Margarida Gaspar de Matos e Susana Fonseca Carvalhosa, as autoras da investigação feita no âmbito do Projeto Aventura Social e Saúde. A pesquisa foi feita junto de 6903 jovens do 6.º, 8.º e 10.º anos de escolaridade de escolas de todo o país, através de um questionário. Os dados revelam que "os rapazes envolvem-se mais em atos de violência na escola, quer como provocadores, quer como vítimas, quer com duplo envolvimento. Este envolvimento em atos de violência parece ter um pico aos 13 anos, embora os mais novos (11 anos) se envolvam mais, enquanto vítimas". As autoras concluem ainda que "os jovens que se envolvem em atos de violência referem mais frequentemente ver televisão quatro ou mais horas por dia".

O mesmo estudo analisa, por outro lado, a provocação e a relação dos alunos com os professores. Os jovens que consideravam que os professores não os encorajavam a expressar os seus pontos de vista estavam frequentemente mais envolvidos em comportamentos de provocação. Os que referiam que os docentes não os tratavam com justiça estavam mais envolvidos em comportamentos de provocação, como vítimas e provocadores. Os que responderam que os professores não os ajudavam quando era preciso, e que não se interessavam por eles como pessoas, envolviam-se mais como vítimas e provocadores e simultaneamente nos dois papéis.

Campanhas para entender sinais
A Associação Nacional de Professores (ANP) prepara-se para lançar uma linha de apoio a casos de bullying, onde se integrará o cyberbullying. João Grancho, presidente da ANP, adianta que neste momento estão a ser trabalhados protocolos de colaboração com entidades nacionais e internacionais para que esse número entre em funcionamento até ao final deste mês. O responsável revela ainda que esta ajuda pretende atuar a três níveis ao envolver professores, pais e alunos. "Este fenómeno deve ser visto de uma forma integrada e articulada", defende Grancho.

Entretanto, a Associação de Mulheres Contra a Violência iniciou no mês passado a campanha "Stop Bullying" em vários suportes mediáticos, lançando também uma linha de apoio através do 21 3802162. Paralelamente, está a ser distribuído material que aborda o tema do bullying direcionado para as escolas e pais. Os panfletos destacam alguns sinais do bullying, procedimentos de intervenção, mitos e realidades. Esses desdobráveis salientam que uma vítima de bullying pode não ter vontade de ir para a escola, isolar-se, começar a gaguejar, mostrar angústia, deixar de comer, tornar-se agressiva, ter pesadelos.

No mês passado, o Governo lançou o Projeto Dadus que pretende sensibilizar os alunos do 2.º e 3.º ciclos para os problemas relativos à proteção de dados e à privacidade na utilização das novas tecnologias. Chamar a atenção para o uso consciente das novas ferramentas digitais e desenvolver a consciência cívica dos jovens são também objetivos desta iniciativa.
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