Professores a favor da educação sexual

Num estudo realizado junto dos professores do Norte do País concluiu-se que os professores são favoráveis à promoção da educação sexual no ensino. Contudo, há falhas ao nível da formação de base e uma aposta redutora no modelo preventivo.
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Noventa e quatro por cento dos professores do Norte do país concordam com a promoção da educação Sexual em contexto escolar, mais de metade (62,6%) consideram que deve ser iniciada logo no 1.º ciclo. Além disso, manifestam um razoável grau de conhecimento, conforto e disponibilidade para abordar estes temas nas aulas. As conclusões constam de um estudo conjunto de três investigadores da Escola Superior de Educação do Porto (Carla Serrão), da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (Maria Adelina Barbosa-Ducharne) e do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa (Duarte Vilar).

O estudo, a que o EDUCARE.PT teve acesso, foi realizado entre fevereiro e março de 2006 com uma amostra de 286 professores (do 1.º ciclo ao Ensino Secundário), de 93 escolas da Zona Norte. Os resultados obtidos são tão otimistas e contrastam tão nitidamente com a prática das unidades de ensino, que os investigadores questionam: "Por que motivo é que, perante tal cenário, os professores não se envolvem em ações de educação sexual? E por que razão não fazem educação sexual em meio escolar?". Por enquanto, os dados apenas espelham as opiniões dos professores em relação à educação sexual na escola. O próximo passo, segundo adiantou Carla Serrão, será a realização de "entrevistas focais com o objetivo de analisar as razões do não envolvimento [dos professores]".

Envolvimento dos pais é decisivo
A investigação acaba por ir ao encontro de outros trabalhos na área, confirmando a perceção positiva dos professores relativamente à introdução da educação sexual nos currículos. O que só contribui para aumentar o grau de perplexidade no que diz respeito às diferenças entre o discurso e a ação concreta. Tanto mais que o atual enquadramento legal determina a obrigatoriedade da educação sexual.

Embora não aprofundem esta aparente contradição, os resultados obtidos dão algumas pistas sobre as possíveis causas. Por exemplo, os professores elegeram a reação dos pais em relação à abordagem dos temas específicos como o principal obstáculo ao ensino da educação sexual. De resto, assumem mesmo que a educação sexual só pode ter sucesso com uma participação ativa dos encarregados de educação. Outro dado: conclui-se que o nível de conforto dos alunos e a reação destes aos temas propostos são fatores determinantes na disponibilidade dos professores para tratar os assuntos relacionados com a sexualidade.

Não obstante estas condicionantes, os professores expressam, em termos globais, uma perceção alta acerca das três variáveis em análise. Consideram que têm muito conhecimento para abordar temas como o nome correto dos órgãos genitais, a imagem corporal, a menstruação, a reprodução e nascimento e métodos contracetivos, assim como práticas de sexo seguro. Quanto ao conforto, "verifica-se que em todos os temas/áreas, excetuando a pornografia, os professores sentem possuir bastante conforto para a sua abordagem", constata o estudo. Os professores só põem algumas reservas ao tratamento de assuntos como sonhos molhados, abstinência sexual, masturbação, prazer sexual e orgasmo. "Ou seja, quando os temas/assuntos estão relacionados com o sexo, verifica-se, por parte dos professores, um menor grau de disponibilidade para falar com os alunos", referem os investigadores.

Défice de formação
Os inquéritos foram aplicados a um grupo de docentes com mais de vinte anos de serviço (31,5%), sendo que uma considerável parte deles (36,7%) têm entre 30 e 39 anos. Excetuando pequenas nuances (como o sexo dos inquiridos), o estudo não denota grandes oscilações nos professores que constituíram a amostra. A investigação ressalta, isso sim, diferenças entre os docentes que fizeram ou não formação contínua em educação sexual. Concluiu-se, assim, que "há diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, quer ao nível do conhecimento, quer do conforto e disponibilidade, sendo o grupo que fez formação contínua o que apresenta médias mais elevadas nas três variáveis". Daí que Carla Serrão defenda que "a formação da sexualidade deva ser enquadrada tanto na formação inicial dos professores como também na formação contínua".

A falha na formação será um dos fatores determinantes para uma inversão nas práticas. Na verdade, o número de professores com uma componente de educação sexual na formação inicial chega a ser incipiente, fixando-se apenas nos 14,7%. E, na maioria dos casos, numa perspetiva quase exclusivamente biológica da sexualidade. Se a formação inicial é deficitária, não o é menos a percentagem de docentes que participaram em ações de formação contínua. Oitenta e oito por cento dos inquiridos não frequentaram qualquer tipo de curso de formação em educação sexual. Para lá deste aspeto, os investigadores apontam uma outra mudança nas políticas educativas, sugerindo uma revisão curricular no 1.º ciclo, de forma a incluir nos conteúdos programáticos um leque de temas de educação sexual.

Mas não é só no sistema educativo que há necessidade de mudança. Ao analisar os resultados, o grupo detetou a predominância do modelo preventivo no ensino da Educação Sexual. Isto é, um tipo de ensino estritamente relacionado com os problemas e as doenças, nomeadamente, a gravidez indesejada ou as doenças sexualmente transmissíveis. Como afirmam os investigadores, "este modelo, embora de utilidade irrefutável, não contempla as componentes relacionais e emocionais da sexualidade e não favorece o tratamento positivo do tema e da abordagem de matérias pertinentes e que constiuem focos de inquietação para os adolescentes e jovens". Para os professores, o modelo preventivo é o reduto onde não entram, afinal, os valores, éticas e comportamentos associados a uma educação sexual humanista.
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