A magia dos livros

Um livro infantil não é apenas um livro destinado às crianças. Para quem os escreve, como para quem os lê, é muito mais do que isso. A propósito do Dia Internacional do Livro Infantil, que se comemora no próximo dia 2 de abril, o EDUCARE.PT falou com alguns autores.
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«Um livro nunca é apenas um livro, é um amigo, um confidente, uma aventura ou uma viagem», refere Rute Gil, coordenadora de uma coleção de livros infanto-juvenis, cujo primeiro volume será lançado no final do mês de abril.

Por isso mesmo, e apesar dos muitos apelos que inundam as crianças no dia a dia, acredita que os livros infantis continuam a manter o seu espaço, até porque «as edições têm conseguido acompanhar os desenvolvimentos tecnológicos e existem cada vez mais livros interativos». Além disso, por muitas solicitações que uma criança receba, Rute Gil entende que «o livro tem - e se não tem, deveria ter - um significado diferente».

A presença do livro no quotidiano de uma criança é fundamental porque incentiva hábitos de leitura, além de ser uma atividade recreativa, um exercício de liberdade de escolha e uma diversão. Ler histórias aos mais pequenos pode ser uma ajuda importante, porque o livro ganha outra vida com a voz. «Podem fazer-se brincadeiras, mudar tonalidades, registos, e isso é, sem dúvida, um acréscimo a esta experiência», defende.

Mas se todos podem ler histórias, no que toca a escrever para crianças nem toda a gente nasce com essa vocação. A escritora Luísa Dacosta afirma sem hesitações que «é uma escrita difícil». Dada a sua experiência com livros e temas para adultos, chegou mesmo a duvidar que fosse capaz de o fazer. Mas o enraizamento na sua própria infância, «quando não se tinha nada e tinham-se de inventar todos os brinquedos», e o contacto com os mais pequenos facilitaram a sua entrada neste mundo, onde permanece desde 1972.

Luísa Dacosta só acredita em «livros literários baseados em tradições ou literatura com qualidade» e defende que têm de ir «além da comunicação», uma vez que têm como função «humanizar as crianças e levá-las ao outro». Por isso mesmo, atribui aos livros para a infância «uma grande responsabilidade». A leitura dá aos mais novos aquilo que considera ser uma segunda placenta. «Podem viver coisas terríveis mas ainda não são a sério, o que os ajuda a prepararem-se para o mundo que irão encontrar», explica.

O gosto pela leitura deve cultivar-se desde muito cedo. «Na escola já é tarde para fazer leitores», alerta a autora.

Também Alice Vieira, autora de diversos livros infantis e juvenis, entende que ler histórias aos mais novos é um processo fundamental que deve começar o mais cedo possível, para captar os leitores.

Destinados a proporcionar prazer e entretenimento à criança, as cores, letras, imagens ou até o cheiro dos mais diversos livros infantis apelam aos principais sentidos que importa estimular na infância, contribuindo ao mesmo tempo para o desenvolvimento da competência literária e de leitura dos mais novos. Além disso, Alice Vieira defende que as histórias e personagens que levam ao sonho e ao imaginário ajudam «as crianças a tornarem-se adultos».

José António Gomes, professor de Literatura para a Infância na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, partilha da mesma opinião. «Conquistar a simplicidade (não o simplismo) e a comunicabilidade, sem perder no aspeto da profundidade dos conteúdos, exige talento e aprendizagem do ofício», sublinha.

Considera o livro infantil o instrumento mais adequado para introduzir a criança no universo da literatura e da arte e também para a conquistar para a leitura. Além disso, a «abertura ao outro» - através da educação da sensibilidade, do gosto, da abertura para outras culturas e realidades - é uma das características que tornam o livro infantil cada vez mais imprescindível.

Apesar de ainda se ler pouco em Portugal, José António Gomes defende que «há muitas crianças que leem por gosto e que aprendem a melhorar as suas competências de leitura e de comunicação através do livro, estruturando, também, melhor o seu pensamento». Salienta ainda que as crianças aprendem «a ser mais solidárias e menos egocêntricas graças ao convívio com as personagens dos livros».

E este convívio só é possível se existir um talento especial e «uma empatia natural com as crianças» por parte do autor, afirma a escritora Ana Maria Magalhães. Como textos e imagens se complementam, a autora sublinha a importância na escolha do ilustrador, que deverá também «conseguir captar as crianças e provocar o encantamento».

E não se pense que a televisão, os computadores, a Internet ou as consolas vêm tirar espaço aos livros infantis. Ana Maria Magalhães acredita que «há horas para tudo» e defende que os livros infantis têm o seu próprio espaço assegurado. «Há cada vez uma maior aposta das famílias e das escolas em estimular a leitura», afirma. Ler histórias aos mais pequenos pode ser o primeiro estímulo, além de que permite também a criação de um espaço de intimidade entre os adultos e a criança.

O Dia Internacional do Livro Infantil assinala-se no próximo dia 2 de abril. A Biblioteca de Beja apresenta a este propósito uma exposição de originais de ilustração de João Caetano, bem como oficinas de expressões, rodas de leitura e sessões de contos. Em Loures, as comemorações prolongam-se durante duas semanas, estando previsto, no dia 14, um espetáculo de marionetas a partir da obra "O Tesouro", de Manuel António Pina, e uma apresentação do livro "Maldita Matemática", de Álvaro Magalhães.

Na Quinta Pedagógica, em Lisboa, durante todo o mês de abril os visitantes poderão participar no preenchimento de um livro em branco com frases e desenhos originais.
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