Ministro não abre o jogo sobre descongelamento das carreiras

Tiago Brandão Rodrigues afirma que é preciso conciliar ritmos com meios financeiros e que é necessário cumprir o programa do Governo. Numa entrevista ao DN e TSF, adianta que a revisão da avaliação dos professores não está em análise. E faz críticas à anterior tutela.
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Como vai contar o cronómetro, senhor ministro, para o descongelamento das carreiras dos professores? O cronómetro começa a contar em 1 de janeiro de 2018, isso é certo, mas a contagem do tempo congelado - nove anos, quatro meses e dois dias, nas contas dos sindicatos - e a forma como esse tempo será resposto continuam por definir. As negociações entre o Ministério da Educação (ME) e as estruturas sindicais da área da Educação são retomadas esta sexta-feira, dia 15.

Há um compromisso assinado por várias entidades e que será a base do processo negocial. O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, faz um aviso à navegação. “(…) temos de conciliar ritmos, temos de conciliar, acima de tudo, a carta magna que temos e que é o nosso documento de trabalho, que é o programa do Governo que estamos obrigados a cumprir e, por outro lado, os meios existentes. Isso obriga-nos também a pensar sobre o que é uma legislatura. Uma legislatura passa relativamente depressa”, refere na entrevista dada ao DN e TSF.

A disponibilidade orçamental será então a bitola do descongelamento das carreiras. O ministro, que na greve nacional das escolas, em 15 de novembro, estava no hospital devido a uma síndrome vestibular aguda, fala num processo demorado, mas não revela a forma como o descongelamento das carreiras dos docentes será feita, quantos anos serão contabilizados. “A questão é saber que no dia 1 de janeiro de 2018 todos os professores, todos os docentes que são aproximadamente 100 000, vão ver o cronómetro, como disse o senhor primeiro-ministro, a voltar a contar. No dia 2 de janeiro de 2018, todos os docentes terão mais um dia contabilizado nas suas carreiras”.

“Todos sabemos que esta é uma questão complexa, senão teria sido imediatamente resolvida, sabemos que não é possível resolvê-la imediatamente, sabemos que existem balizas, que existem compromissos também e existem compromissos que também vão muito além de 2018, financeiros, orçamentais, questões importantes e restrições também elas relevantes”, sublinhou.

Os cofres públicos não esticam, lembrou o ministro na entrevista, e há opções que têm de ser tomadas e que naturalmente terão consequências. O que é certo, neste momento, é que as carreiras dos docentes serão descongeladas no início de 2018 e o ministro acredita que os professores estão satisfeitos neste ponto. “(…) na passagem da meia-noite do dia 1 de janeiro de 2018 para o dia 2 de janeiro de 2018, eles vão ter mais um dia contabilizado e, quando passar da meia-noite do dia 2 para o dia 3 de janeiro já terão mais dois dias”, reforçou.

Erro de casting?
Rever as bases das carreiras dos professores ou mexer na avaliação dos professores não estão, pelo menos para já, nos planos do ME. “Sabemos que a carreira dos professores existe, sabemos o que ela implica, sabemos também os passos que cada um dos professores dá para lá chegar e para ir subindo na sua carreira profissional”, referiu. “(…) não vai ser o Ministério da Educação que vai impedir que a carreira dos docentes possa não ser mudada de todo, mas, como disse, essa é uma negociação e isso acontecerá se efetivamente as partes entenderem que tal é necessário para dar passos em determinada direção”, referiu.  

Até à greve nacional das escolas, em 15 de novembro, não se sentiu muita agitação em torno dos assuntos educativos. Os sindicatos estiveram atentos, houve várias críticas, pedidos de reuniões, temas menos consensuais. O descongelamento das carreiras, e concretamente o tempo que irá ser contabilizado, fez estalar o verniz. E o ministro confessa que estranhou algumas coisas. “Foi muito estranho o que aconteceu nesta cronologia de 15 dias, em determinado momento o Ministério da Educação não ouvia os professores e, por isso, a Direita dizia que nós não ouvíamos os professores e, em determinado momento, nós ouvimos os professores e parece que cedemos tudo aos professores. Há aqui um pingue-pongue de não entendimento do que é que querem verdadeiramente”, comentou.

Tiago Brandão Rodrigues garante que o Ministério que lidera tem ouvidos sempre disponíveis para escutar e que está atento. E aproveitou a entrevista para criticar a postura do anterior Governo em matérias educativas. “Nós sabemos bem que a anterior tutela teve um discurso reiterado quase de condenação, em que os alunos eram muito preguiçosos e os docentes pareciam quase estruturalmente incompetentes. Nós não pensamos isso e acreditamos que eles, docentes, alunos, famílias, comunidades educativas alargadas, com um papel importante das autarquias, são fatores principais do processo educativo”, disse, salientando a aposta na promoção do sucesso escolar e os 12 anos de escolaridade obrigatória.

Dizer mal dos professores não se coaduna com o seu estilo, com o seu pensamento, como sustenta na entrevista. “O ministro da Educação, que tem tutela direta sobre o trabalho dos professores, sobre o trabalho das escolas, que não é o ministro dos professores, mas também é o ministro dos professores, nunca admitirá algum discurso público de demonização, diabolização relativamente aos professores como classe profissional. Não é correto fazê-lo porque há excelentes profissionais e são artífices sérios de tudo o que acontece de bom nas nossas escolas no dia a dia”.

Tiago Brandão Rodrigues fez campanha pelo PS no Alto Minho, deixou Cambridge, regressou a Portugal, foi eleito deputado do PS, e depois foi escolhido para ministro da Educação. O Governo não tem sofrido grandes remodelações, mas quando o assunto vem ao de cima, o seu nome acaba por surgir. O que se passa? “Isso é porque quem acaba por trazer esse nome está suficientemente incomodado com as minhas ações. Eu era, muito provavelmente, uma carta fora do baralho quando era candidato a deputado, era carta fora do baralho e um erro de casting no dia em que fui para o Ministério da Educação, mas acabei por ser verdadeiramente complexo quando muitas das nossas ações acabaram por cimentar, na Educação, (…) e aí o erro de casting, pelo menos para os interesses dessas pessoas, acabava por se aprofundar e por cimentar também”, respondeu ao DN e TSF. E acrescentou: “Acima de tudo, muitos dos lóbis que essas pessoas acabam por respaldar são afetados também pela ação deste Ministério da Educação, principalmente numa conceção de sociedade que não é a minha, a da minha equipa e a deste Governo, acabam por entender que eu sou um erro de casting, acima de tudo para os seus interesses.”
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