Javier Urra: "O pequeno ditador é alguém que aprendeu que pode impor a sua vontade"

Para o autor do livro O Pequeno Ditador, limites e regras são fundamentais na educação. Saber dizer não pode ser o primeiro passo para que não passem a ser os mais pequenos a mandar lá em casa.
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Javier Urra, psicólogo forense no Ministério da Justiça espanhol, já foi provedor de menores em Espanha e vê agora o seu livro transformado num verdadeiro best-seller. Em Portugal, já vendeu cerca de 20 mil exemplares e já vai na quarta edição. Em Espanha o sucesso ainda é maior, já com 180 mil livros vendidos. A razão de ser desta obra é simples - ajudar os pais a controlarem e evitarem que os seus filhos se transformem em pequenos ditadores. Talvez assim se deixem de ouvir lamentos como o que o autor lembrou: «Já não posso com o seu filho de 4 anos». Javier Urra lembra, por isso, que «um filho requer tempo, atenção, conflito e esforço» e garante que se não se fizer nada face a estes pequenos ditadores, «a situação só pode piorar».

EDUCARE.PT: De que crianças se fala quando falamos em "pequenos ditadores"?
Javier Urra:
Não falamos de crianças com falta de atenção, com hiperatividade ou de adolescentes que por qualquer motivo se chatearam com os pais. Falamos antes de uma criança que se sente bem sendo agressiva e que se sente bem conseguindo aquilo que quer, a custa de tudo e de todos. E isso tanto pode ser com uma criança de 3 ou de 18 anos. O pequeno ditador é alguém que aprendeu que pode impor a sua vontade e que entende que o outro não vale nada. Para ele é o "eu", o "para mim", o "comigo". Vê os pais como uma caixa multibanco onde vai buscar dinheiro e os professores como alguém que está ali porque os pais lhes pagam para isso. O pequeno ditador é alguém que quer que tudo gire à sua volta. O mais importante é o eu. Não és tu, não são os outros, é ele próprio. E acredita nisso, porque para ele sempre foi assim.

E.: E quem são os pais maltratados pelos filhos?
JU: São pessoas de nível económico médio, alto e muito alto. Às vezes têm um filho pequeno e noutras situações são pais com um filho único que é o "rei" da família. Oito em cada dez agressores são rapazes e a vítima é sempre a mãe. Em alguns casos o pai também é maltratado mas na maior parte dos casos a vítima é a mãe. E são famílias em que às vezes a mãe quer educar, quer que o filho tome banho, que faça as tarefas e o pai não faz nada, faz de conta que não é nada com ele...

E.: Quais são os primeiros sintomas que devem alertar os pais?
JU:
Os pais devem estar sempre atentos aos seus filhos e preocupar-se quando veem que o seu filho não é como as outras crianças e, por exemplo, se aproveita quando vão a uma grande superfície e exige que quer isto e aquilo... Os pais têm de ver como se comportam as outras crianças. Têm que falar com outros amigos para perceber como são os seus filhos. E têm que falar com os professores. Parece que os pais não se apercebem, acreditam que passará com os anos, que vai melhorar... mas não, não vai haver melhoras. A situação vai piorar se não se fizer nada.

E.: Em que é que os pais estão a falhar?
JU: Não acho que os pais sejam os culpados de tudo. Os pais têm problemas que são reflexo da sociedade em geral. Por exemplo, há uma grande pressão de consumo, muitos anúncios para que as crianças comprem. E as crianças estão sempre descontentes, querem sempre algo mais... Depois, os pais de hoje nem sempre são adultos. São jovens, sentem-se muito jovens e querem viajar e ver, mas devem lembrar-se que têm filhos e que isso tem de ser prioritário. Um filho requer tempo, atenção, conflito, esforço... Há mães que competem com as filhas, compram as mesmas roupas e sentem-se estupendas. Podem estar estupendas mas não vão competir com as filhas. Há homens da minha idade que saem com raparigas jovens. Será que está bem ou mal? Aquilo que eu pergunto é: como é que se sente o filho de 27 anos sabendo que o pai sai com uma rapariga de 28? Se lhe perguntarmos, vai dizer que não tem qualquer problema e que lhe é indiferente, mas a verdade não é essa. E temos a questão dos exemplos. É preciso dar o exemplo, é essa moral que falta ao educar. Há também uma grande pressão capitalista que faz com que se trabalhe muitas horas para se ganhar muito dinheiro. Esse é outro problema que é preciso equilibrar. E há outro que é a falta de autoridade. Os pais têm de criar normas, critérios. Não deve haver medo, mas sim disciplina e autoridade.

E.: Qual é a sua opinião da figura pai-amigo-companheiro/mãe-amiga-companheira?
JU:
Atualmente, os pais querem, e queremos, ser sempre muito bons pais. É bonito. Antes os pais não tinham uma relação próxima com os filhos, não falavam. Mas os pais são pais. Podem dizer "quero ser teu amigo", "quero, se tu me deixares". Mas os filhos têm os seus próprios amigos do mesmo modo que o pai tem os seus amigos e, seguramente, conta-lhes coisas que não conta aos filhos nem à mulher. E é assim que tem que ser. Quando acontecer alguma coisa, os pais estarão lá.

E.: Quais são as "agressões" mais comuns de que os pais são vítimas?
JU:
A primeira são as birras de raiva. Depois vem a chantagem emocional: "se não me dás isto não gostas de mim", "se não me dás isto saio de casa", desaparecer de casa sem dizer nada, trazer amigos para casa sem pedir autorização. E por fim, pode, mas não obrigatoriamente, passar para a violência física e o insulto.

E.: O que se deve fazer nessas situações?
JU:
A primeira coisa a fazer é evitar essas situações. É preciso conseguir que as coisas não cheguem aí. Educamos as crianças para serem respeitadoras, perceberem que os pais gostam delas e estão do seu lado, mas que também têm os seus direitos. Quando os pais vivem essas situações devem pedir ajuda a terceiros. Não se pode fechar estas crianças, embora sejam culpadas. Também são vítimas, porque os pais não as conseguiram educar. É preciso ensinar os pais a educarem corretamente os filhos para que em casa exista uma estrutura que funcione melhor.

E.: Como é que se gere a fronteira entre o autoritarismo e a tolerância?
JU:
É muito difícil de definir mas muito fácil de fazer... Ser tolerante, aberto, ter um critério amplo de liberdade implica que se é livre, que se tem direitos, mas também responsabilidades pelos seus atos: tens que arrumar o teu quarto, tens que dar um beijo à avó, tens que levar o prato, nunca nos gritarás ou sequer agredirás... São normas da casa e têm que ser cumpridas. Se, por exemplo, o filho sai à noite com o compromisso de voltar às 21h00, mas só regressa às 22h00, da próxima vez terá de voltar às 19h00. Uma hora de atraso, duas horas a menos na próxima saída. É uma sanção. E se ele tiver perdido o autocarro ou tiver ficado a ajudar um amigo? Então acreditamos nele e dizemos-lhe para não nos dar motivos para duvidar, porque aí as normas serão mais apertadas. Se aprenderem a ser livres, sairão quando e como querem. Não se pode tomar conta de um filho durante 30 anos, há que deixá-lo ser livre...

E.: Acha que os pais são muito permissivos?
JU:
Sim, no Ocidente, atualmente são.

E.: Devíamos ser mais duros com os jovens?
JU: Não acho que tenhamos que ser mais duros, mas sim mais exigentes em algumas coisas. Por serem jovens isso não significa que se possam impor. Sou responsável da UNICEF e faço muitas viagens para o Quénia e Nicarágua e lá as crianças sabem desde muito pequenas que têm de tomar banho, que têm de ajudar. Estão bem-educadas nesse sentido e cá não. Porquê? Os pais têm acesso a muitos livros, publicações, séries de televisão, mas ainda assim porque não funciona? Há um sentimento de culpabilidade, há pouco esforço, pouca coerência, pouca continuidade.

E.: O que é que se pode fazer quando o diálogo já não funciona com os jovens?
JU:
A primeira coisa a fazer é perguntarmo-nos porque é que não funciona. Depois é preciso falar com eles de modo a perceber o que é que não funciona: Somos nós que estamos a falhar? É ele que está a falhar? O que é que se passa? Às vezes a presença de um amigo dos pais e dos filhos, alguém que tenha influência, também é uma boa ajuda para refletir, falar, ter outras ideias e alternativas.

E.: A palmada e os castigos podem servir para algo?
JU:
Acho que a palmada serve para muito pouco. A bofetada é muito fácil mas também muito perigosa e pouco eficaz. Diz-se à criança que "isto não" mas não se deixa claro que "isto sim". A sanção e o castigo, esses sim, são necessários. Fazem parte da educação e mostram quais são as normas. Se se ultrapassar as normas, então há que sofrer uma sanção clara, imediata, coerente e proporcional. E aquilo que se impõe, cumpre-se. O castigo tem de ser cumprido.

E.: Acha que a figura do pai é fundamental?
JU:
A figura da mãe é insubstituível. A figura do pai é essencial. Pode-se educar sem um dos pais, há muitas famílias monoparentais. Mas pode uma mãe dar uma boa educação aos filhos se o pai está presente e não toma qualquer atitude, fingindo que nada é com ele? Dificilmente. O fundamental é educar em coerência.

E.: "Eu quero" ou "Compra-me" são frases comuns a muitas crianças. Como é que se deve reagir? É importante dizer não?
JU:
Os pais não devem comprar tudo o que a criança pede. Devem saber dizer "não, não temos dinheiro" ou "sim, temos, mas não vamos comprar porque não é bom que te compremos tudo". A criança pode não entender, do mesmo modo que não percebe porque é que tem de comer legumes. Mas há coisas que têm de ser feitas.

E.: Como é que se pode fazer para uma criança ser obediente desde pequenina?
JU:
Em primeiro lugar, seguindo o critério de "o que fazer?" fazendo. Ou seja, posso estar cansado mas se é preciso ir pôr a mesa levanto-me e vou. Em segundo lugar, às crianças só se deve dizer as coisas uma vez ou duas, não mais do que isso. "Levanta-te e ajuda" e se não se levantar e ajudar então castiga-se. Senão, pode-se dizer doze vezes "levanta-te" que a criança nunca se vai levantar. Temos que ser muito claros.

E.: Que adultos podem ser estes pequenos ditadores?
JU:
Não sei muito bem. Por um lado, podem ser duros e insensíveis. Por outro lado, podem ser pessoas que não querem ter filhos porque viram como foi com eles. E haverá casos em que serão muito duros com os seus filhos. Não deixarão passar nada para que os filhos não se transformem naquilo que eles foram. Em adultos pode acontecer que agridam as mulheres. É muito possível. Se antes já agrediram a sua própria mãe, quando viverem com alguém e um dia as coisas não estiverem bem abre-se a porta ao mecanismo de frustração-agressão onde levantar a mão e gritar funcionava. É possível que depois tal também aconteça.

E.: Há muitas denúncias em Espanha de filhos que maltratam os pais?
JU:
Em 2005 tivemos sete mil denúncias contra menores que agrediam os pais, entre os 14 e os 18 anos. Mas sete mil são muito menos do que a realidade porque as mães não denunciam. Quem faz a denúncia são os médicos, vizinhos... Em 2006 já houve mais de cinco mil denúncias e aí também envolviam raparigas. Acho que em Portugal o problema existe mas as pessoas não se dão conta porque está oculto. Mas quando se começa a falar, isso faz com que as pessoas contem os seus casos. É preciso um trabalho social. As pessoas devem procurar psicólogos, assistentes sociais e dizer que têm um problema. É preciso falar. Não se pode é permitir que os pais tenham medo dos filhos e se fechem à chave na sua própria casa com medos dos filhos.

E.: A violência dos jovens é um reflexo da sociedade?
JU:
Acho que os jovens de um modo geral não são violentos. Comparando com a França ou mesmo com gerações anteriores, os jovens portugueses e espanhóis não são particularmente violentos. Às vezes são desrespeitadores, não têm respeito por si mesmos, pelas normas... Há casos, por exemplo, em que os jovens se viram contra os professores e os pais põe-se do lado dos filhos em vez de estarem do lado do professores. Isso é um erro.
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