Fragilidades detetadas, mais formação para professores

Ministério da Educação quer avançar com mais iniciativas que promovam o sucesso educativo, que passam por investir na formação para docentes. Várias medidas foram anunciadas depois das dificuldades demonstradas pelos alunos nas últimas provas de aferição.
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O Ministério da Educação (ME) analisou as fragilidades dos alunos que realizaram as últimas provas de aferição, no anterior ano letivo, e decidiu apostar na formação dirigida aos professores, que terá um formato de oficinas com uma grande componente prática. E não só. A tutela quer também perceber o impacto de determinados projetos, acompanhar as escolas com piores desempenhos, criar equipas que acompanhem currículos, atualizar e reeditar materiais de apoio.

“Ninguém pode ficar tranquilo quando tem um conjunto alargado de alunos que não aprende com qualidade”, referiu o secretário de Estado da Educação, João Costa, em declarações aos jornalistas. O ME não quer esperar muito tempo para agir e, nesse sentido, vai elaborar um estudo sobre o impacto dos projetos dirigidos ao desenvolvimento da leitura e da escrita no 2.º e 8.º anos, alargar a formação de professores do 1.º Ciclo, atualizar e reeditar materiais produzidos pelo Programa Nacional do Ensino do Português.

Na Matemática, no 2.º e 5.º anos, a tutela quer acompanhar escolas com desempenhos mais frágeis, alargar a formação dos professores do 1.º Ciclo, criar uma equipa de acompanhamento do currículo nesta área, bem como atualizar e reeditar materiais de apoio. A elaboração desses materiais será feita em colaboração com as universidades e escolas as superiores. Nas expressões artísticas, no 2.º ano, o Programa de Educação Estética e Artística será alargado, nomeadamente na sua vertente de formação docente na área da educação artística, além do desenvolvimento de projetos de parceria entre o ME e o Ministério da Cultura, como o alargamento do projeto-piloto “Residências Artísticas”.

Os resultados das provas de aferição do 5.º e do 8.º anos mostram que os alunos estão com dificuldades nas áreas de Ciências Naturais e Físico-Química, Matemática e Ciências Naturais, e revelam que os do 2.º ano têm problemas na gramática e na escrita. Em História e Geografia de Portugal, no 5.º ano, os resultados revelam a necessidade de monitorizar as aprendizagens essenciais. No que se refere às Ciências Naturais, no 5.º ano, e Ciências Naturais e Físico-Química, no 8.º ano, o ME anuncia o reinvestimento no ensino experimental, nomeadamente através dos Clubes Ciência Viva.

“Tal como as escolas não embandeiraram em arco com os excelentes resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), conseguido pelos alunos portugueses (graças ao excelente trabalho efetuado pelos professores), não podemos ficar cabisbaixos com os resultados das provas de aferição”, refere Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDE), ao EDUCARE.PT. Por outras palavras, na Educação nunca se deve ter uma atitude bipolar, na sua perspetiva. O que não significa ficar indiferente.

Filinto Lima adianta que os conselhos de turmas, sobretudo os professores das disciplinas que estiveram à prova nos testes de aferição, já delinearam estratégias para superar os constrangimentos e ultrapassar as dificuldades detetadas. E, na sua opinião, ainda há tempo para resolver o que está menos bem, tendo em conta que está a meio do ciclo respetivo. As medidas anunciadas pelo ME são importantes, em seu entender, como um apoio mais personalizado a escolas com desempenhos mais frágeis, e espera que a formação anunciada abranja todos os professores, independentemente da disciplina que lecionam. “Ainda estamos em tempo”, refere.

“Atuar sobre atuais programas”

Há um ponto que chama a atenção de Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), nas medidas anunciadas pelo ME. A criação de uma equipa de acompanhamento do currículo na área da Matemática é bem-vinda e é uma antiga aspiração da APM. “É o que temos vindo a pedir, que se monitorize e acompanhe o que está a acontecer”, refere ao EDUCARE.PT. Por outro lado, na sua opinião, os resultados das provas de aferição não podem ser analisados de forma desagregada. “Não é o único indicador de que as coisas não estão a correr bem nas escolas com a aprendizagem da Matemática”. “Esta não é a verdade toda do sistema. É necessário cruzar com outros dados, com outros indicadores, com a avaliação interna dos alunos no final do ano”, acrescenta.

A APM tem vindo a referir que os atuais programas da disciplina são desadequados, e os resultados das provas de aferição acabam por demonstrar fragilidades, como no caso do 5.º ano, em que uma significativa percentagem de alunos revelou muitas dificuldades ou praticamente não respondeu nos quatro domínios do teste. “São dados preocupantes sobretudo quando se estava, com muito esforço, a melhorar o desempenho a Matemática”, observa Lurdes Figueiral, adiantando que há uma perceção empírica que os desempenhos na disciplina têm vindo a piorar. Por isso, a necessidade de, sublinha, “atuar sobre os atuais programas”.

A APM espera agora que as medidas anunciadas pela tutela não fiquem no papel e sejam aplicadas rapidamente. A presidente da associação faz, no entanto, várias observações. A formação contínua dos professores é fundamental, “mas não com o pressuposto de que a culpa é dos professores, mas que os professores precisam, em todas as situações, de formação contínua”. Lurdes Figueiral espera que o modelo de formação que foi suspenso seja retomado e rejeita formações à distância, defendendo formações no terreno e com acompanhamento. Além disso, na sua perspetiva, também é preciso não esquecer as condições de trabalho, perceber que um professor com turmas muito grandes e um horário cheio de momentos burocráticos não consegue dar o seu melhor. “Com turmas com muitos alunos e com muita burocracia para tratar, os professores ficam sem tempo para refletirem sobre o seu trabalho, refletirem em equipa, para perceberem verdadeiramente quais são as capacidades e fragilidades dos alunos”, afirma.   

Dificuldades na gramática e na escrita
Mais de 80% dos alunos que fizeram a prova de aferição de Ciências Naturais e Físico-Química revelaram dificuldades nas respostas ou não conseguiram dar uma resposta apropriada. Esta dificuldade é visível em todas as áreas avaliadas, com exceção da análise e interpretação de situações experimentais. No 5.º ano, 50% dos alunos tiveram dificuldades na produção das suas respostas ou não conseguiram responder de acordo com o esperado na prova de História e Geografia de Portugal e na de Matemática e Ciências Naturais.

A disciplina de Ciências Naturais e Físico-Química do 8.º ano, tal como de Matemática e Ciências Naturais do 5.º ano, é a que mostra percentagens mais baixas em qualquer um dos níveis, com valores não muito desiguais mas abaixo dos 50%. Os resultados dos alunos do 2.º ano são considerados menos problemáticos, mas ainda assim cerca de 60% dos alunos revelaram dificuldades no domínio da gramática e 70% revelaram dificuldades na elaboração de um texto.

Na prova de Português do 8.º ano, 70% dos alunos também tiveram dificuldades na gramática e 67% na escrita. Segundo o ME, a realização de provas de natureza prática, como as de Expressões Artísticas e de Expressões Físico-Motoras, no 2º ano, a par das que se centraram na avaliação de mais do que uma área do conhecimento - como os casos de Matemática e Ciências Naturais e História e Geografia de Portugal, no 5.º ano, e de Ciências Naturais e Físico-Química, no 8º ano -, constituíram inovações que contribuem para um diagnóstico mais amplo da forma como está a ser implementado o currículo no Ensino Básico.

Nas áreas disciplinares sujeitas a uma avaliação com provas práticas, os resultados são globalmente positivos. Mais de 80% dos alunos conseguem desempenhos dentro do esperado, com exceção dos domínios Expressão e Educação Musical e Jogos Infantis, em que a percentagem se situa nos 60%.
Mais de metade dos alunos do 2.º ano conseguiu responder de forma adequada, ou com falhas pontuais, em domínios como a compreensão oral e leitura e iniciação à educação literária na disciplina de Português, em todos os domínios de Matemática e em alguns domínios de Estudo do Meio.

Quanto ao desempenho dos alunos, com base nos domínios cognitivos, os resultados mostram, em cada disciplina, uma redução quando se comparam processos associados ao conhecimento e reprodução de informação com aqueles que pressupõem maior complexidade nas operações mentais, como a interpretação de informação ou o raciocínio. Nas exceções,estão os casos de Estudo do Meio do 2.º ano, em que a percentagem de alunos com desempenho de nível superior ultrapassa o valor do nível médio, e de Expressões Físico-Motoras do 2.º ano e Ciências Naturais e Físico-Química do 8.º ano, com a percentagem mais elevada a registar-se nos desempenhos de nível médio. As provas de Expressões Artísticas e Físico-Motoras são, globalmente, as que apresentam os desempenhos mais elevados.

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