OCDE: “As competências colaborativas podem ser ensinadas e praticadas nas disciplinas cognitivas”

Em 2015, o PISA avaliou, pela primeira vez, a capacidade dos alunos de 15 anos para resolverem problemas de forma colaborativa. Em 2012 já tinha avaliado a capacidade individual. O desempenho português, sabe-se agora, foi pior do que o obtido na avaliação de conhecimentos em leitura, matemática e ciências.
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A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reconhece a partilha de conhecimentos para encontrar soluções como uma competência crítica na escola e no mercado de trabalho. Os resultados da mais recente avaliação internacional às “soft skills” mostram que o desempenho dos alunos portugueses na resolução de problemas de forma colaborativa foi pior do que o registado em leitura, matemática e ciências. O que está a falhar?

O desenvolvimento de competências ao nível da resolução de problemas de forma colaborativa, segundo os peritos da OCDE, impõe ambientes de aprendizagem que promovam práticas de participação. Os alunos devem participar em atividades de comunicação, exposição e argumentação.   Mais trabalho prático e experimental, integração em equipas de trabalho, ambientes de responsabilidade e confiança. São outros dos requisitos.

Num comunicado, dirigido à imprensa, o Ministério da Educação recorda algumas políticas educativas que podem ajudar a aumentar estas competências específicas nos alunos portugueses. A “aposta na autonomia e flexibilidade, enquanto oportunidade para implementação de metodologias de trabalho de projeto, de trabalho colaborativo entre alunos e professores”. Mas também o perfil do aluno, o investimento na Educação para a Cidadania e iniciativas dirigidas a promover a participação democrática dos jovens, como a Voz dos Alunos ou o Orçamento Participativo das Escolas.    

Os melhores e os piores a trabalharem em grupo
O que diz o relatório da OCDE? Os alunos de Singapura são os melhores a resolverem problemas de forma colaborativa. Conseguem 561 pontos. Seguem-se os japoneses, com 552. Acima da média de 500 dos 32 países e economias parceiras da OCDE. Com uma pontuação de 498, Portugal está abaixo. No entanto, entre os países estudados, 28% dos alunos conseguem resolver apenas problemas colaborativos simples, se tanto. Pelo contrário, têm fraco desempenho nos testes menos de um em cada seis alunos na Estónia, Hong Kong, Japão, Coreia, Macau e Singapura.

Quem são os melhores? Oito por cento dos alunos da OCDE atingem o topo dos desempenhos. Significa, explica o relatório, que “conseguem manter a dinâmica de grupo, asseguram que os membros da equipa agem em concordância com as regras estabelecidas por todos e resolvem desacordos e conflitos, enquanto identificam caminhos eficientes e monitorizam o progresso na direção da solução”.

A OCDE refere que o desempenho na resolução colaborativa de problemas está “positivamente” ligada à performance nas áreas fundamentais do PISA (leitura, matemática e ciências), mas a relação é mais fraca do que a observada noutros domínios. Por isso, estudantes na Austrália, Japão, Coreia, Nova Zelândia e Estados Unidos pontuaram muito melhor na resolução colaborativa de problemas do que seria de esperar, com base nos resultados obtidos nas três áreas tradicionalmente avaliadas.

O relatório diz ainda que as raparigas pontuam melhor do que os rapazes - em média - conseguem mais 29 pontos. Cerca de 40 pontos mais na Austrália, Finlândia, Letónia, Nova Zelândia e Suécia. A diferença de género é menor – menos de 10 pontos – na Colômbia, Costa Rica e Peru. Os dados de 2015 contrastam com os obtidos na avaliação à capacidade individual de resolução de problemas. De recordar que esta avaliação, à capacidade individual, aconteceu no PISA 2012 e mostrava que os rapazes obtinham melhores classificações que as raparigas. Outro aspeto positivo é que o desempenho na resolução colaborativa de problemas é menos condicionado pelo estatuto socioeconómico dos alunos do que o desempenho nas áreas da leitura, matemática e ciências.

Ser “bom ouvinte” e gostar de ver o sucesso nos outros
Existem algumas atitudes que se relacionam de forma positiva com a capacidade de os estudantes trabalharem em colaboração. Por exemplo, quanto mais os alunos valorizam as relações maior é a capacidade para trabalhar em grupo.

De modo geral, em cada país e economia da OCDE, cerca de 85% dos estudantes concordam com as afirmações: “sou um bom ouvinte”, “gosto que os meus colegas sejam bem-sucedidos”, “tenho em conta os interesses dos outros”, “gosto de considerar perspetivas diferentes” e “gosto de cooperar com os meus pares”.

Em quase todas as economias e países da OCDE, as raparigas tendem a dar mais valor às relações que os rapazes. Ou seja, elas são melhores ouvintes, gostam mais de ver sucesso nos colegas, perspetivas diferentes e têm mais em conta o interesse dos outros. Por sua vez, os rapazes valorizam mais o trabalho em equipa do que as raparigas. Preferem trabalhar em grupo do que sozinhos, consideram o trabalho em equipa mais eficiente e que tomam melhores decisões em equipa do que individualmente. 

Tal como acontece com as atitudes, também existem certas atividades que potenciam nos jovens competências colaborativas. Os alunos que jogam videojogos, fora da escola, pontuam ligeiramente mais baixo nas avaliações à capacidade de resolução colaborativa de problemas do que os não jogadores. Porém, os alunos que acedem à Internet, utilizam o chat, redes sociais, fora da escola, pontuam ligeiramente melhor que os restantes estudantes.

De acordo com a OCDE, os estudantes que se ocupam das tarefas domésticas ou tomam conta de outros membros da família valorizam mais o trabalho em equipa e as relações.

Aprender a colaborar em todas as disciplinas
“As competências colaborativas podem ser ensinadas e praticadas nas disciplinas cognitivas”, diz a OCDE. Seja durante as aulas de Ciências, Línguas ou Matemática. Como? “Os estudantes podem trabalhar e apresentar em grupos e podem ajudar-se uns aos outros a aprender a disciplina,” dizem os peritos desta organização internacional. No entanto, “muito do esforço para aprender as matérias é tipicamente feito individualmente pelo estudante”, lê-se ainda no relatório.

Por outro lado, refere a OCDE, “a colaboração é vital para muitas atividades físicas, como o desporto em que é preciso trabalhar em equipa para atingir um objetivo comum”. Mas nem sempre isto acontece em todos os países. Finlândia e Japão, por exemplo, enfatizam o trabalho colaborativo, em detrimento da competição, nas aulas de Educação Física. Alemanha, Letónia, Hungria e Reino Unido colocam maior ênfase na competição e no melhor para cada um. “Infelizmente, os dados do PISA não conseguem indicar qual das abordagens é mais eficaz para o desenvolvimento das competências colaborativas.”

Estudantes oriundos de meios socioeconómicos mais vantajosos pontuam melhor nos testes do PISA em leitura, ciências e matemática do que os alunos mais pobres. O mesmo acontece na área da resolução colaborativa de problemas. Mas não há uma relação nítida entre o estatuto socioeconómico do aluno e a sua capacidade para trabalhar produtivamente com os outros. De acordo com a OCDE, “os alunos desfavorecidos são mais propensos a valorizarem o trabalho de equipa, talvez porque valorizam mais o impulso extra que o trabalho de grupo traz à sua própria performance”. Do mesmo modo, os dados mostram não existir diferenças significativas nas competências colaborativas de alunos imigrantes e não imigrantes.

Olhando para os fatores demográficos, os peritos da OCDE verificaram ainda que os alunos não imigrantes tendem a obter melhores desempenhos em aspetos específicos da avaliação às competências colaborativas quando as escolas que frequentam são compostas por uma larga percentagem de alunos imigrantes. Este resultado, alerta a OCDE, não pode ser generalizado à diversidade socioeconómica dos alunos. “No entanto, os sistemas educativos devem investigar se, no seu próprio contexto, a diversidade e o contacto dos estudantes com aqueles que são diferentes de si, e que podem ter diferentes pontos de vista, podem ajudar no desenvolvimento de competências de colaboração.”       
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