UNICEF analisa o impacto do digital na vida das crianças

“A tecnologia digital já mudou o mundo, agora, está a mudar a infância”, escrevem os autores do relatório da UNICEF sobre a situação mundial da infância que aborda o impacto das tecnologias digitais na vida das crianças.
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O relatório “Situação Mundial da Infância 2017: as crianças no mundo digital” confirma a presença massiva das crianças nos ambientes digitais: um em cada três utilizadores da Internet em todo o mundo é uma criança. Mas “muito pouco é feito para protegê-las dos perigos do mundo digital e para tornar o seu acesso a conteúdos online mais seguros”. Tornar o mundo digital mais seguro e acessível a todas as crianças deve ser uma missão para todos os países.

É a primeira vez que a UNICEF analisa de modo aprofundado as diferentes formas como a tecnologia digital está a afetar a vida das crianças e as suas perspetivas de futuro. Os dados foram recolhidos através de 36 workshops realizados com um total de 484 adolescentes, entre os 10 e os 19 anos, em 26 países [Bangladesh, Bielorrússia, Butão, Brasil, Burúndi, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Fiji, Guatemala, Japão, Jordânia, Quiribáti, Malásia, Nigéria, Paraguai, Peru, Portugal, Coreia, Moldávia, Senegal, Ilhas Salomão, Tailândia, Timor-Leste, Tunísia, Uruguai e Vanuatu].

Na recolha de dados foi também usada uma ferramenta inovadora de envio de mensagens, o U-Report a partir do qual foram enviadas quatro questões aos seus utilizadores. Contabilizaram-se 63 mil respostas, de crianças e jovens dos 13 aos 24 anos oriundos de 24 países [Argélia, Bangladesh, Brasil, Burkina Faso, Burúndi, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Chile, Costa do Marfim, El Salvador, Guatemala, Honduras, Índia, Indonésia, Libéria, Malásia, México, Mongólia, Paquistão, Peru, Filipinas, Tailândia e  Ucrânia]. Só foram considerados os países com um mínimo de 100 respondentes.

A organização identifica os perigos e as oportunidades do mundo digital. E critica a atuação pública e privada nesta matéria:  “Os governos e o setor privado não acompanharam o ritmo acelerado da mudança, expondo as crianças a novos riscos, prejudicando e deixando para trás milhões de crianças mais desfavorecidas.” É precisamente às crianças em situação de pobreza ou afetadas por emergências humanitárias que, segundo a UNICEF, a tecnologia digital pode oferecer benefícios. Quais? Por exemplo, “aumentar o acesso destas crianças à informação, desenvolver competências necessárias ao mercado de trabalho digital e proporcionar-lhes uma plataforma para se conectarem e comunicarem as suas opiniões”.

No entanto, “milhões de crianças estão a ficar para trás”, alerta a UNICEF. Cerca de um terço dos jovens no mundo - 346 milhões - não estão online. O que agrava as desigualdades e reduz a capacidade de participação das crianças numa economia cada vez mais digital, conclui a organização. O relatório analisa ainda o modo como a Internet pode colocar em risco as crianças. Através do uso indevido das suas informações pessoais, o acesso a conteúdos prejudiciais e o cyberbullying. O relatório pede mais atenção para o uso privado da tecnologia: “A presença constante de dispositivos móveis (tablets e smartphones) leva ao acesso online menos supervisionado e potencialmente mais perigoso por parte de muitas crianças.”

Tecnologia digital é “facto irreversível”
71% dos conectados em todo o mundo são jovens entre os 15 e os 24 anos, em comparação com 48% da população total. Só por si, esta percentagem justifica as preocupações da UNICEF com a situação das crianças nos ambientes digitais. Ameaça ou oportunidade? “Para o bem e para o mal, a tecnologia digital é um facto irreversível nas nossas vidas”, escreve o diretor-executivo da UNICEF, Anthony Lake, no prefácio do relatório, dando alguns exemplos: “Para o bem, o rapaz com paralisia cerebral pode interagir online com os seus pares, tornando as suas capacidades mais visíveis que as incapacidades. Para o mal, a rapariga que é proibida de estar online pela família e pela sociedade perde a oportunidade de aprender. E para o pior, um rapaz vítima de cyberbullying quase se suicida.”

Estudos mostram que as crianças estão a aceder à Internet cada vez mais cedo. Em alguns países, um menor de 15 anos usa tanto a Internet como um adulto com mais de 25 anos. Os telemóveis smartphones estão, segundo o relatório, a alimentar uma “cultura de quarto”. Proporcionando um acesso online, para muitas crianças, mais pessoal e menos supervisionado pelos adultos.
Por outro lado, “para as crianças que vivem em zonas remotas, em situação de pobreza, exclusão ou são vítimas de emergências que as forçam a abandonar as suas casas, a tecnologia e inovação digital  podem abrir as portas a um futuro melhor, oferecendo acesso à aprendizagem, a comunidades de interesse, serviços e outros benefícios que podem ajudá-las a alcançar o seu potencial e a quebrar o ciclo de desvantagem em que vivem”, refere a UNICEF. O relatório dá muitos exemplos. As TIC estão a levar a educação e o ensino a crianças das zonas mais remotas do Brasil e dos Camarões e às jovens afegãs impedidas de sairem de casa. No Congo, crianças bloggers usam as TIC para ajudar na defesa dos seus direitos.

Milhões de crianças sem acesso
O relatório analisa também a exclusão digital. “Milhões de crianças estão impedidas de aceder, através da Internet, a novas oportunidades de aprendizagem, e de um dia, participar na economia digital, ajudando a quebrar o ciclo intergeracional de pobreza”, lamenta o diretor-executivo da UNICEF. Os jovens africanos são os menos conectados: cerca de três em cada cinco jovens está offline, em comparação com apenas três em cada 75 na Europa.

“Estar desconectado num mundo digital é estar privado de novas oportunidades para aprender, comunicar e desenvolver competências para o mercado de trabalho do século XXI”, refere a UNIFEF. “A menos que essas lacunas de acesso e competências sejam identificadas e suprimidas, em vez de ser um equalizador de oportunidades, a conetividade pode aprofundar a desigualdade.” Segundo o relatório, os contornos da conectividade global são preocupantes. 29% dos jovens do mundo, entre os 15 e os 24 anos, ou seja 346 milhões, não estão online. Quase nove em cada 10 dos jovens que atualmente não usam Internet vivem em África, Ásia ou Pacífico. A África tem a maior percentagem de não utilizadores.

As disparidades atingem particularmente os países mais pobres: menos de 5% das crianças abaixo dos 15 anos usam a Internet no Bangladesh e no Zimbabué. O “fosso digital” é evidente em vários grupos de diferentes estatutos sociais e económicos: entre homens e mulheres, ricos e pobres, cidades e zonas rurais, indivíduos menos e mais escolarizados. Por exemplo, 81% das pessoas nos países desenvolvidos usam a Internet, mais do dobro da proporção nos países em desenvolvimento (40%), o que, por sua vez, é mais do dobro da proporção nos países menos desenvolvidos (15%).

A UNICEF recorda as conclusões sobre desigualdade e equidade do último Programa de Avaliação Internacional de Estudantes da OCDE. O PISA 2015 revelou discrepâncias substanciais entre alunos favorecidos e desfavorecidos tanto no acesso ao computador como à Internet. Nos países e economias parceiras da OCDE, em média, 88% dos alunos favorecidos tinham dois ou mais computadores em casa, em comparação com apenas 55% dos desfavorecidos. Quanto às variações no acesso à Internet: em 40 países e economias, praticamente todos os alunos (99%) de estatuto socioeconómico elevado tinham Internet em casa, mas em 15 países isso era verdade apenas para um em cada dois alunos de estatuto mais baixo.

Numa altura em que a Internet é cada vez mais multicultural, a UNICEF está também preocupada com a ausência de conteúdos relevantes e em idiomas variados. Em 2016, a maioria dos websites estava escrito apenas em 10 idiomas, e aproximadamente 56% apresentavam conteúdos exclusivamente em inglês. Isto significa que muitas crianças não conseguem encontrar conteúdos que entendam ou sejam culturalmente relevantes para elas.

Perigos online
“Nenhuma criança está a salvo do risco online.” O alerta da UNICEF deixa qualquer pai preocupado com o que fazem os seus filhos na Internet. “As TIC amplificaram alguns dos perigos tradicionais da infância: uma vez confinados ao pátio da escola, o valentão pode agora acompanhar as vítimas até às suas casas. Mas também criaram novos perigos, como expandir o alcance dos predadores, promover a criação de material de abuso sexual infantil "feito sob encomenda" e ampliar o mercado para a transmissão de abusos sexuais ao vivo”, lê-se no relatório.

Muitos dos perigos os pais desconhecem, diz a UNICEF, apontando como exemplo as ameaças à privacidade e identidade das crianças e o processamento de dados em escala industrial que a Internet tornou possível. Relativamente à exposição e abuso sexuais, um dos perigos para os quais existem muitos alertas, a UNICEF refere que mais de nove em cada 10 URL relativos a abuso sexual infantil identificados globalmente estão hospedados em cinco países: Canadá, França, Holanda, Federação Russa e Estados Unidos.

Para a UNICEF não restam dúvidas, por tudo o que o relatório mostra: as crianças têm de ser  colocadas no centro da política digital. Por um lado, têm de ser ensinadas sobre as questões ligadas à literacia digital. Por outro lado, têm de ser protegidas do abuso, da exploração, do tráfico, do cyberbullying e da exposição a conteúdos inadequados. Cumprir estas recomendações vai implicar o envolvimento de várias partes interessadas. “Somente através da ação coletiva – entre governos, setor privado, organizações infantis, academia, famílias e crianças – é possível igualar as condições de acesso ao mundo digital e tornar a Internet mais segura e acessível para as crianças
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O outro lado da moeda digital
Prof. Raul Guerreiro
Divulga-se aos quatro ventos o slogan fictício: As crianças devem ganhar desde cedo competências digitais, a fim de terem mais tarde sucesso profissional e social. Esta fascinação alastra entre as mentes mais simplórias, e sobretudo entre as mais inteligentes habilmente ocultas no mundo comercial. Mas o mundo científico já há muitos anos revelou fatos inegáveis e assustadores, provenientes de vastos estudos educacionais e neurológicos: Crianças e jovens que mergulham no mundo digital em idade precoce sofrem danos irreparáveis nos seus cérebros. Especialistas em psicologia do desenvolvimento em todo o mundo são unânimes em recomendar insistentemente: "Uma infância sem computador é o melhor começo para a era digital". Isto pode parecer um paradoxo, em meio ao êxtase que domina o mundo digital, mas os estudos já demonstraram com absoluto realismo que as crianças de idade precoce necessitam primeiramente de um forte enraizamento na realidade, antes de mergulhar no mundo irreal-digital. Os cérebros desenvolvem-se melhor se nenhum tablet impedir a experiência do mundo real. Isto vale especialmente para crianças que ainda não têm uma suficiente maturação da própria personalidade. Os seus futuros padrões mentais de compreensão do mundo dependem de saberem brincar, dançar, agarrar coisas, trepar, e não olhar semi-hipnotizadas para pequenas janelas eletrónicas. Graças a adequadas vivências sensório-motoras, elas mais tarde dominarão melhor o mundo digital, como cidadãos críticos e independentes. A experiência do mundo real simplesmente não é compatível com a exposição a mídias eletrónicas. Mas atualmente já há uma profusão de crianças que queimam até 5 horas da sua vida diária em frente de qualquer telemóvel, tablet ou televisão. Muitos pais e mães estão escravizados na crença de que aparelhos digitais "estimulam a inteligência e o conhecimento" – e dão assim as costas aos aterradores fatos educacionais já compilados. Essencialmente, no mundo escolar a aplicação de meios digitais deve ser deixada exclusivamente para a fase secundária. Mas um número crescente de pais (inclusive egoisticamente em busca de afastamento das próprias crianças) estão até a distribuir smartphones, tablets ou jogos para crianças em idade pré-escolar, algo que num futuro breve poderá ser sancionado como uma prática criminosa.

Prof. Raul Guerreiro
04-02-2018
 
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