ProSucesso, um projeto pioneiro que dá a volta ao insucesso nos Açores

Um clube de futebol, em Água de Pau, abriu uma sala de apoio ao estudo que funciona antes dos treinos. A Casa do Povo tem uma sala de estudo para os alunos do 2.º ciclo. Desde 2015 que a comunidade açoriana anda envolvida num plano inovador. Os primeiros resultados já são conhecidos.
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O Plano Integrado de Promoção do Sucesso Escolar, ProSucesso - Açores pela Educação foi apresentado em 2015 como uma estratégia regional para promover o sucesso escolar. Um plano focado na diminuição das taxas de retenção e de abandono precoce, das mais elevadas a nível nacional. O ProSucesso é um projeto pioneiro no país, planeado para uma década, para que crianças e jovens açorianos tenham um percurso escolar de sucesso. Cada passo dado tem uma razão de ser.  

Os primeiros resultados do projeto, que tem um conselho científico, uma comissão coordenadora e uma comissão de avaliação externa, são positivos. No Ensino Básico e Secundário, por exemplo, todas as metas definidas para 2020/2021 já foram atingidas no último ano letivo. Agora o desafio é consolidar esses resultados e atingir taxas mais elevadas na faixa etária dos 4 anos na frequência do pré-escolar nos Açores, entre outros objetivos.  

“Entendeu-se que era necessário dizer basta à aparente fatalidade do insucesso, que razões históricas, sociais e culturais podem explicar, mas que não devemos aceitar nem admitir que continuem a comprometer o futuro das nossas crianças e o desenvolvimento da sociedade açoriana”, adianta Fabíola Jael Cardoso, da comissão coordenadora do ProSucesso, num texto adaptado da comunicação que apresentou no Encontro Educação e Autonomia, em 3 de julho de 2017, no salão nobre da Secretaria Regional da Educação e Cultura (SREC), em Angra do Heroísmo, e entretanto publicado no último relatório sobre o Estado da Educação do Conselho Nacional de Educação.

O ProSucesso aposta em três eixos de intervenção: foco na qualidade das aprendizagens, promoção do desenvolvimento profissional dos docentes, e mobilização da comunidade educativa e parceiros sociais. E tem três ideias chave: diagnóstico precoce de dificuldades e imediata intervenção para a sua superação, estratégias diversificadas de ensino para atender a todos os alunos e possibilitar percursos escolares de 12 anos com sucesso, valorização do sucesso educativo por toda a comunidade.

Neste plano, há três projetos inovadores. O ProfDA é um deles e é constituído por docentes qualificados na deteção, caracterização e resolução de dificuldades de aprendizagem. Esses professores intervêm junto das turmas em trabalho coletivo ou em pequenos grupos, seguindo um modelo de apoio para agir junto dos alunos com mais dificuldades, sem nunca esquecer os restantes.

Devido às elevadas taxas de insucesso em Matemática, tanto na avaliação interna como externa e em todos os níveis e ciclos de ensino, a atuação começou precisamente por esta disciplina. No primeiro ano de implementação da estratégia, os insuficientes e suficientes diminuíram e os bons e muito bons aumentaram. Neste momento, o ProfDA já está no 2.º ciclo e no 1.º ciclo trabalha-se o Português com uma intervenção orientada para a aprendizagem da leitura, a principal causa do insucesso no 2.º ano de escolaridade.

“Com atividades mais práticas, fazendo o percurso do concreto para o pictórico e só depois para o abstrato, progredindo nas aprendizagens passo a passo, sem eliminar etapas, utilizando materiais manipuláveis construídos pelos docentes, pelos alunos e até por encarregados de educação, estamos a fazer a diferença, conseguindo que as nossas crianças gostem de Matemática, porque a compreendem e se sentem capazes de a aprender”, refere a responsável.

Estratégias mais ativas e cooperativas
“Apoio mais, retenção zero” é outro projeto inovador que pretende criar as condições metodológicas e organizacionais para que os alunos completem cada ciclo do Ensino Básico no número de anos esperado, assumindo, por outro lado, o carácter excecional da retenção nos anos não terminais de ciclo. No 1.º e 2.º ciclos, além da recuperação nas disciplinas com insucesso, o aluno retido desenvolve um projeto individual ou em grupo com conteúdos curriculares das áreas com sucesso no ano letivo transato e necessários ao ciclo seguinte. No 3.º ciclo, a frequência do ano suplementar pode implicar apenas a repetição das disciplinas em que o aluno não obteve aprovação, podendo frequentar atividades de apoio ao estudo, de tutoria, ou ainda realizar um projeto individual ou de grupo.

Este programa começou a ser implementado em 2015/2016 na EBI de Ponta Garça, São Miguel, no 7.º ano, e na EBS da Graciosa, no 5.º ano. As escolas ficam com a autonomia pedagógica reforçada. Fabíola Jael Cardoso salienta a valorização do trabalho em conselho de turma, o desenvolvimento de projetos ligados ao meio envolvente e à intervenção na comunidade, as estratégias de ensino e de aprendizagem mais ativas e cooperativas, a diferenciação pedagógica, o trabalho autónomo, os planos individuais de trabalho, as assembleias de turma, os cadernos de estudo.

O Projeto de Intervenção Comunitária para o Sucesso Educativo - Escola, Família, Comunidade (PIC) começou a ser implementado no ano letivo de 2016/2017 no concelho de Lagoa, São Miguel, para mostrar que com pequenas alterações na atitude e nos procedimentos é possível alcançar resultados positivos. O PIC, outro projeto inovador do ProSucesso, veio ao encontro de antigas reivindicações de dirigentes escolares e professores que pediam uma colaboração efetiva entre escolas, ação social e autarquia; uma maior responsabilização das famílias e dos alunos; cooperação com outras organizações da comunidade, como a comissão de proteção de menores, a Casa do Povo ou o clube de futebol.

“O propósito de todos passou a outro patamar: a prevenção dos problemas e a garantia de que se conseguem as melhores condições, em casa e na escola, para que os alunos ganhem confiança nas suas capacidades, aprendam e tenham, por isso, sucesso. A principal mudança foi precisamente esta: o enfoque não é no erro, na omissão, na acusação mútua ou na penalização. A aposta clara e concretizada em palavras e ações é na convicção de que todos, mas mesmo todos, são capazes de aprender”, adianta a responsável.

O PIC conseguiu resolver pequenos problemas que implicariam grandes consequências para o percurso escolar. Como, por exemplo, levar o material ou equipamento necessário para as aulas, ter um espaço apropriado para estudar, supervisionar a utilização de aparelhos eletrónicos durante o tempo de estudo. E com os alunos que revelam mais dificuldades e risco de retenção, estabelece-se um Compromisso para o Sucesso Educativo, no qual participam alunos, pais e encarregados de educação, diretores de turma e, se necessário, um técnico da ação social. Um compromisso em que o aluno regista o que poderá fazer e que é reavaliado periodicamente.

Na comunidade também surgiram respostas para combater o insucesso. Em Água de Pau, o clube de futebol criou uma sala para apoiar os jogadores no estudo e na realização dos trabalhos de casa, antes dos treinos. Na Casa do Povo, criou-se o Espaço Reviver, isto é, uma sala de estudo para alunos do 2.º ciclo. E os resultados surgiram. Na EBI de Água de Pau verificou-se uma redução de 50% da taxa de retenção, na ES de Lagoa essa redução foi de 42%, e na EBI de Lagoa, de 27%. Estas melhorias na avaliação interna foram validadas com a melhoria na avaliação externa. Perante os dados, bem como a dinâmica entre as várias organizações, decidiu-se manter esta metodologia de trabalho no concelho de Lagoa e iniciar este projeto no concelho vizinho, em Vila Franca do Campo.

“A heterogeneidade não é um obstáculo”
“O ProSucesso veio realçar que está na hora de compreender e aceitar que só teremos nas nossas escolas as crianças e os jovens com o perfil que ambicionamos se formos capazes de lhes oferecer uma outra escola, uma outra sala de aula”, defende Fabíola Jael Cardoso. “Não é por se passar uma ficha informativa ou de trabalho de uma página impressa para um PowerPoint que estamos a implementar estratégias mais ativas ou a integrar as Tecnologias da Informação e Comunicação. Não é falando 70 ou 80 minutos dos 90 da aula que podemos esperar alunos interessados, motivados, disponíveis para aprender. Não é porque partilhamos um teste ou porque dizemos aos colegas, na sala de professores, onde vamos na planificação que estamos a trabalhar de forma colaborativa”, sublinha.

Na sua perspetiva, há vários desafios que se colocam às escolas açorianas. “Embora se reconheça que o insucesso escolar tem múltiplas causas, não podemos esquecer que é na escola, e de forma muito especial dentro da sala de aula, que faremos a mais decisiva diferença no percurso dos nossos alunos”, lembra. A qualidade das aprendizagens é fundamental, o investimento da tutela, na formação dos docentes e na mudança de práticas letivas, também.

Trabalha-se para uma melhor educação pré-escolar, uma melhor prevenção e qualidade no apoio dado aos alunos. “Temos de estar atentos, intervir mal surge a primeira dificuldade, entender cada criança e cada jovem como responsabilidade de todos, garantir que ninguém fica aquém das suas potencialidades, pois desafiar os mais capazes é tão importante como apoiar com eficácia e qualidade os que mais precisam.” “E convém perceber que a heterogeneidade não é um obstáculo, mas uma oportunidade de interajuda e uma preparação para a vida e para uma sociedade cada vez mais diversa e multicultural”, acrescenta.
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