Movimento Código Portugal: Passar da sensibilização para a ação

“Faz falta uma disciplina de Ciências da Computação no ensino secundário para todos os alunos.”, alerta Fernanda Ledesma, presidente da Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI).
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“Do 8.º ao 12.º ano não há nenhuma disciplina de Ciências da Computação e faz falta.” O alerta é da presidente da ANPRI, entidade aderente ao Movimento Código Portugal, uma iniciativa de sensibilização para a importância da literacia digital e computacional na sociedade, inserida na “Semana Mundial das Ciências da Computação”, que decorre desde segunda-feira, com eventos em todo o país, e termina no 11 de dezembro.
O ensino da programação a crianças faz-se com linguagens de programação visual, fáceis de utilizar, cativantes e muito intuitivas, explica Fernanda Ledesma. Significa que “aquele código puro e duro foi trabalhado de modo a ter uma aparência mais fácil”. Tem sido esse o trabalho desenvolvido no âmbito do “Projeto de Iniciação à Programação no 1.º ciclo do Ensino Básico”, que está no segundo ano de implementação e tem possibilitado às crianças do 3.º e do 4.º ano experimentar a programação.

No ano letivo de 2016/2017, 388 escolas públicas e 84 privadas do 1.º ciclo aderiram ao projeto desenvolvido pelo Ministério da Educação com o apoio da ANPRI, dos Centros de Competência TIC da Universidade de Évora e da Escola Superior de Educação de Setúbal e também da Microsoft.

A adesão ao projeto é opcional, mas este ano letivo abrange 44400 alunos do 1.º ciclo e envolve 1260 professores. Mais de 80% das escolas aderentes optaram por inserir o ensino da programação em oferta complementar. Apenas 17% dos estabelecimentos o fizeram nas atividades de enriquecimento curricular (AECS) que, recorde-se, não são de frequência obrigatória.

Para Fernanda Ledesma, a integração do projeto no currículo “é um sinal claro da importância que lhe é atribuída”. Na maioria das escolas, o ensino cabe ao professor titular, apoiado pelo professor de informática, nas restantes apenas ao professor titular. No entanto, “os casos de maior sucesso surgem quando os dois professores trabalham em conjunto”, constata a presidente da ANPRI.

Para quem não sabe, as Ciências da Computação são um processo, em que o programar está incluído. Começam quase sempre por identificar um problema, dividi-lo em partes, resolver cada parte do problema e programá-lo, até resolver o problema completo. Neste processo, explica Ledesma, desenvolvem-se o raciocínio lógico, o espírito crítico e até competências de apresentações em público.

As vantagens da aplicação destas competências a todas as áreas curriculares levam Fernanda Ledesma a lamentar que o “Projeto de Iniciação à Programação” não abranja ainda o 2.º ciclo. O pedido foi feito pela ANPRI ao secretário de Estado João Costa, no final do ano passado. A ideia seria não desperdiçar o trabalho feito com os alunos no 4.º ano, por falta de continuidade no 5.º ano. Algumas escolas estão a conseguir impedir esse desperdício, mas por sua própria iniciativa.

“Não faz sentido trabalhar no 3.º e 4.º ano e a seguir os alunos estarem até ao 7.º ano sem ter mais nada”, critica a presidente da ANPRI. “Muitos alunos chegam ao 7.º ano e efetivamente dominam a máquina. Sabem jogar e até fazer publicações no Facebook. Mas não têm as literacias. É preciso educar os alunos para o uso adequado das tecnologias.”

Fernanda Ledesma lamenta ainda que a aprendizagem das Ciências da Computação esteja a surgir apenas em cursos pós-secundários, com duração de 11 meses. Sobretudo como resposta a problemas de empregabilidade. “Continuamos a ter projetos no pós-secundário porque as pessoas estão desempregadas, quando as competências digitais e computacionais deviam estar a ser trabalhadas no currículo e no ensino obrigatório, assim, tínhamos o problema [da empregabilidade] resolvido de raiz.”

O Movimento Código Portugal encerra no dia 11 de dezembro no Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva. Nesse dia, a entrada é livre. Das 11h00 às 19h00 a programação inclui atividades computacionais dirigidas a todas as idades. Os visitantes vão poder ainda assistir a demonstrações de experiências desenvolvidas nas escolas. No website da ANPRI há materiais sobre conceitos de ciências da computação e um programa com todas as iniciativas promovidas nas escolas aderentes à iniciativa.

A vertente da programação tem sido desenvolvida pelos Clubes de Programação e Robótica de âmbito escolar, lembra Fernanda Ledesma, referenciando que no país existem cerca de 150 clubes, a funcionarem na componente não letiva do professor. “Mas é preciso investir de forma séria nas Ciências da Computação”, apela a presidente da ANPRI. A “Semana Mundial das Ciências da Computação” vem reafirmar essa necessidade: “Ninguém aprende a programar numa tarde ou numa hora, mas é preciso passar da sensibilização para a ação e criar condições para que todos os alunos tenham acesso à programação no seu percurso escolar.”
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