TPC: sim ou não? O consenso não existe

Os TPC voltam à ribalta. Os trabalhos fora da escola fazem ou não sentido? Tiram tempo às brincadeiras e convívio das crianças e jovens? Ajudam a consolidar matérias e a tirar dúvidas? São um expediente inconsciente ou um reforço educativo importante? As opiniões dividem-se.
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TPC, abreviatura de Trabalhos Para Casa. Trabalhos para serem feitos fora da sala de aula, fora do horário escolar. Aqui ao lado, em Espanha, a Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos, que representa cerca de 12 mil associações, proclamou uma espécie de greve aos TPC ao incentivar as famílias para que não deixem os filhos fazer trabalhos da escola aos fins de semanas durante o mês de novembro. Argumentos: os TPC “invadem o tempo das famílias” e “violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas atividades artísticas e culturais”, como está escrito num dos artigos da Convenção dos Direitos da Criança. Por cá, o assunto também não reúne consenso.
Paulo Guinote, professor de Português e de História, autor do blogue “A Educação do Meu Umbigo” (entretanto inativo), defende um recurso moderado aos TPC e refere que o tempo e a metodologia são fatores a ter em conta neste tema. É totalmente contra os exercícios que mais não são do que cópias de páginas de manuais para o caderno e outras tarefas parecidas. “Os trabalhos para casa são importantes para consolidar aprendizagens em algumas disciplinas e conteúdos e não como forma de ‘apresentar serviço’ inconsequente. Deve ter um objetivo significativo para os alunos e devem ser integrados no trabalho em sala de aula e não como tarefa mecânica e destinada apenas a verificar se estão feitos ou não”, afirma ao EDUCARE.PT.

O professor fala da sua metodologia. Como professor de História, recorre aos TPC numa “perspetiva de pesquisa a médio prazo”. Ou seja, pede aos alunos que façam pesquisas sobre um determinado tema e elaborem pequenos trabalhos num horizonte de duas a três semanas. Como professor de Português, o mais comum é solicitar a leitura de textos a trabalhar em sala de aula ou apenas completar algum exercício que ficou por fazer na aula. “Só em situações excecionais peço trabalhos sem ser a alguns dias de distância e tento saber se os alunos já os têm de outras disciplinas”, revela.

Em disciplinas como Matemática, por exemplo, Paulo Guinote acha bem que os alunos façam exercícios fora da aula e depois coloquem dúvidas aos professores sobre o que não entenderam. Nos primeiros anos de escola, porque não fazer exercícios de escrita e caligrafia, “por muito conservador que isso possa parecer a alguns pedagogos do momento”? Noutras disciplinas, considera que, por vezes, se exagera no pedido de tarefas que deveriam ser desenvolvidas em sala de aula.

“O tempo para brincar pode sempre existir e não é uma hora por dia que o inviabilizará. Preocupa-me mais que muitos pais não tenham horários que lhes permitam ajudar os seus filhos e acompanhá-los nas tarefas escolares, algo que também pode ser encarado como ‘tempo de qualidade’”, sublinha. A sobrecarga de tarefas, em seu entender, está relacionada com o tempo disponível para as realizar. “Lamento que se tenha abdicado de reclamar melhores condições laborais para os pais com crianças em idade escolar, em particular no Ensino Básico”. “Quanto ao currículo, ele sobrecarrega-me se me exigirem que lecione conteúdos equivalentes na extensão aos de há uma ou duas décadas e me derem pouco mais de metade do tempo que então tinha”.

O problema, para Paulo Guinote, está na relação entre o tempo disponibilizado para cumprir determinado programa. “E a solução tem sido, quase sem exceção, mesmo quando se multiplicam metas, encurtar os conteúdos e simplificá-los para que seja possível ‘produzir sucesso’”, refere. “As medidas tomadas nesta área têm sido ditadas por imperativos financeiros e não pedagógicos ou então por derivas demagógicas, sejam as da exigência e exames (por exemplo, no mandato do anterior ME), sejam as da pressão para transitar os alunos a qualquer custo, para diminuir despesa e alimentar estatísticas (que é o que me parece ser o que se passa atualmente)”, acrescenta.

Trabalhos mecânicos
Maria do Rosário Gama é contra os TPC que propositadamente rebatizou de Trabalhos para os Pais das Crianças. A ex-diretora da Escola Secundária Infanta Dona Maria, em Coimbra, agora presidente da Direção da Associação dos Aposentados, Pensionistas e Reformados (APRE!), reformou-se e está noutra luta. Mas, mesmo assim, partilha a sua experiência como professora, mãe e aluna do século passado. A sua conclusão resume-se a uma frase e tem três palavras: “Fim dos TPC”.

Como professora, Maria do Rosário Gama nunca mandou trabalhos para casa. “Tinha a firme convicção que eram poucos os alunos que o faziam sem apoio dos pais ou dos explicadores, o que colocava em desvantagem todos os que não tinham pais em condições de os ajudar e ou não podiam pagar a explicadores”, refere ao EDUCARE.PT. Na sua opinião, é no horário e dentro da escola que as matérias devem ser consolidadas. O resto do tempo deve ser libertado para outras tarefas que “completem o crescimento das crianças e jovens”.

Como mãe, a experiência não foi boa. Sentiu “o pesadelo” de ter de ajudar os filhos a fazer os TPC, quando o tempo que sobrava entre a saída da escola e a hora de jantar era invariavelmente insuficiente para os filhos brincarem e conviverem com os amigos. “E os trabalhos eram feitos quase mecanicamente, desejando que essa tarefa terminasse rapidamente, perante o ar de enfado de quem já estivera muitas horas seguidas na escola”, recorda.

Como aluna, outras experiências. “Lembro-me do pesadelo de ter de escrever 50 vezes, ou mais, a mesma palavra sempre que dava um erro. A tabuada tinha de ser escrita várias vezes, até a saber ‘cantar’. As contas e os problemas faziam sempre parte de uma listagem de tarefas enormes. E as cópias? Como era terrível ter que estar a fazer cópias quando o que me apetecia era ir saltar à corda ou passear de bicicleta”.

Aprender a gerir o tempo
Para Lurdes Figueiral, presidente da Associação dos Professores de Matemática (APM), os TPC não podem ser uma forma de compensar a falta de tempo dos professores para gerir programas desadequados. “Os TPC devem gradualmente contribuir para um trabalho autónomo e personalizado do aluno, colmatando lacunas, abrindo novas perspetivas, consolidando aprendizagens”, diz ao EDUCARE.PT. No Ensino Básico, na sua opinião, os TPC não podem ser “mais do mesmo” porque “mais do mesmo” é, sublinha, “contraproducente e não desenvolve capacidades cognitivas mais complexas nem é eficiente no ultrapassar de dificuldades”. O trabalho de sala de aula deveria ser suficiente para os alunos apreenderem os conteúdos mais significativos e os processos mais relevantes.

“No entanto, fora da escola, os alunos devem ser incentivados, sobretudo, a perceber diversas abordagens e aplicações daquilo que foi trabalhado na escola. Nesse sentido, pequenas investigações, jogos, propostas de atividades que os alunos possam executar em contextos familiares e, muitas vezes, com carácter lúdico – mas sempre desafiadoras e exequíveis para eles - podem desenvolver capacidades importantes e necessárias para aprendizagens mais significativas”, repara.

Em seu entender, as propostas de TPC devem ser diversas e pensadas para que os alunos sejam capazes de as realizar com autonomia, ainda que recorrendo a diversas fontes e colaborações. “Além disso, as crianças e os jovens devem ter tempo para brincar e para se dedicar a ocupações diferentes e complementares às da escola, mas sobretudo devem ter tempo livre para gerir e aprender a gerir”, conclui.

Focar no estudo
TPC quanto baste (q.b.) no Ensino Básico, TPC mais focados no estudo no Secundário. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDE), é a favor de um meio-termo. “Deve existir boa coordenação entre os professores dos conselhos de turma para que não existam exageros em relação à quantidade de TPC para o dia seguinte e ao número de disciplinas a que o aluno tem de fazer trabalhos de casa”. Os TPC, realça, “não podem dar lugar a tortura para casa, sob pena de perderem todas as suas potencialidades no processo ensino-aprendizagem”.

Na perspetiva do também diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, faz sentido marcar “TPC q.b. para consolidação da matéria lecionada”, sobretudo no Ensino Básico, “em que os alunos são menos autónomos e necessitam de mais orientação”. “Já no Ensino Secundário, os TPC devem dar lugar a uma orientação no estudo, pois os alunos têm outra maturidade e autonomia”, refere.

Cada caso é um caso, cada criança é uma criança. E, por isso, é preciso moderação nos TPC. Para Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), os TPC podem ajudar a consolidar aprendizagens, mas não devem ser marcados indiscriminadamente, como se de uma tradição se tratasse. Não podem ser uma sobrecarga. “Não faz sentido prolongar a sala de aula em casa”, diz ao EDUCARE.PT. “Os TPC tal como estão, na maior parte dos casos, não fazem muito sentido nos tempos de hoje”, acrescenta.

Os TPC, tal como estão, podem não resultar. Cópias atrás de cópias já não são recomendáveis. É preciso ajustar, ir adequando, reavaliando, perceber onde estão as dificuldades para insistir em determinadas matérias. Jorge Ascenção avança com alguns exemplos do que pode ser feito fora da escola e que pode despertar a atenção dos alunos. Ler uma notícia em casa para comentar na sala de aula. Passear com os pais e resumir numa história esses momentos vividos em conjunto. “É importante que percebam que o que estão a aprender tem aplicação prática na vida”

O presidente da CONFAP tem sentido alguma evolução neste assunto e defende que a formação dos professores deve tocar no tema e caminhar no sentido de “evitar ao máximo sobrecarregar ainda mais os alunos”. “O tempo da escola é o tempo da escola. O tempo da família é o tempo da família”, refere. E cada tempo merece o devido respeito.
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