“A estabilidade do sistema educativo fomenta o entusiasmo”

José Carlos Peixoto recebeu o Prémio de Mérito Carreira em 2011. Reformou-se há cerca de cinco anos com um percurso de quase quatro décadas no ensino. Na sua opinião, ainda há muito a fazer no campo da educação. Como, por exemplo, firmar um acordo a 10 anos para o sistema educativo e envolver toda a sociedade neste caminho.
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Em 2011, recebeu o Prémio de Mérito Carreira das mãos da então ministra da Educação Isabel Alçada. José Carlos Peixoto, então professor na EB2,3 Frei Caetano Brandão, do Agrupamento de Escolas de Maximinos, em Braga, era distinguido pela adoção de boas práticas, pela capacidade de lidar com as dificuldades, por ser uma referência para colegas, alunos e comunidade educativa. “Não sou defensor do professor como modelo, mas como alguém que deita sementes, rega-as, deixa-as crescer, poda-as, para se obterem os melhores frutos”, diz nesta entrevista ao EDUCARE.PT.

Dedicou o prémio a alunos, professores, escola, família. Foi professor 38 anos, reformou-se há cerca de cinco. Refere que a educação não pode resumir-se ao ensino de conteúdos transmitidos pelos professores. Defende uma revolução no ensino e uma mudança de paradigma na forma como se ensina e trabalha nas escolas. “Se tudo à nossa volta muda, mais razão a escola tem para se adaptar às novas formas de transmitir competências”, comenta.

A estabilidade do sistema educativo é fundamental. “Se tudo muda constantemente, os professores e os alunos não consolidam competências, habilidades, atitudes, aptidões, conhecimentos”, avisa. E deixa um conselho ao ministro da Educação: que não olhe para o partido, mas sim para o país.

EDUCARE.PT: Os professores devem acreditar que o motor da aprendizagem é a motivação?
José Carlos Peixoto:
Ser professor sempre foi, para mim, um desafio. Sempre concebi a educação como prioritária, inclusiva e solidária e, simultaneamente, uma estratégia de desenvolvimento pessoal.

Exerci esse papel no interior da sala de aula mas, sobretudo, como formador. Dediquei-me intensamente à formação de professores. Os problemas da educação bem como os grandes temas educativos não são de hoje, foram abordados pelos grandes pedagogos e nem sempre as propostas são consensuais.

A motivação e os mecanismos da motivação são temas importantes na história da educação, têm como eixo fundamental o conhecimento e a compreensão do comportamento do ser humano, pois atua sobre o pensamento, a atenção, emoção, ação, anseios, sonhos. Nos mecanismos motivacionais são fundamentais o impulso, a atração, a satisfação, o afeto e a comunicação.

E: E como se motivam os alunos? Cada caso é um caso...
JCP:
Obviamente que cada aluno, cada turma, cada escola é um caso e nesta base deve ser concebida a educação. Não há receitas, há ingredientes que bem conjugados produzem os melhores resultados. Nem há momentos consagrados à motivação, ela está sempre presente, integra-se a todo o momento, envolve-se com a comunicação e é o resultado da interação entre o indivíduo e a situação.

E: Ensinar é impor? Ensinar é incutir regras? Como se deve ensinar?
JCP:
Não sou adepto de imposições, ordens, ou de incutir normas. Na educação há acordos, pactos, parcerias e cedências (nunca encaradas como perdas mas como ganhos) e aprofundamento das relações humanas e afetivas.

As normas devem ser decididas em conjunto, baseadas em acordos sobre regras, valores, responsabilidades, comportamentos, atitudes, empenho, trabalho, disciplina. Isto não significa permissividade, significa acordos sobre regras que implicam limites, obrigações, sanções e recompensas.

E: O sucesso dos alunos também depende do empenho de quem ensina?
JCP:
Sem dúvida. Todos nós recordamos professores que deixaram marcas, que nos influenciaram. Não sou defensor do professor como modelo, mas como alguém que deita sementes, rega-as, deixa-as crescer, poda-as, para se obterem os melhores frutos.

O professor não deve ser um funcionário, no sentido pejorativo da palavra, mas um profissional empenhado, que se entusiasma com o seu trabalho e deixa passar essa energia para os seus alunos.

E: O abandono escolar continua a ser preocupante? A escolaridade obrigatória é uma boa medida?
JCP:
A escolaridade obrigatória deveria ser gratuita e de 12 anos de escolaridade. O abandono escolar é um flagelo que nos persegue há muitos anos. E é preciso combatê-lo. Como? Só com mais educação.
 
E: Fala-se na fragilização da imagem da classe docente, como se o estatuto conquistado se tivesse perdido. O que aconteceu?
JCP:
É um facto que a imagem do professor está muito fragilizada e o seu estatuto altamente desvalorizado. Se a educação é fundamental para o desenvolvimento da sociedade, os seus atores principais (professores) devem ser valorizados, mas, pelo contrário, assistimos a uma constante desmotivação dos professores. Só palavras não bastam.

E: O sistema educativo tem passado por várias mudanças. As alterações têm sido benéficas ou têm perturbado a comunidade educativa?
JCP:
As mudanças constantes na educação não são benéficas para o sistema educativo. A política educativa deveria ser um dos domínios da sociedade objeto de grandes consensos, quer políticos, quer sociais. A estabilidade do sistema educativo fomenta o entusiasmo, o empenhamento. Se tudo muda constantemente, os professores e os alunos não consolidam competências, habilidades, atitudes, aptidões, conhecimentos.

E: É contra ou a favor das provas de aferição que o Ministério introduziu no 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade?
JCP:
O problema não está nas provas de aferição, o problema está na ausência de estabilidade no sistema educativo. É uma área muito sensível, com reflexos no futuro das próximas gerações. Quer as provas de aferição quer os exames não podem estar sujeitos a conjunturas pontuais, mudanças de ministro ou imposições sindicais.

É fundamental haver amplos consensos partidários que prevaleçam para além das legislaturas. Discordo da posição de um ministro que após alguns dias após a posse proceda a alterações neste âmbito, fazendo tábua rasa do trabalho anterior e sem uma avaliação externa.

E: A avaliação externa é um bom barómetro do ensino que se pratica?
JCP:
Sou a favor de todas as avaliações, sobretudo, quando são isentas e sem objetivos partidários. A avaliação é fundamental para os indivíduos como para os grupos. Um dos males da educação, no passado, foi nunca se proceder a avaliações, distinguindo o que é positivo ou negativo. Conheci experiências muito interessantes ao longo do tempo, mas, como nunca foram avaliadas ou do conhecimento superior, nunca foram aproveitadas.

E: As retenções são necessárias? Há estudos que revelam que quem chumba não melhora notas.
JCP:
O fundamental na educação é assegurar “o desenvolvimento global de cada aluno, enquanto ser humano e cidadão”. Por outro lado, o ensino já não se pode resumir ao ensino de conteúdos, apenas transmitidos pelos professores.

É urgente passar da lógica do “que aprender” para “como aprender” e passar do ensino centrado “no professor” para o “aluno”. Neste âmbito a retenção tem de ser residuária, a tender para zero, assegurando a todos os alunos competências transversais adequadas ao tempo em que viemos com “reforços” individualizados.

E: As comparações internacionais que se fazem de resultados de diferentes países ajudam a olhar para dentro e a mudar práticas? Ou continua tudo na mesma?
JCP:
Deve-se comparar sistemas educativos de vários países. Aproveitar os aspetos que melhor se adaptam à nossa sociedade e que já foram testados. Temos conhecimento de modelos de outros países, que foram transpostos para o nosso país e que não produziram os melhores resultados, pois cada sociedade tem passado e memória que devem ser respeitados. Nestas situações os modelos devem ser objeto de grande diálogo e audição por aqueles que os vão usar ou aplicar.

E: A avaliação dos professores foi um assunto muito contestado. É importante avaliar quem ensina? Por que razões?
JCP:
O tempo presente está em constante evolução que exige medidas atuais que respondam à atualidade. Precisamos de uma revolução no ensino, no tal amplo consenso entre especialistas e políticos. Precisamos de uma mudança de paradigma na forma como se ensina e trabalha nas escolas. Se tudo à nossa volta muda, mais razão a escola tem para se adaptar às novas formas de transmitir competências.

Deste modo, à semelhança do que se processa em todo o lado, a avaliação tem de estar presente em todas as situações. Só uma verdadeira avaliação faz avançar a educação, e, por sua vez, todos os intervenientes neste processo.

E: Como é que um professor, com mais de quatro décadas de escola, viu a implementação e posterior extinção de uma prova de avaliação para professores contratados com menos de cinco anos de serviço?
JCP:
Esta prova não mereceu a minha concordância. Sempre defendi a formação contínua dos professores, mas esta prova não se incluía nesta perspetiva.

Devemos investir na formação permanente dos docentes. Sempre me vi como um formador, passei pelos estágios clássicos e integrados, pela formação em exercício e, posteriormente, por todas as modalidades de formação promovidas pelos centros de formação de professores.
 
E: O atual modelo de recrutamento dos docentes não é consensual. A Bolsa de Contratação de Escola (BCE) foi extinta. Qual seria o sistema ideal para selecionar professores para as escolas?  
JCP:
Não tenho uma opinião formada sobre este assunto. É um assunto importante, que envolve diferentes problemáticas e que deve passar por consensos entre os professores. A estabilidade do corpo docente é primordial na educação, pois só um corpo docente estável consegue atingir bons resultados.

E: Foi distinguido com o Prémio Carreira em 2011. Recebeu a distinção das mãos da então ministra Isabel Alçada. Na altura, sublinhava-se a sua capacidade de lidar com as dificuldades. Como superava os obstáculos inerentes à sua profissão?
JCP:
Na 4.ª edição do Prémio Nacional de Professores fui distinguido com o Prémio de Mérito Carreira, em 2011, que consagra professores que, ao longo de uma carreira, revelem a adoção de boas práticas e capacidade de lidar com as dificuldades, tornando-se uma referência para os seus pares e para os seus alunos, bem como para a restante comunidade educativa.

E: Custa deixar a escola, deixar de ensinar?
JCP:
Sempre gostei da minha profissão. Portanto deixar o ambiente escolar foi doloroso, apenas superado pela dedicação à escrita e à investigação.

E: A educação está no bom caminho ou há reajustes a fazer?
JCP:
Há muito a fazer no campo da educação. Primeiro, um acordo a 10 anos sobre o sistema educativo. Segundo, envolver toda a sociedade pois a educação é prioritária para o desenvolvimento e crescimento de um país.  
 
E: Que conselhos daria ao novo ministro da educação?
JCP:
Que não olhasse ao partido, mas ao país. Um ministro da educação deveria ser, em todas as suas decisões, superpartidário, assessorado pelas diferentes sensibilidades.
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