APRENDIZ DE UTOPIAS

Felicidade - Dicionário de Valores

Urge converter as nossas escolas em espaços de bem-estar, onde não se fragmente a realidade nem se banalizem os gestos de humanidade. Um ambiente caracterizado pela serenidade, pelo cuidar da relação.
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DICIONÁRIO DE VALORES
O Guardian publicou um estudo da London School of Economics no qual se defende que o principal objetivo das escolas deverá ser o de ajudar a criar pessoas bondosas e felizes. O estudo recomenda que se intensifique a educação moral dos jovens, mostrando-lhes que a felicidade não se alcança quando se concebe o mundo como objeto de satisfação pessoal, mas quando existe preocupação pelo bem-estar do próximo.
Um recente inquérito, realizado junto de pais de alunos de Belo Horizonte, confirma a conclusão do estudo. Inquiridos sobre aquilo que mais desejavam que a escola desse aos seus filhos, os pais responderam: mais do que aprender conteúdos, que também é preciso aprender, queremos que os nossos filhos sejam felizes na escola.

A resposta maioritária só surpreenderá quem não conheça, por dentro, as escolas que ainda temos. Nelas reina a obsessão por uma competitividade que deteriora a relação e produz solidão, que o mesmo é dizer: infelicidade.

Em contraste com o desejo explicitado pelos pais dos alunos, os projetos político-pedagógicos (PPP) raramente se referem à felicidade como valor ou objetivo a alcançar. E as práticas predominantes vão em contramão relativamente a esse desiderato. Diz-nos Ortenila Sopelsa que “dificilmente encontramos uma criança com idade escolar que não anseie em entrar na escola, cheia de sonhos e fantasias. Mas a grande maioria das crianças sente a escola como algo que oprime, ridiculariza e discrimina”.

Urge, pois, converter as nossas escolas em espaços de bem-estar, onde não se fragmente a realidade nem se banalize os gestos de humanidade. Um ambiente caracterizado pela serenidade, pelo cuidar da relação. Numa relação de um Eu com um Tu, na qual o professor seja aquilo que é, seja tão autêntico quanto for possível e o Tu não seja tomado por mero objeto. Infelizmente, muitos pais agravam ainda mais os efeitos de uma escola desumanizada, quando convencem a prole de que a felicidade é um direito adquirido e de que os filhos de tudo são merecedores sem esforço, quando a felicidade não depende daquilo a que, apenas por estarmos vivos, temos direito e nos falta, mas do bom uso que fazemos daquilo que temos. Num tempo de inflação hedonista, torna-se premente a tarefa de aprender a saber lidar com as frustrações pessoais.

Atingimos um estado de espírito, que pode ser considerado de felicidade, quando aliamos realização pessoal à aprendizagem das coisas, em comum concretizadas – a minha realização é realização com os outros.

Felicidade é fazer amigos, dar-se sem medida, aceitar e ser aceite, viver em harmonia consigo e com os outros.

“Vamos fazer uma escola feliz” foi o nome que as crianças deram ao primeiro jornal escolar da Escola da Ponte.

Com os alunos, compreendemos que há muitos modos de fazer escolas felizes. O Nélson chegava à escola pontualmente atrasado. Mas, naquele dia, somente se dignou a chegar no fim da manhã. Quis saber a razão de tamanho atraso. O Nélson esclareceu:
— Olha, professor, esta noite, ninguém conseguiu dormir lá em casa. Os ratos roeram uma orelha do meu irmão mais pequenino. Ele estava cheio de sangue, gritou muito, e a minha mãe foi com ele para o hospital. Eu tive de cuidar dos meus irmãos, até ela voltar...
— Mas porque não ficaste em casa, a descansar? Porque vieste para a escola, amigo Nélson? – perguntei.
— Olha, professor, eu vim para a escola porque quando venho para a escola, pelo caminho, sinto uma coisa aqui dentro... Olha, professor, o que eu sinto aqui dentro parece mesmo... alegria!
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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Comentários
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A escola como lugar de mágoas
Miguel Gameiro Silva
Concordo totalmente com o texto. A escola tem sido e é, na maioria das vezes, um espaço que promove o sofrimento,a humilhação, a seriação, o castramento dos pontos fontes dos alunos. São inúmeras as mágoas que todos nós temos da escola, porque essa ideia conservadora de que "a escola não é para se ser feliz" mas sim para trabalhar, fomentou uma cultura de escola completamente errada e prejudicial para o sucesso escolar e educativo dos diversos alunos que a habitam. A escola é obviamente um local para trabalhar, mas tal não significa sofrer, ser-se infeliz. Quando o "trabalho" é apresentado de uma forma diferenciada, diversificada, apelativa, quando o trabalho vai ao encontro das necessidades educativas dos alunos, o trabalho é feito com prazer e isso não significa que essa felicidade seja sinónimo de falta de empenho, libertinagem ou desregramento. Mas a felicidade do aluno deve beliscar a autoridade e o distanciamento que muito profissionais querem manter perante os seus pares.
Costumo dizer, até porque ouvi da boca deles, que certos docentes continuam as más praticas dos seus antigos professores porque "comigo foi assim e não me fez mal nenhum"...Perdoai...eles não sabem o que fazem...
21-11-2015
 
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