MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“A minha surpresa só terá sido ultrapassada pela forma como aquele conselho me ficou cravado”

Nem sempre a nossa atividade profissional coincide com o que pretendíamos enquanto estudantes. Paulo Guinote partilha as suas recordações do professor cujo conselho marcou o seu percurso.
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Desafiámos Paulo Guinote a falar sobre as suas recordações dos bancos de escola. Pedimos-lhe que escrevesse sobre o que o marcou e contribuiu para a definição do seu percurso como professor e autor.

Eis as "Memórias de Passagem" de Paulo Guinote.

O Professor A.

Estava longe de ser um pormenor que passasse menos percebido. Era, pelo contrário, uma evidência logo que chegou no primeiro dia e abriu a porta da sala.

O professor A, de Português, não tinha mãos.

Penso que era o primeiro ou segundo ano que dava aulas na nossa escola, caso contrário já saberíamos do caso.

A nossa turma, ali à saída dos anos 70 numa escola de subúrbio, estava muito longe de ser fácil, encarássemos o caso sob que perspetiva fosse. Em especial ao nível do comportamento, uma dor de cabeça para os professores. Ao nível do aproveitamento, nem era bom falar. Muitos repetentes, muitos rapazes, uma confusão instalada na generalidade das aulas.

Mas o professor A chegou e, perante a incredulidade dos que o olharam, tirou o que não eram mãos dos bolsos das calças e juntando os cotos abriu a porta com a chave!

Como?
O quê?
Estamos a ver bem?
O que é que acaba de se passar?

Entrada em tropel, imediatamente travada pelo ar sério e pela forma como, em poucos momentos, conseguiu impor respeito mesmo aos mais desgovernados, sem elevar muito a voz, mas com uma firmeza intensa de quem não estava ali para tolerar criancices.

Espanto maior, como conseguia, graças a um sistema de elásticos nos punhos, abrir uma mala de couro que trazia, abrir o livro de ponto, desfolhá-lo, escrever o sumário nele, depois de o ter passado no quadro.

Ao espanto inicial, seguiu-se a curiosidade e a admiração, no seu duplo sentido. Seguiram-se as explicações para o caso, quase do foro mitológico - que tivera as mãos cortadas ao salvar alguém num poço ou em resultado de um acidente qualquer. Nunca soube ao certo o que se passara.

A sua presença chegava para acalmar a turba que desfazia a paciência às restantes professoras e professores.

E fazia-nos atentar no Gil Vicente, até nos fazendo interessar um pouco pela, para nós obviamente insípida, Abelha na chuva. Até labutando com o Camões conseguia que os piores alunos se concentrassem um mínimo impensável noutra aula.

Aluno meramente bom na disciplina, inadaptado no ano anterior aos sintagmas degenerativos da gramática, seguia as suas aulas com moderado interesse, investindo um pouco mais nas composições.

Afinal, a minha vocação sempre tinha sido a Matemática, a disciplina em que tudo encaixava de forma rigorosa e a excelência me era natural.

Estranhamente, por amigos, fui sabendo que o professor A ia ler essas minhas composições em outras turmas.

Na aula, nunca me dispensava qualquer elogio especial, nunca lhe notei qualquer preferência.

Ao aproximar-se o final do ano - cujo desfecho seria o de 24 chumbos numa turma de 28 almas desgarradas - era necessário escolher a opção para o 10º. Não gostando de coisas de Saúde, preparava-me para escolher a combinação que julgava possível entre o meu jeito para os números e algum gosto pelas coisas mais humanas. Pensava ir para Economia.

Numa das aulas finais, o professor A pediu-me para ficar um pouco mais e perguntou-me o que pensava fazer. Estranhei o interesse, mas lá lhe expliquei ao que andava.

Olhou para mim e, com o seu ar sério e intenso, disse-me que o meu futuro estava nas letras, por muito bem que me desse com os números.

A minha surpresa só terá sido ultrapassada pela forma como aquele conselho me ficou cravado na mente, enquanto preparava a matrícula para o ano seguinte.

Sem grandes pressões familiares quanto ao encaminhamento das minhas opções, consciente da minha própria ignorância em relação a estes assuntos, acabei por seguir a recomendação daquele professor, que ao longo de todo o ano nunca dera sinal direto de reparar muito em mim.

Depois de muitas voltas, sou hoje também professor de Língua Portuguesa, apesar da formação em História.

Acho que ainda hoje, sempre que procuro perceber um aluno e aquilo em que ele pode ser melhor, tento alcançar o padrão que o professor A representou para mim.

Provavelmente o maior responsável por fazer muito do que hoje faço. Como profissão, mas também como fruição.
Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação
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