MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“Encruzilhadas, desafios, opções ou decisões louváveis (…) e opções e decisões condenáveis…”

Neste exercício de conduzir a memória pelas veredas do passado, identifico múltiplas encruzilhadas de variados tipos e uma passagem de nível sem guarda que a inércia me fez atravessar sem respeito pelo exigido Pare, Escute e Olhe.
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Vitor Gil aceitou o desafio do EDUCARE.PT, partilhando as suas memórias do seu percurso educativo. Em retrospetiva, olhando para uma vida inteira na Ciência, o primeiro reitor da Universidade de Aveiro conta como enveredou por esta área e como ultrapassou os vários obstáculos com que se foi deparando.

Eis as "Memórias de Passagem" de Vitor Gil.

Entre 13 e 31...e outros

Neste exercício de conduzir a memória pelas veredas do passado, identifico múltiplas encruzilhadas de variados tipos e uma passagem de nível sem guarda que a inércia me fez atravessar sem respeito pelo exigido Pare, Escute e Olhe. Estava-se nos anos 60 do século passado, uma década de várias travessias. Posso, por isso, dividir-me entre o antes e o depois de 60, ano em que ganhei a licença para passar à vida activa como profissional da Química: a partir daí, meio século de actividade criativa em Ciência, com mestres, alunos, discípulos e ... a solo. E, também, o foral para iniciar família e explorar - penteando foices por alheias searas - outras áreas da criatividade humana, como hobbies.

Encruzilhadas, desafios, opções ou decisões louváveis - por vezes, graças a acasos e golpes da sorte, em afloramentos de um 13 mágico - e opções e decisões condenáveis - vários 31, grandes ou menores, a pontuação com que se rebenta em certos jogos de azar.

Face às alternativas colocadas pelos seus informados e visionários mestres, o jovem licenciado escolheria Ressonância Magnética Nuclear, aplicada à Química. Seguramente, um 13, quase às cegas. Mas ... quase-acaso, ou simples ignorância ou inconsciência dos complexos factores escondidos que estão na base das decisões? Ainda restos da aura do nuclear, o mistério do magnético, a atracção da espectroscopia, o fascínio da estrutura molecular...que, devidamente combinados, haveriam de desaguar nas primeiras publicações dessa área com o nome de um português e no primeiro laboratório da especialidade no país.

Diga o número 13! Assim me interpelava, mais vezes do que a minha timidez autorizaria, um dos meus saudosos professores do liceu. Só mais tarde perceberia porque estava sentado no lugar 13 da turma e não no habitual lugar 31 de outros anos, mais apropriado à ordem alfabética em que os meus padrinhos me haviam registado à nascença. Uma questão de interface amortecedora entre os rebeldes números 12 e 14 (ou seria 7 e 19?) da mesma turma...e não certamente por ter nascido num dia 13.

Não me lembro de ter passado pela fase infantil do "o que eu quero ser quando for grande é bombeiro", possivelmente porque, em caso de chaminés a arder ou outras combustões descontroladas, a aldeia só conhecia o som apressado do sino da capela e a correria aflita de pessoas e baldes. Agricultor de subsistência, como o pai, é que não seria uma opção. O rapaz haveria, logo, teria, de ser "alguém", especialmente nas declarações da professora e de outras generosas figuras.

De parte estavam as hipóteses de estudar para médico ou para juíz. No primeiro caso, por causa dos desmaios no dia das vacinas ou nas simples idas ao médico ou, mesmo, apenas à farmácia. No segundo, porque se adivinhavam insuficientes dotes oratórios. Restava pensar em vir a ser engenheiro. De quê, não era importante.

O que era importante, para já, era ser bom aluno, gostasse ou não das matérias ou dos professores. Na verdade, esta constante preocupação - fortemente indexada à necessidade de obter a bolsa de estudo sem a qual, não obstante os sacrifícios dos pais, nada seria possível - pode ter adiado, por longos anos, o meu gosto genuíno pelo saber, mesmo pelas coisas de Ciência. Com uma excepção. Não a Química, mas ... a Matemática. E isto apesar das "caldaças" que o primeiro professor (também reitor) desta disciplina prodigalizava, hoje diria, amorosamente. Todas as ciências se me apresentavam como coisas acabadas, mas, na Matemática, eu descortinava, qual alquimista, secretos desafios como fosse aquele de descobrir uma maneira rápida de fazer multiplicações de números com 4 ou mais algarismos (sem calculadora, claro está).

Não viria a ser engenheiro, porque, antes de mais, esses cursos não se podiam concluir em Coimbra. Mas o aliciante do nuclear, adequadamente esculpido pelo professor do "Diga lá o 13" e pelo meu futuro mestre universitário, haveria de ser uma compensação da "mera" Licenciatura em Física e Química. Tudo isto, não obstante a primeira gafe do caloiro que, ao ser confrontado com uma pergunta de algibeira desse mestre e do seu assistente (depois, figura nacionalmente conhecida), chamou ... sulfato de cobre à sílica-gel dos escicadores!

Mas não ter sido engenheiro não o impediu de aceitar (outra vez, por "culpa" de professores de Coimbra) envolver-se na instalação de uma nova universidade cujo futuro esteve em risco quando algum do poder político achava que a jovem democracia já não precisava de novas universidades. Era, outra vez, o bichinho da inovação: funcionário nº 1 e autor das primeiras publicações científicas e didácticas dessa instituição. Com trinta e poucos sobre um 25 conturbado, um ou outro 31, mas sobretudo o 13 dos primeiros professores e outros colaboradores.

Também, não sendo muito dado à oratória, não o impediu de cedo reconhecer que é comunicando que melhor se aprende: as aulas, as publicações científicas, os livros escolares, o software educativo, as exposições interactivas de ciência - o primeiro centro interactivo do país - uma ou outra palestra.

Por fim, não ter jeito para médico não o impediu de se envolver numa exposição interactiva sobre as relações entre as ciências básicas e a saúde.

Tudo - ousa-se dizer - como parte do meio século de acção criativa, com algumas incursões, mais ou menos abusivas, no campo das artes: "arte e ciência, margens do mesmo rio". Aliás, se já houvesse o saudável hábito de fazer as crianças da aldeia aprender música para participar na sua banda, talvez se tivesse um músico, em vez de um químico (lembras-te, saudoso colega, de quando tentámos compor música contemporânea no piano da senhoria e com os talheres da sua cozinha?). Talvez por isso não resisto a promover a obra de arte qualquer resto de instrumento musical encontrado na casa que foi de meus avós e de meus pais.

Caro leitor, se este texto pretensioso o chateou, há sempre o mais objectivo www.exploratorio.pt/vgil, se nisso tiver algum interesse.
Victor M. S. GilProf. Catedrático Jubilado (Química), Presidente da Direcção do Exploratório Ciência Viva, Coimbra.
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