MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“Vou contar histórias de livros que, da escola ou por causa dela, me ficaram na memória.”

Há palavras que se conjugam naturalmente em todos os tempos e modos. Para mim sempre assim foi, e continua a ser, com as palavras "escola", "aprender" e "livros".
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O EDUCARE.PT desafiou Armanda Zenhas a partilhar memórias do seu passado escolar. Para esta autora e professora do 2.º ciclo, as suas memórias confundem-se com os livros que marcaram cada fase do seu percurso escolar.

Eis as "Memórias de Passagem" de Armanda Zenhas.

Nas memórias da escola, histórias de livros

Há palavras que se conjugam naturalmente em todos os tempos e modos. Para mim sempre assim foi, e continua a ser, com as palavras "escola", "aprender" e "livros".

Se me pedem memórias de escola, essas são também memórias de aprendizagem e trazem presas a si memórias de livros. Livros para leitura lúdica, livros para leitura "séria", livros como forma de contestação, livros para descoberta, enfim, livros variados para fins diversos... ou sem nenhum assumido à partida. Vou, portanto, contar histórias de livros que, da escola ou por causa dela, me ficaram na memória.

Inglês: eu, no 6.º ano, e a minha irmã, no 7.º (agora, 10.º e 11.º anos), num liceu de província, em 1972/73. A professora que ambas tínhamos deu vida a extratos de livros, escondidos na aridez da seleta adotada, contextualizando-os nas obras a que pertenciam. Desvendou, assim, histórias que despertaram a curiosidade a adolescentes a quem eram proibidos horizontes alargados. Aqueles amores vividos intensamente, por vezes contrariados, proibidos ou até proscritos. O tratamento do tema totalmente interdito da sexualidade, que nem sei como ela ousava aflorar naqueles tempos e naquele contexto. O longínquo mundo chinês, visto pelos olhos da escritora Pearl Buck. No fim das aulas, muitas alunas corriam para a livraria da terra e, como as outras, também eu e a minha irmã. E assim lemos (nos nossos habituais campeonatos de leitura: quem acabava primeiro o seu livro?) O Amante de Lady Chaterley, O Monte dos Vendavais, A Letra Escarlate, Jane Eyre, Há Sempre um Amanhã, entre tantos outros livros.

1974, 7.º ano (agora, 11.º). Em abril, com o fim da ditadura, acabou-se a disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação. Já desde a infância, por via da educação familiar, com consciência do sistema político em que até então se vivera, não era segredo para mim o significado daquela disciplina nem do manual que a sustentava. Quando foi proclamado o seu fim, uma vez mais na companhia da minha irmã, com grande emoção e alegria, queimei partes das capas do livro (difíceis de arder, por serem grossas) e retalhei a fogo as suas páginas. Ao mesmo tempo, queimava, simbolicamente, a escola repressiva a que ele pertencia e que eu tinha frequentado. Como era usual na província, na época, frequentei, durante vários anos, um colégio, interna. Celebrava também a nova escola que adivinhava e desejava e que tive o privilégio de viver, na sua plenitude, na experiência pedagógica do Magistério Primário do Porto.

1983. Era então professora de um Curso de Educação Básica para Adultos e estudante na Faculdade de Letras. Preparava-me para fazer uma viagem a França, no âmbito do meu trabalho. Na altura, comunicava por carta com a minha mãe (não tinha telefone). Tinha acabado de colocar na mala um livro de poetas românticos ingleses, que então estava a estudar na Faculdade, quando recebi uma carta da minha mãe. Dizia ela: "Aproveita a viagem também para descansar um pouco e não ponhas livros de estudo na mala". Pousei a carta e ri-me à gargalhada. Mas a minha mãe conhecia-me melhor do que eu pensava. Quando retomei a leitura, continuava ela: "Não te rias, bem te conheço, e sei que já lá puseste livros".

Até hoje continuo a rimar as três palavras no tempo presente, sem esquecer o tempo passado e tendo sempre como horizonte o tempo futuro. Os modos também continuam a ser diversos e incluem uma vez mais o de professora e o de estudante, desta feita, de doutoramento.
Armanda ZenhasProfessora do 2.º ciclo e autora de livros na área da educação.
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