MEMÓRIAS DE PASSAGEM

“O gesto do professor Brandão é um exemplo de humanidade”

"A recordação mais viva que guardo de um professor (...) decorre, sobretudo, do sentido de humanidade e da disponibilidade solidária que teve para comigo num episódio em particular, o qual (...) permitiu-me ter uma consciência mais aguda dos atributos que caracterizam um grande professor.
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José Carlos Marques dos Santos, atual reitor da Universidade do Porto, partilha, a pedido do EDUCARE.PT, uma recordação de um professor importante para si, escolhendo, para a sua "Memória de Passagem", o gesto de humanidade do seu professor do antigo ensino primário.

Eis as "Memórias de Passagem" do reitor da Universidade do Porto.

O exemplo do professor Brandão

Ao longo da nossa vida escolar conhecemos inúmeros professores. Mas, como é natural, só alguns resistem à usura do tempo e permanecem gravados na nossa memória, quer por boas quer por más razões.

No meu caso, a recordação mais viva que guardo de um professor é bastante reconfortante e não decorre diretamente das qualidades pedagógicas do docente em causa. Decorre, sobretudo, do sentido de humanidade e da disponibilidade solidária que teve para comigo num episódio em particular, o qual, se não foi determinante no meu percurso educativo, pelo menos permitiu-me, mais tarde, ter uma consciência mais aguda dos atributos que caracterizam um grande professor.

O professor que saudosamente recordo deu-me aulas na 3.ª e na 4.ª classes da já extinta Escola de Santo Ildefonso (masculina), no Largo Dr. Tito Fontes, no Porto. Era alto, seco de carnes e muito afável, segundo o que a minha memória consegue resgatar da lonjura dos tempos de infância (tinha 9-10 anos na altura). Mas o facto que mais me marcou na convivência com o professor Brandão, assim se chamava, foi a sua disponibilidade para me dar gratuitamente explicações de preparação para os exames de admissão, após o final da 4.ª classe, que decidiam o acesso ao liceu e à escola técnica (fiz os dois exames, tendo optado pelo liceu).

Paralelamente à sua atividade docente, o professor Brandão dava explicações de preparação para os tais exames mas mediante pagamento. Ora a minha família não tinha condições económicas para custear essas explicações, pelo que, vendo em mim um aluno aplicado e com potencial, o professor Brandão decidiu oferecer-mas. Por isso me desloquei várias vezes da Rua do Almada, onde vivia, à casa do professor Brandão, junto a uma refinaria da RAR, no Campo 24 de agosto , para poder beneficiar de lições extra que me ajudaram a realizar com sucesso os exames em causa.

Não sei se as explicações do professor Brandão foram decisivas para a minha aprovação nos exames e consequente entrada no Liceu D. Manuel II (hoje, Escola Secundária Rodrigues de Freitas), nem isso é o mais relevante neste episódio. O que sei, sem margem para dúvidas, é que o gesto de altruísmo do professor Brandão ajudou-me a compreender melhor a importância do lado humano da docência e de como é fundamental apoiar os alunos mais carenciados no seu percurso educativo. Os elevados índices de abandono escolar precoce são ainda uma mácula no desenvolvimento do nosso país, pelo que os decisores políticos e respetivos organismos públicos devem de facto assegurar que as condições socioeconómicas dos estudantes não constituem um entrave à sua progressão educativa.

Neste sentido, o gesto do professor Brandão é um exemplo de humanidade mas também mais uma evidência de que, se forem devidamente apoiados, os estudantes carenciados podem evitar aquilo que ainda hoje parece ser, para nossa vergonha, uma fatalidade em Portugal: a perpetuação intergeracional das baixas qualificações e consequente indigência material.
José Carlos Marques dos SantosReitor da Universidade do Porto
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