HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO

Ser um professor inovador

Eu acreditava piamente que qualquer projeto teria de ter um olho muito atento à realidade e outro atento à utopia, porque não há projeto sem sonho e é a utopia que faz andar e melhorar o mundo.
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Após muitos anos no ensino especial, em que trabalhei com crianças com necessidades educativas especiais moderadas e severas, decidi voltar ao ensino regular e enveredar por um Projeto Curricular de Turma inovador, de mudança e melhoria da nossa escola. A nossa escola padece de vários males, como bem sabemos.

Em vez de escolher o discurso da lamúria ("antigamente é que era bom") e uma postura comodista ou corporativista, resolvi transformar a minha sala de aula do 1.º ciclo do Ensino Básico. Partindo do modelo de sala de aula desenvolvimental, criei vários centros de aprendizagem: Língua Portuguesa (manuais escolares, livros, fichas de trabalho diferenciadas, sopa de letras, palavras cruzadas, jornal escolar, caixa da escrita criativa), Matemática (ábacos, geoplanos, tangram, calculadoras, compassos, material lúdico-manipulativo para efetuar decomposições e cálculos, fichas de trabalho diferenciadas), Ciência (esqueleto humano, materiais para pequenas experiências), Música (instrumentos musicais, sistema áudio, cassetes de músicas e histórias infantis), jogos e puzzles (variadíssimos jogos didáticos ao nível da língua portuguesa e matemática), informática (dois computadores e cerca de trinta CD lúdico-didáticos), teatro (carcaça de televisão, marionetas, biombo), carpintaria (mesa de carpinteiro, madeira, serrotes, martelos, cola, etc.), animais (uma gaiola com um coelho-anão e um aquário), amizade (caixa dos elogios e aplausos, placard da amizade, caixa das surpresas), comissão de ajuda (resolução conjunta dos comportamentos disruptivos), guardas da escola (clube criado para supervisionar o recreio e resolver situações de bullying), de modo a responder às diversas necessidades, ritmos, interesses e pontos fortes dos cerca de vinte alunos.

Tal como a maioria das turmas do 1.º ciclo, deparei-me com uma grande heterogeneidade (nunca encontrei, e duvido que encontre algum dia, uma turma homogénea), ou seja, crianças que nem sabiam pegar num lápis, uma criança que tinha graves problemas de linguagem e o seu passatempo preferido era comer a borracha, crianças oriundas de famílias desestruturadas e sem a mínima noção de regras de convivência, e por aí adiante. Nada que me desanimasse e desistisse do meu projeto, arranjando comodamente bodes expiatórios.

Eu acreditava piamente que qualquer projeto teria de ter um olho muito atento à realidade e outro atento à utopia, porque não há projeto sem sonho e é a utopia que faz andar e melhorar o mundo.

A sala funcionou com base na seguinte premissa: as crianças desenvolvem aptidões em períodos de tempo únicos e individuais, de acordo com o seu plano individual de trabalho, o qual é elaborado e negociado na assembleia de turma.

Não demorou muito tempo para me aperceber que este projeto seria implementado de forma isolada. Dos treze professores existentes na escola, nem um se mostrou disponível - e com coragem - para realizar um ensino a pares e entrar nesta aventura inovadora. "Não me sinto segura", dizia-me a mais nova.

Não obstante ter facultado o meu número de telemóvel aos pais, ter-lhes enviado informação mensal sobre o processo de ensino-aprendizagem dos filhos, ter colocado um quadro, com fotos das atividades realizadas, na entrada da sala de aula, ou ter-lhes convidado para entrar na sala de aula e assistir às aulas, a maioria dos pais torceu o nariz às carteiras em grupo, à aprendizagem cooperativa, à assembleia de turma, ao quadro dos direitos e deveres dos alunos, bem como à comissão de ajuda que pretendia desenvolver uma autodisciplina nos alunos e uma pedagogia cidadã: "Ninguém aqui faz isto!", "no meu tempo não era nada disto!", "Os alunos da professora do lado estão mais adiantados!", "Eu não quero saber se o meu filho ajuda o outro. Eu quero é que ele avance."

Por sua vez, na sala de professores ouvia: "A aluna tem dificuldades por causa das maluquices dele."; "Isso é tudo muito bonito na teoria, mas na prática... Quantos anos de serviço tens?".

Por fim, a afirmação do superior hierárquico: "O senhor não pode andar a fazer sozinho essas inovações. Ouvi dizer que os alunos fazem o que querem. Vai ser avaliado! O seu projeto vai ter que ser aprovado em conselho pedagógico. Caso não o seja, deverá aproximar-se das práticas mais tradicionais das suas colegas."

No nosso (triste) país o docente que inova, que rompe com as rotinas, é normalmente acusado de ser presunçoso, é-lhe aplicado uma etiqueta desqualificadora, é chamado de ingénuo, apontam-lhe problemas emocionais e nega-se a viabilidade dos seus projetos (Guerra:2003).

Tenho perfeitamente a noção de que nem todos os professores terão a resistência e o espírito crítico necessários para levar em frente um projeto de quatro anos, como este. Até porque, em abono da verdade, ele acarretou muitas horas extra que, compreensivelmente, muitos não estão dispostos a dar.

Eu estava seguro das minhas convicções, não só pelo investimento que fiz no meu desenvolvimento profissional, como também pela rigorosa fundamentação teórica que constava no projeto. A teoria, tantas vezes criticada na escola, deve ser vista como um guia. Caberá ao professor, a meu ver, ser um líder e um artista com carácter e personalidade, fazendo a simbiose entre a teoria e a prática. Parafraseando Sebastião da Gama: "Apesar de a escola não poder resolver todos os problemas dos alunos, ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem que lá fora é melhor."

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assistente@educare.pt
Miguel Gameiro SilvaProfessor do 1.º ciclo do Ensino Básico, na Escola EBI Canto da Maia, Açores
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