HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO

"Nana com o Jesu, Possora Mau-ela!"

Já não me importo com a minha avaliação enquanto professora, porque a avaliação mais fiel tu já a fazes. Tu e todos os outros alunos que passaram por mim, através do vosso amor permanente, e para sempre. Um amor que não cabe em “papeis”, um amor que não conhece o fator tempo.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Quando terminaste o 9.º ano, deixámo-nos de ver com regularidade, Júlio. Mas, quando as saudades apertavam a mãe Clarisse trazia-te até mim. E abraçávamo-nos por longos momentos, onde a magia daquele entrecruzar de braços falava mais do que as próprias palavras. Até porque, devido à tua condição de saúde, tiveste sempre muitas dificuldades em verbalizar o que te vai no coração.
No verão passado, a mãe Clarisse foi para um lugar azul. Eras só tu e ela. Não resistiu àquela maldita doença que a consumia há anos. Os médicos sussurravam que era um milagre ter resistido por tantos anos. Mas, a fé inabalável em Deus e o amor, excecionalíssimo, que ela sentia por ti, Ju, foi mais forte que os desígnios da ciência.

No verão passado foi embora. Choraste a morte física da mãe de uma forma muito tua, muito pura, porque sabes que apesar de não a veres ela está sempre contigo. Sempre!

- Mãe Clarisse, Céu! Dizes-me tu! E eu acredito.

E é no final do dia que me ligas, ou momentos antes de dormir para me dizeres:
- Tou! Tás fixe?
- Bou urmir (vou dormir).
- Nana Jesu!

E é assim desde o verão. Gostava tanto de te voltar a ver, Ju. Tanto! Um dia, quem sabe? Sabes, Ju, já valeu a pena, por ti e pelos outros meninos especiais, ter feito esta minha escolha: ser professora da educação especial. Há alturas em que me apetece desistir, que acuso extremo cansaço, por não conseguir fazer mais por vós. Sufocam-me as limitações do sistema e a tonelada de burocracias que o mesmo sistema nos impõe, Ju, e que felizmente nunca compreenderás!

Cegam-me os “papeis”, cegam-me as tentativas de sensibilizar alguns professores para vos integrar nas turmas (ainda os há, Ju, poucos, é certo, mas ainda os há)...

Sabes, Ju, já não me importo com a minha avaliação enquanto professora, porque a avaliação mais fiel tu já a fazes. Tu e todos os outros alunos que passaram por mim, através do vosso amor permanente, e para sempre. Um amor que não cabe em “papeis”, um amor que não conhece o fator tempo. Podem passar “mil anos” mas haverá sempre a memória de um carinho inapagável em que o ontem não existe como passado.

O nosso ontem será sempre hoje e amanhã. Nada nem ninguém poderá apagar a histórias de uns “alunos especiais” com a sua simples professora da… educação especial!

Tenho-vos a todos no meu coração… E sei que também me têm no vosso!

- Nana, tu também, com o Jesus, Ju! A professora gosta muito de ti!

Num... para sempre!
Manuela CunhaProfessora Especializada em Educação Especial e autora dos livros Autismo - Um perturbação pervasiva do desenvolvimento e Semeadores de Afetos" - Vivências Reais de uma professora da Educação Especial.
Mentora, formadora e coordenadora dos projetos: "Escola de Pais Especiais"; "Aprender a ser Pais Felizes com um filho com deficiência"; " Aprender a ser Pais Emocionalmente Inteligentes" e "Sala de Aula Desenvolvimental - Crianças Especiais".
Mestre em Ciências da Educação, no ambito da Inteligência Emocional.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.