APRENDIZ DE UTOPIAS

Saber ler

Como era uso nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os meirinhos da censura. Na capa do livro estava escrito "A Caça aos Coelhos". E foram milhares os caçadores que o compraram...
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Eu poderia furtar-me a reações furibundas e insultos de certos leitores, contornando assuntos "interditos". Mas, da minha experiência de escrita "militante" (nos idos de sessenta e setenta) ficou-me este hábito de escrever o politicamente incorreto...

Durante muitos anos, o compositor Lopes Graça foi perseguido pelos esbirros da polícia política, só por ser homem de escrever verdades. Numa das suas polémicas intervenções escritas, travou-se de razões com um tal Coelho, músico protegido pela Ditadura de Salazar. Publicou um opúsculo escrito de tal modo que chegou aos leitores sem ficar exposto aos cortes do "lápis azul". Esse opúsculo foi um êxito editorial, até ao momento em que a polícia política invadiu as instalações da editora e apreendeu o que restava dos exemplares por vender.

Como era uso nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os meirinhos da censura. Na capa do livro estava escrito "A Caça aos Coelhos". E foram milhares os caçadores que o compraram...

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões díspares. Publiquei um artigo, num jornal diário, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi de muitos professores cartas de elogio e incentivo.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a diretora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola. A senhora diretora leu o que não estava escrito no artigo. E foi mais longe, movendo-me um autêntico processo de intenções.

Há professores que não leem. Outros leem e não entendem o que leem. E bem pior do que não saber ler é utilizar o que não se entende como arma de arremesso, fazendo crer a outros (que não leram, ou não sabem ler) intenções que o autor não teve. Uma sociedade de "grau zero de literacia" (não é só no Brasil que o analfabetismo funcional prospera), é terreno fértil para que indivíduos sem escrúpulos se recusem a discutir a realidade, a partir de outro ponto de vista que não seja o seu.

Ler é diferente de compreender. Ler pressupõe o domínio do vocabulário utilizado, da estrutura sintática do material escrito, do conteúdo. A atitude do leitor e os seus preconceitos, ou seu interesse relativamente ao texto lido, influenciam a interpretação. Ser leitor pressupõe ser capaz de distinguir entre factos e opiniões, captar o significado literal, as asserções diretas, as asserções paralelas, as paráfrases... O domínio da linguagem pode ser afetado pela rigidez de ideias, por carência de capacidade discriminativa. Ser letrado não significa apenas saber ler e escrever, mas ser funcionalmente letrado.

As nossas escolas dispõem de excelentes profissionais, mas albergam, também, docentes cuja iliteracia nos deve inquietar. Enquanto professor de universidade, eu tive a ingrata surpresa de verificar que muitos alunos, que pretendiam ser professores (e que, hoje, o são!) eram incapazes de alinhavar uma ideia, de redigir um parágrafo sem erros ortográficos, de interpretar um texto de complexidade maior.

De que serve ocultar a realidade? Ter um canudo não faz de um licenciado uma pessoa culta. É preciso admitir uma dolorosa realidade: num país de "doutores", nem só entre o povo simples a ignorância prospera... também há "doutores" ignorantes.
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de ducação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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