APRENDIZ DE UTOPIAS

Verdade – Dicionário de Valores

Ainda que disso não tome consciência, a criança age filosoficamente, buscando verdades.
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DICIONÁRIO DE VALORES

Conta-se que um filósofo conversava com o diabo quando passou um sábio com um saco cheio de verdades, do qual uma caiu. Alguém a apanhou e saiu correndo, gritando: Encontrei a verdade! Perante esse quadro, o filósofo disse para o Diabo: Aquele homem encontrou a verdade e, agora, todos vão saber que você é uma ilusão da mente. Mas o Diabo respondeu: Está enganado. Ele encontrou um pedaço da verdade. Com ela, vai fundar mais uma religião. E eu vou ficar mais forte! Quem sofrer de alguma forma de angústia existencial encontrará respostas em Kalil Gibran, ou em Antoine Saint Exupéry. Aqueles que estiverem em situação de dúvida religiosa poderão recorrer à Bíblia, ao Corão ou a outro qualquer livro sagrado. Essa experiência pode constituir-se numa bela harmonia.

Certamente, haverá muitas verdades para a verdade em que acreditamos. Se eu vejo de um modo e o outro vê de outro modo, que se tente ver os dois modos, ver juntos, como Mahatma Gandhi fazia: “A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade”. Não nos esqueçamos que foi a imposição de uma “verdade” única que levou Espinosa ao exílio e Galileu à retratação. José Prat ironiza: “Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro, e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da moderação e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco".

Apesar das distorções da informação cometidas pelos media, a verdade continua sendo verdade. Quando a mentira, tal como a Medusa, contempla o escudo de Teseu e soçobra, é porque reconhece a sua verdadeira face.

Num e-mail recebido de uma professora estava escrito:
— Eu estava numa palestra sua e lhe fiz uma pergunta. Apresentei-me como pedagoga e disse que tinha duas dúvidas. O senhor me respondeu algo assim: Como pode ser pedagoga e ter apenas duas dúvidas? Acredito que todo o ser humano é uma dúvida, uma “metamorfose ambulante”. A dúvida e a humildade são companheiras diletas da verdade, uma mistura sublime. Aceitemos, serenamente, os mistérios por desvendar, sem necessidade de explicações para o inexplicável.

Venho repetindo que o princípio da veracidade deverá nortear todos os projetos educativos. Mas, na boca das crianças, a verdade chega a ser crueldade...
— Ah tia, desculpe! – disse a aluna.
— Porqu, minha filha? – quis saber a professora.
— É que chamei a senhora de idiota – esclareceu a criança.
— Eu não escutei nada – disse a professora, sorrindo.
— Foi só em pensamento... – esclareceu a criança.

Ainda que disso não tome consciência, a criança age filosoficamente, buscando verdades. Verdades como a que reconstitui a história da filosofia dos adultos: Thales afirmava ser a água o elemento fundamental da matéria. Anaxímenes acreditou que fosse o ar. Para Xenófanes, o elemento fundamental era a terra. Heraclito afirmou que era o fogo. E chegou Empédocles, para explicar que o mundo é a combinação de água, ar, terra e fogo. As crianças e os loucos falam verdades que a sua época permite vislumbrar. Talvez por isso, os loucos sejam internados em hospícios e as crianças em escolas. Permitam-me, pois, que vos narre mais um episódio, confirmação da infantil prática da verdade.

Uma professora tentava convencer os alunos a comprarem uma cópia da foto do grupo:
— Imaginai que bonito será quando vocês forem grandes e todos dizerem “Ali está a Catarina, é advogada, este é o Miguel e, agora, é médico”.
Uma vozinha, vinda do fundo da sala, fez-se ouvir:
— E ali está a professora... Que já morreu.

José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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