APRENDIZ DE UTOPIAS

Tolerância – Dicionário de Valores

Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre
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O termo tem origem na palavra tolerare, que significa suportar pacientemente. Mas será possível aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, em que a verdade e a mentira se equivalem? Talvez se deva considerar uma tolerância mais próxima de algo que dá pelo nome de... aceitação. Vejamos.
Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? Que diferença haverá, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém seja homossexual, ateu ou adepto de uma equipa que compete com a nossa equipa? Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a uma “ditadura da infância”, ao colapso ético face às exigências e reivindicações dos infantes? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres? Será oportuno saber como alguns autores se posicionam perante essa tensão entre tolerar e aceitar. Edmund Burke avisa-nos que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude.

Jaime Luciano Balmes diz-nos que não é tolerante quem tolera a intolerância. Karl Popper sintetiza a tensão numa frase: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. E dois dos maiores mestres portugueses do século XX assim se pronunciam: “Porque tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor” (Agostinho da Silva); e “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro” (José Saramago).

Que me seja perdoada a presunção, mas me atreverei a fazer eco das palavras do saudoso escritor para contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto escolar. É comum ouvir a expressão Educação democrática. Correndo risco de suscitar alguma polémica, arrisco perguntar: as decisões tomadas pelo corpo de educadores de uma escola deverão ser tomadas pela maioria (democrática) ou por consenso? A minoria a quem foi imposta uma decisão democrática respeitará (aceitará) tal decisão, cumprirá aquilo que foi decidido? Dito de outro modo: as decisões deverão ser pautadas na tolerância ou na aceitação? Os brasileiros parecem tender à tolerância. Talvez por ser mais cómodo ir ao aeroporto insultar a equipa que perdeu uma partida de futebol do que manifestar na rua, na praça, em todo o lugar, a não aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, de crimes contra o erário público. É mais fácil do que intervir quando um energúmeno lança uma lata vazia pela janela do carro ou quando uma justiça obtusa permite que o político corrupto beneficie de impunidade. O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influencia o carácter do povo, polui as mentes com valores egoístas. O povo brasileiro sofre de uma bovina tolerância face aos atos imorais dos indigentes morais, que conspurcam a nobre arte de fazer política.

Li (já não sei onde) que a ética assemelha-se a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveremos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou aceitar a necessidade de fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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