NOTÍCIAS

Problemas na Matemática

O novo programa de Matemática A para o 10.º ano está no centro da discussão. Conteúdos considerados “abstratos”, “formais” e “elitistas” preocupam os professores.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

É o calcanhar de Aquiles para muitos mais alunos do que seria aceitável. Para escapar à matemática há carreiras desde logo postas de parte. Perdem-se vocações. E oportunidades de emprego. O Ministério da Educação e Ciência (MEC) anunciou a criação de um novo programa para a disciplina no ensino secundário. Até agora, a mudança centra-se apenas na Matemática A, aplicada às ciências naturais, economia e engenharia. A discussão pública encerrou um mês após o anúncio da proposta, a 2 de dezembro de 2013.

Para perceber as consequências destas alterações programáticas, ouvimos Jaime Carvalho e Silva, professor da Universidade de Coimbra e investigador de renome internacional na área da Matemática “pura”. Entre 1997 e 2003 esteve envolvido na elaboração e acompanhamento dos, então, novos programas de Matemática do ensino secundário. Colhemos ainda o testemunho de alguns professores. Olhares de quem está no terreno, diariamente, a ensinar a disciplina mais temida.

Erros do novo programa

Jaime Carvalho e Silva esteve no centro da última grande reforma feita aos temas lecionados a Matemática nas escolas secundárias. Agora, dá-nos a sua opinião sobre a proposta de alteração ao programa de Matemática A, em vigor desde 2003.

As críticas começam logo pela “insuficiência de tempo” para a discussão. Recordando o cenário que antecedeu a mudança de programa em 1997, Jaime Carvalho e Silva contrasta a opção tomada agora pelo MEC com a daquela altura: “Fizeram-se debates públicos, com painéis de escolas para aferir o que era preciso alterar em função da experiência e da primeira versão do programa.”

As diferenças não se ficam pela forma como se processou a discussão pública. Jaime Carvalho e Silva surpreende-se com o facto de a proposta ministerial ignorar importantes relatórios de avaliação, tanto de competências dos alunos como de conteúdos. Fontes de informação úteis. “Não é citado o PISA, nem o TIMSS [Trends in International Mathematics and Science Study], nem nenhum estudo internacional comparativo que permita fundamentar se a evolução pretendida para os programas de Matemática é correta ou não.”

Jaime Carvalho e Silva também não encontra indícios de que a proposta apresentada pelo MEC se tenha baseado na experiência portuguesa. “Há 10 anos que não é produzido nenhum estudo sobre a aplicação do programa de Matemática, existem apenas relatórios dos exames.” Só a falta de suporte na prática letiva parece justificar a extensão dada aos conteúdos presentes do programa, conclui o investigador. “Muita coisa não será exequível”, garante. Até porque a proposta acrescenta muitos novos temas, mantendo outros em vigor desde 2003. Um somatório de dificuldades potencialmente evidentes na sala de aula. Da sua experiência como orientador de estágios, Jaime Carvalho e Silva tem ouvido de perto as queixas dos professores sobre a extensão do programa: “Agora só se vão agravar.”

Carga formal e abstrata
Tal como em todos os campos, há países exemplares pelo sucesso conquistado no ensino da Matemática. Onde os alunos obtêm os melhores desempenhos em avaliações internacionais. E com matemáticas bem diferentes daquela prevista para o ensino português. Jaime Carvalho e Silva conhece bem o que se ensina nos tais “países de referência”. Por isso não hesita em fazer comparações: “Este programa introduz uma carga formalista e abstratizante que não existe em lado nenhum.” Seja na Ásia, Europa ou Estados Unidos da América. Daí a pergunta colocada a quem tem o dever de responder: “A que propósito existe esta orientação em Portugal?”

Por detrás da proposta do MEC estão os mesmos autores do programa de Matemática para o ensino básico, implementado este ano letivo. Uma equipa conhecida nos meandros científicos “por defender uma perspetiva de rigor extremo”. Plasmada na ideia de exigir mais para que os alunos se sintam obrigados a aumentar o tempo de estudo. Como se ao duplicar a matéria fosse garantida a duplicação do esforço. “Mas isto não acontece em nenhum país do mundo e não vai acontecer em Portugal”, assegura Jaime Carvalho e Silva.

Para entender o impacto negativo desta “proposta pesadíssima”, é preciso perceber o que torna o 10.º ano um momento “muito difícil” no percurso escolar de qualquer aluno. Desde logo, marca a transição do ensino básico para o secundário. Há mudanças de escola, ainda que possa não haver de agrupamento. As turmas são mais heterogéneas e acolhem alunos de todas as proveniências.

Circunstâncias tidas em conta quando Jaime Carvalho e Silva coordenou a equipa responsável pela elaboração do programa de Matemática em 2003. “A pedido de muitos professores aligeirámos a matéria do 10.º ano para lhes dar margem de manobra. No 11.º ano não fizemos isso, porque o aluno já tem obrigação de conseguir aumentar o ritmo de estudo.”

Fuga à disciplina
Formalismo, somado à extensão do programa, multiplicado pelas dificuldades presentes no funcionamento das escolas conduzirá ao “desastre”, insiste Jaime Carvalho e Silva. Basta pensar que os novos temas requerem mais tempo para trabalhar com os alunos. No entanto, a carga horária permanecerá a mesma. O investigador adivinha o insucesso. E a inevitável fuga dos estudantes para vias de ensino onde a disciplina não seja lecionada.

Diz Jaime Carvalho e Silva: “Se pensarmos que atualmente a Matemática A é obrigatória no acesso ao ensino superior a todos os cursos de ciências, engenharia e economia, com a fuga para as Humanidades e os cursos profissionais não vai haver candidatos suficientes para as universidades do país.”

O perigo do afunilamento de escolhas é real. E pode ser prejudicial para o país. As estatísticas da União Europeia alertam Portugal para a necessidade de aumentar o número de jovens formados nas áreas da ciência e da tecnologia. Jaime Carvalho e Silva teme que o estreitamento da base de recrutamento se faça logo no 10.º ano, com a fuga à Matemática. E assim, se venha a verificar no país a mesma falta de técnicos que assombra o Brasil, obrigado a recrutar quadros na América Latina e em Portugal.

Mas este afunilamento de carreiras, de que fala Jaime Carvalho e Silva, não é novidade em Portugal. Problemas semelhantes marcaram a década de 80. “Tínhamos um programa com esta orientação formalista. Funcionou mal, gerou rejeição, abandono e insucesso.” E, para quem ainda acredita nesta proposta para resolver os problemas do insucesso à disciplina, o professor esclarece: “Esta orientação formalista existiu também noutros países e foi abandonada por uma visão mais prática da matemática, com menos discussões abstratas e um campo de aplicações mais alargado.”

Professores preocupados
Entram na sala de aula conscientes do temor que a Matemática causa na maioria dos alunos. E do desafio de ensinar uma disciplina difícil. Por isso, esperam dos conteúdos dos programas qualidade e não quantidade.

Para Raul Gonçalves, professor de Matemática há 22 anos, a proposta de alteração ao programa do 10.º ano surge na “hora certa”, mas “de forma totalmente errada”. Os dez anos que separam esta intervenção curricular da anterior foram “tempo mais que suficiente para uma verdadeira renovação em função da experiência acumulada”. Mas não foi isso que aconteceu, garante o professor: “Esta proposta faz vingar o que uma parte menor da comunidade educativa, mais científica, pensa que deve ser um programa de Matemática.”

Uma Matemática “formal e abstrata, construída de forma dedutiva, sem olhar à modernidade”, foi o que Raul Gonçalves encontrou na primeira, e até ver última, versão do novo programa. “Não apresenta qualquer vantagem em relação ao anterior para que os alunos gostem de aprender e aprendam a disciplina.” Pior é a introdução “abrupta” no início do 10.º ano do tema da Lógica. “Reavivado de programas antigos em que não foi bem-sucedido”, recorda. E a inclusão de novos temas “que ocupam em teoria, muito mais tempo, e na prática ainda mais do que os que saem.”

Paula Teixeira precisa recuar a 1980 para encontrar um programa muito semelhante ao que agora é proposto pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC). Na altura era aluna do professor João Pedro da Ponte, atual diretor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, e acompanhou o seu esforço na alteração do programa. Tem, por isso, bem presentes os debates promovidos na época, as fragilidades e erros apontados e os grupos de reflexão sobre o caminho a seguir. Hoje, com 32 anos de carreira no ensino, lamenta presenciar o que acredita ser um retrocesso: “É a esse tempo que esta proposta nos conduz.”

A “excessiva extensão” é a crítica mais sublinhada por Paulo Correia ao programa apresentado pelo MEC. “Indica claramente uma opção pela valorização da quantidade de temas matemáticos a estudar, em detrimento da qualidade das aprendizagens.” Porém, não será este o único ponto negativo salientado pelo professor de Matemática.

“É uma proposta pouco ambiciosa, porque propõe apenas temas, não identifica abordagens preferenciais, nem metodologias ou instrumentos tecnológicos que conduzam a melhores resultados.” Pelo contrário, assegura: “Promove uma abordagem assente num formato de transmissão e repetição, induzindo a práticas letivas usadas há várias décadas que estavam a ser abandonadas.”
Andreia Lobo
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.