PEDIATRIA

Vacina contra o vírus do papiloma humano no genero masculino. qual o interesse?

A associação clara entre HPV e outras doenças, e o facto de os homens serem também responsáveis pela transmissão do vírus aos seus parcei-ros sexuais, faz com que a vacinação do rapaz confira não só proteção individual como proteção indireta dos(as) parceiros(as).
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¿O que é o vírus do papiloma humano?
O vírus do papiloma humano (HPV) é um vírus cuja transmissão ocorre predo-minantemente por via sexual, estimando-se que mais de 50% dos indivíduos sexualmente ativos irão entrar em contacto com o HPV ao longo da sua vida. A Organização Mundial de Saúde estima que 1 em cada 10 homens e mulheres é infetado anualmente pelo vírus.

Dos mais de 200 tipos diferentes identificados de HPV, cerca de 45 tipos são responsáveis por infetar as células do revestimento epitelial do trato anogenital masculino e feminino, e são classificados em vírus de “baixo risco” e “alto ris-co”, consoante o seu potencial para desenvolver cancro.

A maioria das infeções por HPV são assintomáticas e autolimitadas, no entan-to, a infeção por HPV está associada a múltiplas patologias, quer benignas (verrugas genitais, lesões intraepiteliais de baixo grau, papilomatose laríngea recorrente) quer malignas (cancro do colo do útero, do ânus, da vulva e vagi-na, do pénis e da orofaringe). O HPV é responsável por cerca de 5% de todos os cancros.

A infeção pelo vírus está associada a uma substancial morbimortalidade e ele-vados custos de tratamento.

Como prevenir as doenças por HPV?

No género feminino, existe o rastreio organizado do cancro do colo do útero, no entanto, no género masculino não existe nenhum rastreio para deteção precoce de cancros relacionados com o HPV.

Atualmente, existem três tipos de vacinas contra o HPV:
- Cervarix®: vacina bivalente com proteção contra dois tipos de HPV, o 16 e 18;
- Gardasil®: vacina quadrivalente contra os tipos 6,11,16 e 18 de HPV;
- Gardasil®9: vacina nonavalente contra os tipos 6,11,16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58.

Apenas a Gardasil® e a Gardasil®9 estão aprovadas para uso no género mas-culino. Mesmo numa pessoa que tenha sido previamente infetada com algum tipo de HPV, a vacinação confere proteção contra os restantes tipos de HPV que estão incluídos na vacina.

Qual o esquema da vacinação contra o HPV?
A resposta imunológica contra o HPV é melhor quando a vacina é aplicada em idades mais jovens, idealmente antes do início da atividade sexual, conferindo nesta fase maior proteção contra os tipos virais. Aqueles que já iniciaram ativi-dade sexual beneficiam também da vacinação.

A Gardasil® e a Gardasil®9 apresentam o seguinte esquema para vacinação no género masculino, que varia conforme a idade:
- dos 9 aos 15 anos, esquemas de 2 doses: 0 e 6 meses;
- depois dos 15 anos, esquema de 3 doses: 0, 2 e 6 meses.

Atualmente não existe evidência suficiente que recomende a realização da Gardasil®9 nos indivíduos que tiverem completado previamente outro esque-ma vacinal contra HPV.

Quais os efeitos laterais da vacina?
As vacinas são seguras e não causam infeção ou doença pelo HPV. Podem estar associadas, com alguma frequência, a efeitos laterais relacionadas com a injeção (dor, eritema e prurido no local), febre ou dor de cabeça, que tendem a ser ligeiros a moderados e a desaparecer rapidamente de forma espontânea. Não foram identificadas mortes associadas à toma da vacina.

Os efeitos laterais após a administração da vacina são mais comuns em idades mais jovens. Recomenda-se que os indivíduos vacinados fiquem sob vigilân-cia nos primeiros 15 minutos após a administração da vacina.

Porquê vacinar os rapazes contra o HPV?
Uma revisão sistemática realizada na Europa no ano de 2014 sobre a infeção por HPV no género masculino verificou uma prevalência de 12,4% na popula-ção geral do género masculino e de 30,9% na população de risco (homens que têm sexo com outros homens, homens imunossuprimidos e homens cujas parceiras tiveram diagnóstico de lesão genital por HPV).

A associação clara entre HPV e as doenças anteriormente referidas, e o facto de os homens serem também responsáveis pela transmissão do vírus aos seus parceiros sexuais, faz com que a vacinação do rapaz confira não só proteção individual como proteção indireta dos(as) parceiros(as).

A vacina contra o HPV mostrou-se eficaz na prevenção de verrugas genitais, neoplasias intraepiteliais anais (precursoras de cancro) e cancro anal no género masculino.

Tendo em conta a progressão lenta de alguns dos cancros associados ao HPV e a presença da vacina no mercado há relativamente pouco anos, é necessá-rio aguardar por estudos que demonstrem a eficácia da vacina na diminuição da incidência de cancros como o do pénis e da orofaringe.

E qual a realidade em Portugal e no resto do Mundo?
A vacina foi licenciada para uso no género masculino pela Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, e pela European Medicines Agency (EMA), na Europa, para prevenção de verrugas genitais, neoplasia intraepitelial anal e cancro anal.

Apesar do impacto do HPV e da demonstração da sua eficácia em ambos os géneros, a vacina apenas se encontra recomendada para ambos os géneros nos programas de vacinação de alguns países.

A vacina foi incluída nas recomendações e é gratuita para o género masculino em idade pediátrica, nos seguintes países:
- Estados Unidos da América, desde 2011;
- Algumas províncias do Canadá e as regiões de Emília-Romanha e Sicília em Itália, desde 2012;
- Austrália, região da Saxónia na Alemanha e Irlanda, desde 2013;
- Áustria, desde 2014;
- Suíça e Israel, desde 2015.

Desde 2016 em Inglaterra, a vacina é também gratuita no género masculino até aos 45 anos, mas apenas para homens que têm sexo com outros homens, por serem considerados um grupo de maior risco de desenvolver cancro anal.

Em Portugal, a vacina é gratuita e está incluída no Programa Nacional de Va-cinação (PNV) apenas para o género feminino.

A Sociedade de Infeciologia Pediátrica e a Sociedade Portuguesa de Pediatria, recomendam, a título individual, a vacinação dos adolescentes do género masculino como forma de prevenir as lesões associadas ao HPV.

Conclusão
A vacina contra o HPV traduz-se numa possibilidade de redução da morbimor-talidade associada às doenças causadas por este vírus.

Apesar de alguns países defenderem que o mais importante é garantir uma alta cobertura vacinal no género feminino, adquirindo assim o género mascu-lino uma “imunidade herdada” pela vacinação feminina, levantam-se as se-guintes questões sobre a proteção contra o vírus:
- O que acontecerá à proteção do género masculino se a taxa de cobertura for baixa no género feminino?
- E aos homens que têm sexo com outros homens?
- Será correto deixar-se a proteção dos homens dependente da vacinação das mulheres?
    
É de extrema importância a realização de estudos que demonstrem um claro custo-benefício na vacinação universal, de forma caminhar-se no sentido da sua implementação, alcançando-se assim uma equidade entre os géneros.

Joana Bouça, com a colaboração de Susana Carvalho, Pediatra do Servi-ço de Pediatria do Hospital de Braga
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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