PEDIATRIA

Pé que nasce torto quase sempre se endireita!

As deformidades posicionais como problemas rotacionais, alterações do eixo dos membros e pés planos são frequentemente alvo de grande preocupação por parte dos pais, embora raramente tenham significado patológico, sendo, na maioria das vezes, variantes do normal.
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O conceito de que o design do sapato poderia ser “terapêutico” surgiu baseado na ideia de que o crescimento do pé necessita de suporte e de que o pé pode ser moldado por “sapatos corretivos”. Contudo, ao longo dos anos, vários estudos têm demonstrado que tal não é verdade. Em primeiro lugar, a evidência sugere que indivíduos que passam mais tempo descalços têm pés mais fortes, mais saudáveis e com menos deformidades que os que usam calçado. Segundo, vários estudos demonstram que o arco do pé se desenvolve perfeitamente nas crianças independentemente do calçado. Por último, estudos não mostraram diferenças entre crianças com pés planos flexíveis tratadas com “calçado corretivo” e aquelas que usaram sapatos flexíveis normais.  

Caminhar com os “pés para dentro”
Esta alteração está frequentemente relacionada com uma anteversão femoral exagerada, mais acentuada entre os 4 e os 6 anos de idade, e que, geralmente corrige de forma espontânea ao longo do tempo. Está muito associada ao hábito de a criança se sentar com as pernas em W (“sentada com as pernas para fora”). Sapatos ortopédicos, palmilhas ou talas noturnas são ineficazes, sendo a atitude mais correta incentivar a criança a adotar a postura de “perninhas à chinês” quando está sentada, por forma a contrariar esta alteração.

Joelho varo (“pernas arcadas”) ou Joelho valgo (“andar com os joelhos para dentro”)
Trata-se de uma deformidade no plano frontal dos joelhos, com alterações no ângulo de alinhamento dos joelhos. Este ângulo de alinhamento pode sofrer variações de pessoa para pessoa sem que tal signifique alguma doença subjacente, e altera-se com a idade. Habitualmente, durante o primeiro ano de vida é frequente o joelho varum (“pernas arcadas”), que vai corrigindo espontaneamente até aos 2 anos. A partir desta altura e até aos 11 anos de idade, é frequente o joelho valgo (joelhos juntos e pés afastados), que na maioria dos casos evolui até à correção espontânea. Portanto, habitualmente, não é necessária qualquer intervenção nestas situações (exemplos de sapatos ortopédicos ou talas), sendo apenas indicada a referenciação à consulta de ortopedia em casos de apresentações/evoluções atípicas ou graves.

Pé plano
Caracterizado por uma grande área de contacto plantar, habitualmente associado a um calcanhar valgo (“para dentro”) e redução da altura do arco do pé. Quando a criança está de pé, observamos os pés planos e o calcanhar valgo, contudo quando a criança se coloca em pontas dos dedos, verificamos que o arco do pé aparece e que os calcanhares “vão para fora”. Nesta situação classificamos o pé como pé plano flexível ou fisiológico, que está presente em quase todas as crianças, e em cerca de 15% dos adultos, sendo muitas vezes uma característica familiar. Tal como o nome indica, é uma situação fisiológica, sem nenhuma patologia subjacente, e não requer qualquer tratamento (sapatos ortopédicos ou palminhas), nem será motivo de incapacidade para a criança.
Nas situações em que não existiu resolução espontânea aos 7 anos, com desconforto associado, as crianças/adolescentes deverão ser orientadas para consulta de Ortopedia para eventual correção.

Então, em que situações estão indicados os “sapatos ortopédicos”?
Algumas modificações no calçado poderão ter algum benefício em determinadas situações. Contudo, estas modificações não são “corretivas”, produzem é efeitos imediatamente demonstráveis, como por exemplo:
1. Uso de palmilhas elevatórias para o membro mais curto permite igualar o comprimento dos membros e melhorar a marcha;
2. Inserções no sapato de crianças mais velhas ou adolescentes com deformidades de pé rígido permitem a redistribuição do peso, suportando-o mais uniformemente sobre a sola do pé, aliviando a dor e protegendo a pele.
3. Uso de solas/palmilhas almofadadas para absorção do choque, no tratamento de síndromes de uso excessivo, com dor no calcanhar durante a infância tardia e adolescência.  

E como escolher o calçado correto para as crianças?
Mais importante que qualquer calçado corretivo é a utilização de calçado adequado ao pé da criança, de forma a permitir o seu correto desenvolvimento e evitar deformidades, com importantes implicações na idade adulta.
O calçado ideal deverá ser:
- Quadrangular, para se adequar à normal configuração do pé, com espaço abundante para os dedos dos pés;
- Flexível, para permitir o movimento livre do pé;
- Raso, sem elevação do salto;
- Poroso, para evitar maceração da pele e infeções fúngicas;
- Causar tração moderada, causando uma fricção da sola semelhante ao pé descalço. Solas escorregadias ou que causem demasiada ficção deverão ser evitadas;
- Leve para reduzir o gasto energético;
- A parte traseira do calçado deve ser alta, acima dos maléolos, para evitar a saída do retropé de dentro do calçado durante a marcha;
- Esteticamente aceitável para a criança;

Marta Ribeiro Silva, com a colaboração do Dr. Eduardo Almeida, Ortopedista Infantil do Centro Hospitalar do Porto
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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