EDUCAÇÃO

Alguma considerações sobre o horário escolar

As últimas semanas foram marcadas para estudantes, famílias e professores, entre outros, pela preocupação com o horário escolar.
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Uma vez mais, tal como nos anos anteriores, as últimas semanas foram marcadas para estudantes, famílias e professores, entre outros, pela preocupação com o horário escolar. Dele dependerá muito do quotidiano profissional e familiar de quantos por ele são abrangidos.


1. A primeira refere-se ao drama dos professores para quem o horário não é só uma preocupação mas é mesmo um drama. Será que vão ter horário, ou seja, colocação, ou seja, trabalho? Será que, em caso afirmativo, vão ficar em local próximo da residência ou (mais uma vez) terão que andar com a casa às costas, eventualmente numa (nova) separação da família, incluindo filhos? Será que terão um horário completo ou o número de horas do seu horário corresponderá a um vencimento que quase não/nem dará para pagar as deslocações? Não, não estou a falar de professores acabados de formar, o que já seria mau. Estou a referir-me aos professores mais jovens que existem nas escolas, na casa dos 40 (ou lá perto). O drama de uma vida de casa às costas, de famílias separadas, de insegurança a cada ano; uma “vida”, literalmente uma vida, em que os anos passam e a insegurança, a precariedade e a angústia são companheiras diárias de profissão e de organização da família. E passam os trintas (de idade) e passam os quarenta e chegam ainda para muitos os cinquenta neste drama. Mas nas salas de aula, os professores estão lá, de uma forma geral, sem que alunos ou famílias suspeitem destes dramas, trabalhando com entrega e profissionalismo.

2. A segunda consideração começa com a lembrança de que horário escolar é horário escolar. Marca horas. Horas de começo das aulas e horas de fim das aulas. Existe regulamentação para a marcação de faltas quando há atrasos. Essa regulamentação, que faz com que os professores (justamente) tenham falta marcada quando se atrasam e precisem de a justificar nos termos da lei, raramente (e bem, quando não há exagero) é aplicada com tanto rigor no caso dos estudantes. Contudo, também o Estatuto do Aluno determina os motivos justificativos de faltas. Mas todos os anos há estudantes que, sistematicamente, chegam atrasados às aulas, particularmente aos primeiros tempos. “Foi o trânsito.”, “O despertador não tocou.”, “A minha mãe atrasou-se a trazer-me.”: estas são algumas justificações frequentes, de estudantes que (ainda) apresentam justificação ao professor. Questionados os pais (quando o são) muitos desculpabilizam os filhos e atribuem a si a responsabilidade, porque é muito difícil o início do dia, levantar os filhos da cama, mais o trânsito que não ajuda. Pensam, assim, que se podem justificar essas faltas. Estes motivos não estão contemplados no Estatuto do Aluno e, no caso dos pais (destes ou de outros), não seriam aceites por qualquer patrão, especialmente se os atrasos fossem diários. Não obstante, muitos destes pais revoltam-se contra os professores/diretores de turma que querem injustificar faltas devido a atrasos regulares. Não compreendem que a pontualidade é um dos aspetos da responsabilidade que devem cultivar nos seus filhos e que a escola também tem a obrigação de não negligenciar. Muito menos compreendem que cada aluno que chega atrasado a uma sala de aula não apenas se prejudica a si mas também aos colegas, pois interrompe uma aula que estava já iniciada. Se soubessem quanto mais trabalho e preocupações tem o professor/diretor de turma que considera essas faltas (justamente) injustificadas do que aquele que opta por as ignorar, talvez compreendessem que, com a injustificação do que não é justificável, esses docentes apenas desejam promover o desenvolvimento da responsabilidade dos jovens e a sua formação académica e global.
Termino relembrando a evidência com que comecei: o novo ano letivo já se iniciou. E acrescento uma última consideração. Foram prometidas inovações, modificações, melhorias. Veremos como elas se consubstanciarão e se a prometida carga positiva dessas novas medidas se concretizará. Com muita sinceridade (mas bastante ceticismo, desenvolvido ao longo de mais de uma década) desejo que 2017/2018 seja um ano de mudança positiva para a escola pública e para todos os que a habitam e suas famílias.
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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