PSICOLOGIA

Voluntariado jovem no verão: uma excelente combinação!

“Hoje, enquanto calcorreava os corredores daquele hospital inóspito pensava obsessivamente: se cá estivesse para ganhar dinheiro, imediatamente procuraria um voo que me levasse de volta para Portugal. Como é possível ter de correr atrás de médicos cooperantes para que sejam feitos curativos? Feridas em decomposição, falta de medicamentos, a dor da guerra a todo o instante… como sobreviver? Luanda, 3 de agosto de 1994"
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Numa arrumação recente de papelada esquecida, encontrei este registo num caderninho de notas soltas, que me remeteu para o meu passado universitário e para os dias passados no Hospital Josina Machel, em Luanda, em tempo de férias académicas. Experiência duplamente rica, não só pelo confronto com a vida duríssima de um povo em guerra, mas também pela necessidade de viver e coordenar um grupo constituído por pessoas com sensibilidades muito díspares.
A minha vida estudantil foi sempre pautada por experiências de voluntariado. Nunca esquecerei os verões de 1993 e 1994 passados, respetivamente, na Guiné e em Angola, dada a minha integração no Gas Africa (Grupo de Ação Social em África). O que me deram estas experiências, tão distantes do que fora a minha realidade até então? Contribuíram de forma determinante para eu ser quem sou. Muito do que hoje sei, aprendi lá, em contextos marcados pela dura adversidade e, por isso, geradores de confrontos interiores e de questionamento intenso.

No trabalho desenvolvido com os alunos, nomeadamente no âmbito da Orientação Escolar e Profissional, partilho estas experiências e incentivo-os a envolverem-se em experiências de voluntariado. Considero que estas experiências se têm vindo a tornar ainda mais urgentes e necessárias do que no passado, dado que a imaturidade e a falta de autonomia dos jovens é preocupante e tem vindo a acentuar-se com a passagem dos anos. Quem, como eu, trabalha há imensos anos em contexto escolar, sabe bem do que falo.

Porquê falar deste tema no verão? Porque as férias são um período excelente para incentivar os jovens a realizarem experiências de voluntariado, dado que estas contribuem para o ganho de experiência e para o desenvolvimento de novas competências. O crescimento pessoal, a noção de responsabilidade e a preocupação com o outro são dádivas importantes que decorrem deste tipo de atividades, que é importante promover e incentivar. É de referir que são cada vez mais as organizações que recebem voluntários jovens, nomeadamente no período de férias.

Poderemos também olhar para estas experiências de voluntariado como mais-valias a longo prazo, quando o momento de procurar emprego se aproximar. Quem fez voluntariado e o regista no seu currículo vai ser provavelmente percecionado pelo futuro empregador como proativo, dado que as suas atividades enquanto voluntário traduzem vontade de trabalhar e/ou espírito de equipa. Além disso as atividades de voluntariado promovem o desenvolvimento de soft skills (por exemplo, capacidade de trabalho em equipa, flexibilidade, boa gestão do tempo, bom relacionamento interpessoal, capacidade de pensamento crítico e resolução de problemas, capacidade comunicativa), ou seja, de competências que, embora não estejam diretamente associadas ao desempenho de uma determinada atividade profissional, influenciam o seu desempenho de uma forma positiva.

Muitas outras vantagens poderiam ainda ser elencadas relativamente ao trabalho voluntário, nomeadamente o networking (criação de uma rede de contactos profissionais). Uma boa rede de contactos pode gerar oportunidades de emprego ou de troca de experiências e conhecimentos.

Falando agora na primeira pessoa, diria que as muitas atividades de voluntariado em que participei me tornaram uma pessoa diferente, mais empática, descentrada e capaz de olhar o mundo e as pessoas sem preconceitos!
Adriana CamposLicenciada em Psicologia, pela Universidade do Porto, na área de nnConsulta Psicológica de Jovens e Adultos, e mestre em Psicologia nEscolar. Concluiu vários cursos de especialização na área da Psicologia,n entre os quais um curso de pós-graduação em Psicopatologia do Desenvolvimento, na UCAE. Atualmente, é psicóloga no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira, para além de dinamizar ações de formação em diversas náreas.
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