EDUCAÇÃO

Dar lugar aos novos: a passagem de testemunho dos professores-avós

O atual corpo docente das nossas escolas de todos os níveis de ensino tem em comum uma característica que os faz ser conhecidos como “professores-avós”.
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Quando comecei a trabalhar, há quase 37 anos, ainda sem filhos, lembro-me da convivência entre professores tão jovens como eu (na casa dos 20) com professores-pais/mães de crianças pequeninas, um pouco mais velhas e até adolescentes, repartidos pelas gerações dos 30 e dos 40 anos. Havia alguns docentes na casa dos 50, que podiam já ter netos, mas eram a exceção.

Hoje em dia, um professor de 40 anos é um docente jovem. Abaixo disso, uma absoluta raridade. Um estudo recente mostra que, em 2015, 39% dos docentes do Ensino Básico e Secundário tinham 50 anos ou mais. É a geração dos professores-avós. O envelhecimento da classe docente e os seus efeitos nefastos é um tema que, felizmente, tem sido bastante debatido, associando-se-lhe outro tema crucial, o da necessidade imperiosa de rejuvenescimento da classe docente. Os dois problemas estão interligados, bem como as suas soluções.

Repito alguns argumentos que têm sido lançados neste debate público.

1. A profissão docente é altamente desgastante, um ponto que acredito ser difícil de compreender por quem não a exerce. Vejamos:

– Estar numa sala de aula, perante turmas que chegam a ter 30 alunos, tendo que lecionar conteúdos de forma adequada ao grupo e a cada aluno; tendo que atentar ao relacionamento com cada aluno, com o grupo-turma e dos alunos entre si; tendo que assegurar a disciplina necessária à garantia do ambiente de ensino-aprendizagem; tendo que lidar a todo o momento com situações imprevistas (e até imprevisíveis) e dar-lhes resposta imediata.

– Passar por várias salas de aula, por várias turmas, muitas vezes por várias disciplinas e diferentes níveis de escolaridade, que se sucedem ao longo do dia e ao longo dos dias da semana. Conhecer (e não apenas o nome a as feições) “30 alunos X nº turmas” e a todas essas crianças ou jovens dar o atendimento individualizado de que carecem e a que têm direito.

– Despender em casa muitas horas de trabalho a preparar aulas e a corrigir trabalhos dos alunos, depois de terminada a jornada de trabalho diária e semanal.

– Querer contribuir para o sucesso dos seus alunos e sentir-se permanentemente responsável por isso, mesmo que as adversidades sejam muitas.

– E a burocracia inútil que se acrescenta e que dificulta os desígnios de qualquer professor que pretenda contribuir para a formação e o sucesso dos seus alunos? As muitas reuniões, os muitos papéis, as muitas grelhas?

– E a necessidade de desempenhar, muitas vezes no mesmo dia, funções tão diferentes como a organização de atividades complementares das aulas (visitas de estudo, concursos, festas); de atender encarregados de educação, tantas vezes fora do seu horário para comodidade das famílias; de trabalhar na sala de estudo, biblioteca, gabinete disciplinar, apoio a alunos com necessidades educativas especiais, apoio tutorial, etc.? A necessidade de, ao longo do dia de trabalho, representar papéis tão diversos quão diversa é a necessidade de se preparar intelectual e emocionalmente para os desempenhar?

– Será humano pedir a uma pessoa de 60 anos que continue a desempenhar estas funções (salvaguardando as felizes exceções que aí chegam com vitalidade suficiente)?

2. Numa escola a riqueza do corpo docente faz-se (também) de diversidade etária. Não querendo colocar esta ideia de uma forma absolutamente dicotómica e, por isso, redutora, os mais jovens trazem ideias novas, enquanto os mais velhos têm a riqueza da experiência. A geração mais velha vai passando o testemunho às mais novas e esse intercâmbio produz rejuvenescimento, maturidade, conhecimento e enriquecimento de todos os que vivem esse processo. Em última análise, os alunos vão beneficiar porque terão melhores professores, mais reflexivos e mais conscientes das suas práticas. Assim aconteceu quando comecei a trabalhar. Quando nas escolas havia professores nas gerações dos 20, 30, 40 e 50 anos, mas já não na dos sessenta.

Este tipo de argumentos não tem chegado aos ouvidos do poder. E, entretanto, nas escolas, o corpo docente envelhece cada vez mais (o mesmo sucede no ensino superior) e o rejuvenescimento não se faz. A opção pelos cursos de ensino perde também atração, por ser uma porta para o desemprego. Temo que se chegue uma altura em que não haja novos professores para substituir os que, um dia, vão reformar-se mesmo, ainda que consigam trabalhar até à idade-limite. E depois?

Urge dar (também) lugar aos novos, restabelecer, nas escolas, a coexistência de professores de diversas gerações, cada uma delas contribuindo para o enriquecimento das outras, da escola e da educação.
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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