EDUCAÇÃO

Vamos a contas!

Não gosto de pensar na educação como “contas”, porque partilho da opinião de que a educação não se conjuga com o conceito de “custos” mas sim com o de “investimentos”, embora concorde que nem toda a aplicação de dinheiro resulta em real investimento na melhoria da educação.
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Muito se tem falado no envelhecimento da classe docente e dos seus efeitos nefastos. A necessidade de antecipação da idade da reforma dos professores, daí decorrente, conjuga-se com outra necessidade premente: a de rejuvenescimento da classe docente. Os argumentos desta discussão, que, felizmente, vai ganhando terreno público, parecem não conseguir chegar aos ouvidos do poder. Num artigo próximo desenvolverei esta temática. Por agora, vou falar de “contas”.

De acordo com estudos recentes, o burnout vai alastrando nas escolas. Vamos, a propósito desta doença e de outras que afetam docentes com mais idade, falar de contas. Vamos ver se a aposentação aos 40 anos de descontos (ou até mesmo aos 36) e um mínimo de 60 anos de idade, conforme foi proposto em 2016 por petições levadas à Assembleia da República e aí rejeitadas, corresponderia a “custos” ou a “investimento”, tomando estes conceitos no sentido relacionado com “dinheiro”:

- Quantos professores se encontram de baixa por burnout (para referir só esta doença, que tem números comprovados em estudos)? Por cada professor de baixa, é-lhe pago o seu vencimento, é necessário desenvolver um processo burocrático (com custos) para a sua substituição e é preciso pagar o vencimento do docente que o substitui. Uma baixa médica carece da intervenção de profissionais (exemplos: médicos, funcionários administrativos) e de procedimentos burocráticos, com implicação de custos.

- Quantos professores se encontram a trabalhar com elevados graus de desgaste e até mesmo já em situação de burnout, ou afetados por outras doenças, todas inviabilizando um eficaz cumprimento da profissão?

Pessoas nesta situação ficam mais fragilizadas, com problemas de saúde, que se vão continuamente agravando. Os gastos que fazem em consultas médicas, tratamentos e medicação são também comparticipados pelo Estado. Muitas vezes, estes profissionais veem-se obrigados a meter atestados a que procuram dar uma duração o mais curta possível. Se for inferior a um mês, surgem “apenas” os gastos com a burocracia e a ocupação dos funcionários administrativos, mas… até se poupa porque, além de não lhes ser pago o subsídio de alimentação, há um desconto significativo no ordenado. Contudo, se essa baixa, mesmo que curta, ultrapassar um mês, já implica os custos referidos no ponto anterior.

Vamos agora falar de outras contas:
- Quais os custos para a aprendizagem, para a integração na escola e para o sucesso académico de alunos que veem os seus professores serem substituídos? A substituição pode acontecer, com sorte, numa só disciplina e só uma vez no ano. Mas acontece o professor de uma disciplina (ou o professor titular, no regime de monodocência) ter necessidade de meter vários atestados durante o ano porque, tentando regressar ao trabalho, não aguenta a sobrecarga, e novamente tem que se render à evidência de não estar em condições de trabalhar. Os seus alunos acabam por ter vários professores ao longo do ano, numa total descontinuidade do processo de ensino-aprendizagem, com sucessivas adaptações a novos docentes, com personalidades diferentes e métodos de ensino próprios. Esses professores acabam também por não terem tempo para conhecer bem os alunos e por não terem condições de assegurar a continuidade necessária para que uma disciplina veja o seu programa lecionado eficazmente.

Propositadamente deixei de parte os custos e os investimentos na perspetiva do professor, para que a argumentação a favor de um regime de aposentação aos 60 anos não fosse olhada como a defesa de um privilégio.

Falei de custos e investimento para a aprendizagem. Mas acrescentei custos e investimento “em dinheiro vivo”. Vamos a contas! É tempo de fazer estudos - tendo em conta o que atrás foi referido, o que custa mais dinheiro: permitir a reforma aos 60 anos e renovar o corpo docente ou manter a idade da reforma nos 66 anos com a degradação da saúde dos professores e o aumento daqueles que precisam de meter atestados médicos, obrigando à colocação de substitutos? E, já agora, que custos (em dinheiro e não apenas em histórias de vida dos próprios) acarreta para o seu futuro o descontinuado processo de ensino-aprendizagem dos alunos que veem suceder-se diferentes professores ao longo do ano?
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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