EDUCAÇÃO

Brincadeiras perigosas

É fundamental que os pais e os professores estejam atentos aos sinais que os jovens vão dando, às suas alterações de humor, de comportamento, de aproveitamento escolar ou de outra natureza.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
No fim do ano letivo passado, surgiram notícias, nos jornais, sobre uma "brincadeira" comum em muitas escolas, conhecida como "ida ao poste" e devido à qual alguns alunos tinham mesmo ficado feridos. Pelo menos num dos casos, os pais não conseguiram descobrir as origens das lesões através do filho que, mesmo depois de descoberto o facto de ter sido vítima de tal situação, continuou a não denunciar os seus agressores.

Como diretora de turma, fui confrontada, várias vezes, com situações de agressividade entre os alunos. Até à data, embora muitas vezes alguns alunos saiam magoados, a intenção inicial não era aleijar, mas apenas brincar. Aquilo que esses jovens apelidam de "brincadeiras" ("parvas", acrescentaria eu, no mínimo) são, de facto, formas de passar o tempo bastante agressivas e perigosas. No entanto, apercebo-me de que, frequentemente, eles não têm consciência disso, apesar de frequentarem já o 2.º ciclo. São principalmente três as tais "brincadeiras parvas":

- "ida ao poste" - Um grupo de alunos segura outro pelas pernas e pelos braços, sendo cada perna segura por um único deles. A vítima, de pernas abertas, é levada contra um poste, de forma a chocar com os órgãos genitais contra ele. No caso das minhas turmas, a intenção tem sido "apenas" assustar (o que para a maior parte dos alunos é sinónimo de brincar) e, embora não tencionem concretizar o choque contra o poste, já provocaram uma entorse no tornozelo de uma aluna que, tendo conseguido libertar uma perna para se defender com ela, bateu com o tornozelo no tal poste.

- "atirar pedras" - Embora os alunos afirmem que apenas queriam brincar e não fizeram pontaria a ninguém, ou por erro de pontaria, ou porque apareceu alguém a correr na trajetória da pedra, ou porque houvesse mesmo a intenção de acertar, lá apareceram diversos alunos magoados. Felizmente, até agora ainda não me chegaram ocorrências graves.

- "wrestling" - É frequente os alunos imitarem as lutas de wrestling que veem na televisão. Se os seus heróis não se magoam, por que razão se haviam de magoar eles? O pior, é que de quando em quando se magoam mesmo.

Se, às vezes, tenho conhecimento das situações porque alguns alunos as denunciam, outras vezes descubro-as por observar neles expressões ou atitudes que não me parecem habituais e que me preocupam ou por ouvir pedaços de conversas que me deixam com "a pulga atrás da orelha".

Não pretendo, com este artigo, apontar soluções que resolvam o preocupante problema da agressividade entre os jovens (seja nas escolas, seja noutros locais onde brincam em grupo). Pretendo levantar algumas questões para reflexão e partilhar algumas estratégias que adoto.

A primeira reflexão é um levantamento de problemas existentes nas escolas e nas famílias que, na minha opinião, podem favorecer este tipo de brincadeiras: a existência de escolas sobrelotadas; a inexistência de auxiliares de ação educativa suficientes para fazerem uma adequada vigilância dos recreios das escolas; a existência de televisão no quarto dos jovens e a ausência de controlo da qualidade dos programas a que eles assistem (como o wrestling); alguma permissividade de muitos adultos perante brincadeiras que podem ser perigosas.

Como referi anteriormente, ainda não me encontrei perante casos verdadeiramente graves, mas penso que é muito importante agir sempre, independentemente dos resultados dessas "brincadeiras". Parece-me fundamental ajudar os jovens a saberem colocar-se no lugar do outro e, assim, imaginarem o sofrimento que ele poderá sentir. As mazelas de se ser "levado ao poste", por exemplo, não se limitam às físicas. E a humilhação? E o medo de se ser gozado? E o medo de contar aos adultos e sofrer represálias dos colegas por isso? Debates sobre o tema, leitura e comentários de notícias, dramatizações de situações, análise dos problemas ocorridos na turma são exemplos de algumas das atividades que já tenho desenvolvido para tentar ajudar os alunos a controlarem a sua agressividade e a colocarem-se no lugar do outro.

Qualquer intervenção será mais eficaz se contar com a colaboração da família. Como faço reuniões de encarregados de educação e de alunos com frequência, o ambiente é de grande confiança e colaboração e há espaço e clima para se discutirem estes problemas e se encontrarem estratégias para colaborar na sua resolução. A comunicação entre a diretora de turma e os encarregados processa-se com facilidade e nos dois sentidos e os problemas podem ser resolvidos mais rápida e eficazmente.

As sugestões que dou não são soluções únicas e podem não se aplicar em todos os casos. Os problemas que levanto mereciam, cada um deles, um artigo ou mais. As "brincadeiras" de que falei podem ser mais graves quando se dirigem frequentemente para a mesma vítima, que acaba por ser alvo de bullying, forma de agressão física e/ou psicológica intencional e continuada. É fundamental que os pais e os professores estejam atentos aos sinais que os jovens vão dando, às suas alterações de humor, de comportamento, de aproveitamento escolar ou de outra natureza. O que estará por trás delas? Se começarmos a puxar o fio, poderemos acabar por descobrir situações como aquela que descrevi no início deste artigo.

Gostaria de sugerir algum tema para abordagem neste espaço?
Envie-nos as suas sugestões.
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários seja o primeiro!